RETRATO DA SEMANA


Vamos escolher com muita consciência quem vai comandar nossa nação pelos próximos quatro anos. Estaremos todos no mesmo barco.
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terça-feira, 20 de março de 2018

ONDE ESTÁ A MALFADADA CARTA???


O episódio mais nebuloso da Guerra dos Farrapos, sem dúvida alguma, foi a Batalha dos Porongos. Deste massacre já em meio a um processo de paz, resultou na morte do Coronel Teixeira Nunes, na prisão de 280 homens de infantaria e na morte de uma centena de soldados negros. Segundo registra a história estes soldados, em sua maioria componentes da 1ª Brigada de Cavalaria, ou seja, os Lanceiros Negros, estavam desarmados de seus cartuchames por ordens do General David Canabarro que temia uma insurreição pelo fato de os imperiais não aceitarem a liberdade dos escravos prometida pelos republicanos.  
 
O que fez aumentar as animosidades e até hoje resulta em graves discussões aonde alguns historiadores chamam tal episódio de "traição" foi uma carta que teria sido escrita pelo então Conde de Caxias a seu comandante Moringue.     

 

Eis o que estaria escrito em tal correspondência: 

“Ilmo. Sr. Regule V. Sa. Suas marchas de maneira que no dia 14 às 2 horas da madrugada possa atacar a força ao mando de Canabarro, que estará nesse dia no cerro dos Porongos. (…) No conflito poupe o sangue brasileiro quanto puder, particularmente da gente branca  da Província ou índios, pois bem sabe que essa pobre gente ainda nos pode ser útil no futuro. (…) Se Canabarro ou Lucas, que são os únicos que sabem de tudo, forem prisioneiros, deve dar-lhes escapula de maneira que ninguém possa nem levemente desconfiar, nem mesmo os outros que eles pedem que não sejam presos, pois V. Sa bem deve conhecer a gravidade deste secreto negócio que nos levará em poucos dias ao fim da revolta desta Província”. 

Há tempos venho buscando os originais desta carta. Passei dias a fio pesquisando no Arquivo Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, sem sucesso. Aquilo é uma tortura. Devia ser informatizado. Tipo Google. Tu clicar num assunto e o computador te mostrar aonde tal matéria está contida. Mas nos tempos em que eu ia lá, atrás desta famosa carta, não era assim (pode ter mudado). Tinha que ler página a página, livro a livro e... nada. Aliás, muito pouco sobre a Guerra dos Farrapos. 

Me repassaram que, talvez, no Arquivo Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro, na documentação completa, inclusive correspondências particulares da vida de Caxias, eu pudesse encontrar. Fui lá e... nada. Nem sabe do que se trata.  

Pois bueno:

Na reunião mensal da Academia Maçônica de Letras, agora em março, esteve por lá palestrando sobre a entidade que preside o Sr. Miguel Frederico Espíritosanto, nada mais do que o Presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul.

Ao final da palestra, aberta a perguntas, fui o primeiro a me inscrever e adivinhem sobre o que perguntei? Exatamente. Sobre a Carta de Caxias a Moringue. 

Ele perguntou meu nome e respondeu: - Léo. Você vai morrer procurando esta carta e não vai encontrar em lugar algum. E sabe por que? Porque ela não existe. Foi uma falsificação distribuída pelos imperialistas na cidade de Piratini "após o combate de Ponche Verde", com o intuito de denegrir a imagem de David Canabarro e enfraquece-lo durante o processo de negociação da paz. 

Se for realidade o que este estudioso de nossa história me respondeu podemos questionar uma ideia que anda disseminando-se por aí de que, neste episódio, uma traição.

É claro que tal afirmativa não é definitiva e que os debates vão continuar permeando dentre nós, mas que resulta em um balde de água fria, disto não tenho dúvidas.  





     



quarta-feira, 10 de maio de 2017

UMA FICÇÃO QUE VIROU "VERDADE"


Não se nega a influência da maçonaria na Revolução Farroupilha/Guerra dos Farrapos, em ambos os lados do conflito. Contudo, certas inverdades com o bater na mesma tecla e o passar do tempo, tornaram-se "fatos históricos". É o caso do Balaústre 67 que retrata uma Sessão Maçônica no dia 18 de setembro de 1835 e que teria ditado o início e os rumos da revolta que durou 10 anos.
 
Pura balela.
 
Quem realmente escreveu o tal Balaústre (ata da Sessão), de forma criativa e inteligente, foi o maçom Dante Bósio, que morreu em 2015. Tal peça de arquitetura maçônica não tem mais de 20 anos e foi apresentada na cidade de Camaquã. Quem assistiu gostou, publicaram em jornais da região, posteriormente na internet e a brincadeira viralizou.  
 
Ontem ainda, ouvi uma rádio atestando a presença de maçons na guerra através desta "prova irrefutável".
 
Este é o perigo de não se buscar a veracidade do que se divulga.
 
Vejam, na íntegra, esta peça ficcional que tornou-se "documento comprobatório".   

Em Tempo: No livro que estamos escrevendo, através de análise crítica, apontamos uma dezena de incoerências contidas no Balaústre número 67.  
 
 

Balaústre nº 67 

Aos 18 dias do mês de setembro de 1835 E.’. V.’. e 5835 V.’. L.’., reunidos em sua sede, sito à Rua da Igreja, nº 67, em lugar Claríssimo, Forte e Terrível aos tiranos, situado abaixo da abóbada celeste do Zenith, aos 30º sul e 5º de latitude da América Brasileira, ao Vale de Porto Alegre, Província de São Pedro do Rio Grande, dependências do Gabinete de Leituras, onde, neste momento, funciona a Loj.’. Maç .’. Philantropia e Liberdade, com o fim de,especificamente, traçarem as metas finais para o início do movimento revolucionário, com que seus integrantes pretendem resgatar os brios, os direitos e a dignidade do povo Riograndense, se reuniram IIr.’. da LOJA.A sessão foi aberta pelo Ven.’. Mestre, Ir.’. Bento Gonçalves da Silva. Registre-se, a bem da verdade, ainda as presenças de nossos IIr.’. José Mariano de Mattos, nosso ex - Ven .’., Ir.’. José Gomes de Vasconcellos Jardim, Ir.’. Pedro Boticário, Ir.’. Vicente da Fontoura, Ir.’. Paulino da Fontoura, Ir.’. Antônio de Souza Neto e deste Ir.’. Domingos José de Almeida, que serviu como Secretário, lavrando o presente Balaústre. Logo de início, o Ven .’. Mestre, depois de tecer breves considerações sobre os motivos da presente reunião, de caráter extraordinário, informou que o nosso movimento revolucionário estava prestes a ser desencadeado. A data escolhida, é dia vinte de setembro do corrente, isto é, depois de amanhã. Nesta data, todos nós, em nome do nosso Rio Grande do Sul, nos levantaremos em luta contra o imperialismo que reina no País. Na ocasião, ficou acertada a tomada da Capital da Província pelas tropas dos IIr.’. Vasconcellos Jardim e Onofre Pires, que deverão se deslocar desde a localidade de Pedras Brancas, quando avisados. Tanto o Ir.’. Vasconcellos Jardim como o Ir.’. Onofre Pires, ao serem informados, responderam que estariam a postos, aguardando o momento para agirem. Também se fez ouvir o nobre Ir.’. Vicente da Fontoura, o qual sugeriu que tomássemos o máximo cuidado, pois que, certamente,Braga, o Presidente da Província, seria avisado do nosso movimento. O Tronco de Beneficência fez a sua circulação e rendeu a medalha cunhada de 421$000, contados pelo Ir.’. Tes.’. Pedro Boticário. Por proposição do Ir.’. José Mariano Mattos, o Tronco de Beneficência foi destinado à compra de uma Carta da Alforria de um escravo de meia idade,no valor de 350$000, proposta aceita por unanimidade. Foi depois realizada uma poderosa Cadeia de União, pela justiça e grandeza da causa, pois em nome do povo Riograndense, lutaríamos pela Liberdade, Igualdade e Humanidade, pedindo a força e proteção do G.’. A.’. D.’. U.’. para todos os IIr.’. e aos seus companheiros, que iriam participar das contendas. Já eram altas horas da madrugada quando os trabalhos foram encerrados, afirmando o Ven.’. Mestre que todos deveriam confiar nas LL .’. do G.’. A.’. D.’. U.’. e depois, como ninguém mais quisesse fazer uso da palavra, foram encerrados nossos trabalhos, do que eu, Ir.’. Domingos José de Almeida, como Secretário, tracei o presente Balaústre, a fim de que nossa História, através dos tempos, possa registrar que um grupo de maçons, homens “livres e de bons costumes”, empenhou-se com o risco da sua própria vida, para restabelecer o reconhecimento dos direitos desta abençoada terra, berço de grandes homens, localizada no extremo sul de nossa querida Pátria. 

Oriente de Porto Alegre, aos dezoito dias do mês de setembro de 1835 da E.’. V.’., 18º dia do sexto mês, Tirsi, da V.’. L.’. do ano de 5835. 

Ir .’. Domingos José de Almeida
 Secretário

 

 

 

terça-feira, 25 de outubro de 2016

SIMBOLOGIA DO LENÇO FARROUPILHA



- As duas colunas do Hércules da mitologia grega significam que o poder e a sabedoria de Deus estão acima do julgamento dos homens.- Nos triângulos do quadrilátero as estrelas flamígeras de cinco pontas, com o vértice voltado para cima significando o retorno do homem material à morada do divino, fundamento da verdadeira religião (do latim religare).
 
- As espadas símbolos da justiça e da inflexibilidade no cumprimento da lei.
 
- Os ramos de acácia, evocação do florescimento das idéias que devem encher de beleza a vida dos homens. E da mesma forma que o caduceu de mercúrio (símbolo da medicina) os canais secretos do corpo humano que devem levar as energias até o Santo Graal “cérebro” para a transmutação do ser humano.
 
- No centro, um símbolo da coluna com suas 33 vértebras simbolizadas nos 33 graus do mestrado.
 
- A trombeta representa a divulgação dos ideais.
 
- Nas periferias do lenço uma cronologia das batalhas Farrapas.
 
- O anjo que toca a trombeta mostra de onde vêm esses ideais.
 
- As nove lanças representam cabalisticamente o numero nove, a descida à nona esfera, o resgate dos valores necessários para o acesso ao Supremo Arquiteto do Universo.
 
- O número 3, o número místico das idades sagradas, está subliminarmente em todo o lenço e representa o Terceiro Logos, as três formas primarias da criação, a Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo.
 
 
 
 
 
 

domingo, 18 de setembro de 2016

DEZ MOTIVOS PARA COMEMORAR


A GUERRA DOS FARRAPOS
 
 
 Sobre o porquê de comemorar "uma guerra que perdemos", eu respondo:
 
 
1° - Comemoro a insubmissão de um povo a uma Monarquia, chamando a atenção da Corte para uma Província esquecida e explorada nos confins da república.
 
2º - Comemoro a bravura de quem, com menos homens, armas e cavalos, mas sobrando valentia, enfrentou por dez anos o Império deixando marcos históricos como a Batalha do Seival, a Tavessia dos Lanchões de Garibaldi e a Fuga de Bento Gonçalves. 
 
3º - Comemoro o surgimento nesta terra de heróis como o General Antônio de Souza Netto, Coronel Teixeira Nunes e da 1ª Brigada de Cavalaria dos Lanceiros Negros   
 
4º - Comemoro o fato de, apesar dos esparsos recursos probatórios, não nos acomodarmos com as definições e rebuscarmos a veracidade histórica de passagens como a Batalha dos Porongos.

5 - Comemoro porque a "guerra que perdemos" nos deu uma identidade própria, diferenciada, no Sul do Brasil.
 
6º - Comemoro poder cantar, como em nenhum outro Estado brasileiro, o Hino da minha terra, e ver fulgurar em milhares de eventos o pavilhão tricolor surgido naquele decênio heroico.

7° - Comemoro porque essa epopeia foi um dos motivos para o surgimento de um movimento cultural que fez avivar nosso folclore através da musicalidade, da poesia, das danças, dos cinemas, dos rodeios, expandindo-se para o resto do mundo, aonde houver um gaúcho.  
  
8º - Comemoro o orgulho que ainda resta, apesar da violência, da pobreza educacional, enfim, da falência monetária desta outrora pujante Província de São Pedro.  
 
9 º - Comemoro porque, graças a "petulância" dos Farroupilhas, a cada mês de setembro eu posso rever meus amigos de causa e tradição.   
 
10° - Comemoro para saborear o desgosto dos escritores "rio-grandenses" (e seus asseclas) que se indignam com a minha comemoração.


 
 
 
 

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

UMA BRASA QUE, AO SOPRAR, SE AVULTA.


 
Tirando uma vasa para entender melhor sobre
A BATALHA DOS PORONGOS
 
Ando meio recluso, refugando convites, nestas comemorações do mês farroupilha. Uma palestra aqui, uma ida no Acampamento ali... No mais vou ficando pelas casas. Mas não de valde. Tirei meu tempo para ler uns livros sobre um assunto que me interessa por demais. A Batalha dos Porongos, um episódio nebuloso que ainda hoje é debatido. Como quero me posicionar, devo esmiuçar o assunto.
 
Os livros que estou lendo são Lanceiros Negros, de Geraldo Hasse e Guilherme Kolling, e Porongos: Fatos e Fábulas, de Cesar Pires Machado. Devo confessar que estou gostando muito pois nenhum traz a passionalidade da obra Negros na Revolução Farroupilha, de Moacyr Flores, por exemplo, um crítico contumaz da Revolução.
 
Ontem a noite, nas comemorações dos 11 anos do Piquete Fraternidade Gaúcha, lá no Acampamento Farroupilha, o assunto veio a baila e os ânimos se exaltaram novamente, mas tudo dentro da normalidade de Homens de Bons Costumes.
 
Assim que terminar minhas leituras vou fazer uma matéria sobre o assunto. Uma coisa, porém, eu adianto: Existe muitas tendências do que tenha ocorrido. Poucas ou quase nenhuma verdade definitiva, o que dá vasa para todo o posicionamento. Para cada ponto há um contraponto.
 
Mas que a matéria é instigante, há, isto é...
 
 
    
 
   


sexta-feira, 2 de setembro de 2016

ÚNICA IMAGEM DE BENTO GONÇALVES


TERIA SIDO ENCONTRADA EM MUSEU

Fotografia inédita foi encontrada em museu de Júlio de Castilhos 
          Foto: Félix Zucco / Agencia RBS
 
Guardadas como tesouros por descendentes ou exibidas como preciosidades em museus, relíquias de todos os tipos ajudam a reforçar o culto à Revolução Farroupilha. Deste domingo até o dia 17, por meio de 10 objetos selecionados por ZH, capítulos desta história serão resgatados. Nesta primeira reportagem, a controvérsia a respeito da foto que seria do general Bento Gonçalves.

Quando tudo sobre a Guerra dos Farrapos parecia já ter sido escrito, eis que surge uma nova imagem da revolução que forjou a identidade do Rio Grande do Sul – e um novo enigma. Uma fotografia inédita encontrada no Museu Julio de Castilhos, que retrataria o general Bento Gonçalves, voltou ao centro de debates, dividindo opiniões e multiplicando teses sobre a representação do principal líder farroupilha.
 
Três pares de olhos examinam durante quase duas horas aquele retrato em tom sépia de personagem com olhar firme e lábios finos pronunciados em um biquinho, no Museu Julio de Castilhos, em Porto Alegre, tentando decifrar seu mistério.

Esquecida em uma pasta etiquetada anos atrás por uma estagiária, com o adesivo “Personalidades Históricas Públicas”, a fotografia desbotada causa furor desde que foi redescoberta no acervo mais antigo do Rio Grande do Sul, identificada como uma imagem de general Bento Gonçalves – supostamente a primeira e única da história a retratar o principal líder da Revolução Farroupilha, iniciada há 178 anos.

— E aí, se emocionou ou não? — pergunta ao final o diretor do museu, Roberto Schmitt-Prym, ao publicitário Raul Justino Ribeiro Moreira, tataraneto de Bento Gonçalves e presidente da associação da família, que fez questão de ir ao Julio de Castilhos na tarde de terça-feira para analisar a imagem, ao lado da historiadora Elma Sant’Ana — com quem está escrevendo em parceria uma biografia sobre Bento.

Moreira, que chegara desconfiado da possibilidade de existir um retrato original de seu tataravô, responde balançando a cabeça de cima para baixo, em gesto afirmativo. Depois de comparar minuciosamente a fotografia com a pintura do general em exposição no museu, saiu mais otimista.

— Alguns traços são realmente muito parecidos. É difícil assinar embaixo, mas é bem interessante — avaliou.

A ausência de registro da data em que foi feita aumenta a polêmica. O cartão que acompanha a fotografia traz o nome do fotógrafo H. Fritot, com a inscrição “Photografia Parisiense” e a cidade de Bagé. Como Bento morreu em 1847, antes da difusão de estúdios fotográficos no país, a direção do museu acredita que se trate de uma reprodução feita a partir de um daguerreótipo, imagem em placa de prata produzida pelo primeiro equipamento fotográfico fabricado em escala comercial.

Ainda assim, como a técnica surgiu 10 anos antes da morte de Bento, o líder farrapo precisaria estar entre os primeiros brasileiros a acompanhar a vanguarda internacional para a tese ser factível. 
 
 Foto foi achada no ano passado, mas  só foi divulgada agora.
Foto: Félix Zucco


A foto foi localizada às vésperas da Semana Farroupilha do ano passado, quando funcionários procuravam materiais relativos ao período em suas pastas guardadas na reserva técnica, mas só foi divulgada agora, após a realização de pesquisas que, se não conseguiram comprovar a hipótese, pelo menos não a descartaram. Até então, a imagem considerada mais fiel de Bento era uma pintura anônima, em exposição no Julio de Castilhos.

— Foi uma surpresa enorme. Acho que agora chegou o momento de apresentar ao público e aos historiadores — afirma Prym, explicando que não é estranha a redescoberta tardia de relíquias como esta: a maioria das 11 mil peças do acervo nunca foi estudada — e só metade está digitalizada.

Apesar de destacarem que seria necessário um estudo mais aprofundado para garantir a autenticidade, historiadores como Gunter Axt, professor do mestrado em memória social e bens culturais do Unilassale e pesquisador associado da USP, e Spencer Leitman, historiador norte-americano brasilianista, autor de Raízes Sócio-econômicas da Guerra dos Farrapos, consideram a versão plausível.

— Se comprovado cientificamente ser uma fotografia autêntica de Bento, será uma descoberta verdadeiramente importante. A fotografia era um campo experimental na época, que atraiu as mais brilhantes mentes. Talvez entusiasmado com essa descoberta, acho que consigo ver como a guerra devastou o rosto de Bento: ele envelheceu, a guerra drenou a vida extraordinária que tinha levado  empolgou-se Spencer, depois de analisar uma cópia escaneada da imagem, nos Estados Unidos.

Já o historiador Moacyr Flores, estudioso da temática farroupilha e autor de mais de 20 livros, rechaça a hipótese. Além de cogitar que seja a foto de um desenho, garante que não é Bento o retratado. Pelos traços, sustenta que seja outro farrapo, bem menos ilustre: Manuel Carvalho de Aragão e Silva, que chegou a tenente-coronel na guerra.

A descrença é compartilhada pelo pesquisador das origens da fotografia no Brasil e no Rio Grande do Sul Ronaldo Marcos Bastos — que acredita se tratar de um retrato original, mas de alguém parecido com o líder farrapo.

— Teriam de ser muitas coincidências para que fosse Bento — diz.

Apesar das divergências, o museu pretende ampliar a imagem e exibi-la como um retrato presumido de Bento, ainda este mês. Mesmo sem certeza?

— Claro. O Masp tem um quadro lá, que Pietro Maria Bardi, o diretor na época, colocou lá: “Pintura de Rembrandt”. E aí botou entre parênteses, pequenininho, embaixo: “Uma comissão do museu da Holanda acha que não é” —  responde o diretor, lembrando que a história é feita de versões.
 
Texto: Letícia Duarte


quinta-feira, 10 de setembro de 2015

A FUGA DE BENTO GONÇALVES - PARTE V


A EXECUÇÃO DA FUGA

Segundo alguns depoimentos, nas visitas constantes, ao Comandante do Forte do Mar, o Capitão Machado comprometeu-se em ajudar, porém pediu que não o envolvesse diretamente na ação. Portanto, foi necessária uma soma elevada, tanto para pagamento de propinas às sentinelas  e ao Comandante do Destacamento da Guarda, como para a operação de resgate e transporte de retorno. Para isso, no dia 04 de setembro, o ourives Manoel Gomes Pereira emprestou, em nome de Bento Gonçalves, 5.638,500 (cinco contos, seiscentos e trinta e oito mil e quinhentos réis). Este dinheiro foi causa de desavença posteriormente.

Na semana anterior a fuga, Bento Gonçalves já havia recebido licença para tomar banho de mar  próximo à rampa de acesso junto ao Forte, por lá existir um banco de areia onde, nos horários de maré baixa, a profundidade é pequena. No dia combinado, 10 de setembro, uma canoa com oito tripulantes vestindo camisa azul, simularia pescar na redondeza. Por volta das 10 horas Bento Gonçalves nadava junto ao forte, vigiado apenas por um sentinela, quando foi resgatado, de onde seguiu para a Ponta do Manguinho, na Ilha de Itaparica, sendo ele recebido pelo Capitão Manoel Joaquim Tupinambá, Juiz de Paz da Vila de Itaparica, que o acoitou em sua propriedade rural. 

Quando acalmou a agitação, por volta das 13 horas, o Te. Cel Pinto Garcez, enviou um ofício ao Presidente da Província participando o ocorrido. Solicitava que mandasse prender imediatamente o Comandante do Forte e o Comandante do Destacamento da Guarda, bem como as praças que estavam de sentinela na hora da fuga. Ainda pedia que fosse mandado proceder um Conselho de Investigação para que pudessem ser conhecidos os verdadeiros  fatos da fuga  e, com isso, serem julgados os culpados. 

Após uma semana, no dia 18 de setembro, o Presidente da Província escreve ao Ministro da Justiça, dizendo não ter conseguido capturar Bento Gonçalves e dá por encerradas as diligências a respeito. Cessadas as buscas, no início de outubro Bento Gonçalves foi trazido novamente para Salvador, sendo recebido pelo Ten. Cel Francisco José da Rocha.

Com a finalidade de dissimular seu retorno Fizeram o Governo acreditar que ele embarcaria em um navio para a América do Norte. Na verdade ele embarcou na Samuca Estrela do Sul, uma embarcação do maçom Antônio Gonçalves Pereira Duarte, que havia chegado com charque do Sul e retornava com farinha para Montevidéu.

Na cidade de Desterro (hoje Florianópolis) Bento Gonçalves desembarcou e veio, a cavalo, em direção a Viamão, onde se reuniu à força republicana que sitiava Porto Alegre, ali chegando no dia 10 de novembro.

 Óleo sobre tela de Guido Mondin
 


         

   

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

A FUGA DE BENTO GONÇALVES - PARTE IV


OS ENVOLVIDOS NA FUGA


As três principais autoridades baianas envolvidas na fuga foram:
 
Francisco de Souza Paraíso (Presidente da Província): Nasceu em Salvador, formado em direito, chegando a desembargador, na Bahia. Em 1824, como Ouvidor da Comarca de Vila do Conde-PB, foi simpático à causa dos revolucionários da Confederação do Equador. Foi Presidente da Província da Bahia de 1835 a 1837.
 
Tenente Coronel Luiz da França Pinto Garcez (Comandante das Armas da Província): Nasceu em Lisboa em 1799 e sentou praça na Legião de Caçadores da Bahia. Como major, participou da Batalha do Passo do Rosário em 1827. Em 1835, como Tenente Coronel, foi nomeado Comandante das Armas da Província da Bahia e lá permaneceu até 1938. Em 1863 morreu no posto de Tenente General.
 
Francisco Gonçalves Martins (Juiz de Direito e Chefe de Polícia de Salvador): Nasceu em Santo Amaro-BA, em 1807. Estudou direito em Coimbra. Foi desembargador, deputado pela Bahia de 1834 a 1851, senador e presidiu a Bahia duas vezes, além de ser Ministro do Supremo Tribunal de Justiça.   
 
Podemos citar seis pessoas envolvidas diretamente no planejamento e na execução do plano de fuga:
 
MANOEL GOMES PEREIRA (republicano, de profissão ourives): Tinha casa no Largo da Piedade, onde ocorriam as reuniões preparatórias para a revolta de 07 de novembro de 1837, também assinando a ata da sessão da Câmara Municipal, no dia da revolta. Estava em Montevidéu quando a Sabinada foi sufocada, dali vindo para o Rio Grande do Sul onde foi coronel, ajudante de ordens, de Bento Gonçalves. Participou da Revolução até 1840, quando foi para o Rio de Janeiro e lá estabeleceu-se como banqueiro.

FRANCISCO JOSÉ DA ROCHA (Ten Cel de 1ª linha): Pertencia ao Batalhão de Caçadores de Salvador. Esteve envolvido na Sabinada fugindo do julgamento dos revoltosos veio fazer parte das tropas farroupilhas. Pelo decreto de 25 de junho de 1839, Bento Gonçalves concedeu a ele, em Caçapava, o posto de tenente Coronel, no comando do 2° Batalhão de Caçadores de 1ª Linha. Neste Decreto está registrado que "apesar da espionagem inquisitorial do governo" ele havia se mostrado solidário aos rio-grandenses presos na Bahia e havia cooperado para sua liberdade. Entre 1841 a 1843 foi Chefe de Polícia na cidade de Canguçu. Maçom que, por possuir o Grau 30, através de diploma assinado em 1843, elevou ao Grau 18 o seu Irmão maçom David Canabarro.

MANOEL JOAQUIM TUPINAMBÁ (Capitão da Guarda Nacional): Maçom, exercia a função de Juiz de Paz na Ilha de Itaparica, onde tinha propriedade rural e onde Bento Gonçalves refugiou-se, por quase um mês, após a fuga do Forte do Mar.

ANTÔNIO GONÇALVES PEREIRA DUARTE (Comerciante): Rico homem de negócios, ligados ao transportes marítimos. Quando começou a Revolução Farroupilha ele morava em Porto Alegre e era vice-cônsul livre da cidade de Hamburgo. Simpático aos farroupilhas emitiu uma nota para que os hamburgueses moradores da Província não pegassem em armas contra os farrapos. O Governador Fernandes Braga pede ao Regente, no Rio de Janeiro a suspensão de seu título honorífico. Em virtude deste incidente Pereira Duarte vai para o Rio de Janeiro e depois se estabelece comercialmente em Salvador. Em 1° de julho de 1837, ele foi iniciado como maçom na Loja Fidelidade e Beneficência.

MANOEL VIEIRA MACHADO (Capitão de Artilharia de 1ª linha): Era natural da Bahia. estava no comando do Forte do Mar na ocasião da fuga de Bento Gonçalves. Era maçom e um dos fundadores da Loja Fidelidade e Beneficência.

DOMINGOS DE GUSMÃO VIANNA (Alferes de 1ª linha - Comandante do Destacamento do Forte): Era natural da Bahia. Este militar e Manoel Vieira Machado, responderam ao Conselho de Guerra e foram presos no Forte de São Pedro.

Manoel Vieira Machado, Comandante do Forte do Mar, ficou impedido de comandar pelo período de dois anos e Domingos de Gusmão Vianna foi condenado a 10 anos de prisão. Completou 8 destes anos quando foi anistiado.      








     

terça-feira, 8 de setembro de 2015

A FUGA DE BENTO GONÇALVES - PARTE III

 
SUA ESTADA NO FORTE DE MAR 
 
Como se viu, já na sua chegada na Bahia, ou mesmo antes, Bento Gonçalves buscou contato com a maçonaria local, enviando cartas as Lojas, solicitando apoio de seus Irmãos. Em 28 de agosto de 1837, em sessão na Loja Virtude, era apresentada uma de suas cartas. O historiador baiano Pedro Calmon foi quem as localizou e leu pela primeira vez, no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia.
 
Com a mesma finalidade, em 30 de agosto lia-se em uma sessão da Loja Fidelidade e Beneficência outra carta de Bento Gonçalves. Tal como se vê do extrato da Ata da 132ª Sessão:
 
        Aos trinta dias do sexto mês Maçon do ano da ver:. L:. 5.837,  reunidos os Ipor nãointeressar no momento) - Teve lugar igualmente a leitura de uma outra pranch.: dirigida ao Ir.: R.: C.: Bento Gonçalves da Silva, prezo no Forte do Mar por efeito de pollitica, fazendo ver o estado em que se achava, e pedia o único recurso de lhe serem ministrados meios de ser mudado, para uma outra prisão commoda, onde fosse licito fallar aos seus amigos: do que sendo a Loj.: inteirada foram nomeados pelo Ir.: Ven.: para visitarem ao dito Ir.: e lhe oferecerem os socorros de que precisasse e estivesse ao alcance da Loj.: os IIfr.: Orad.: e Mest.: de Cerim.:  
 
No sentido de ajudá-lo em tudo que fosse possível, várias foram as visitas realizadas a ele, uma vez que os sobreiros da Loja Fidelidade e Beneficência estavam à frente dessa empreitada. Inclusive o Comandante do Forte do Mar, Capitão Manoel Vieira Machado, também era maçom e um dos fundadores desta Loja, tendo ele pertencido ao Supremo Conselho do Rito Escocês, da qual Francisco Gê Acayba de Montezuma foi seu Soberano e Grande Comendador.
 
Este fato mostra, conforme veremos mais adiante, o porque Montezuma foi duramente atacado na imprensa e na Câmara de Deputados, onde todos o  acusavam de ter enviado Bento Gonçalves para a Bahia, pois sabia quem, na realidade, poderia contribuir para a sua fuga na cidade de Salvador.
 
A solidariedade não tardou. Na manhã do domingo, 10 de setembro, Bento Gonçalves fugia, auxiliado por seus Irmãos baianos. Ele ficou exatamente 15 dias presos no Forte do Mar e, praticamente, um mês escondido após sua fuga, aguardando oportunidade de retorno. 
 
  
 Óleo sobre tela de Guido Mondin
 


sábado, 5 de setembro de 2015

A FUGA DE BENTO GONÇALVES - PARTE II


A CHEGADA DE BENTO NA BAHIA

 Forte de São Marcelo, ou Forte do Mar

No início de agosto de 1837, o Ministro da Justiça, Francisco Gê Acayaba de Montezuma, oficia ao Chefe de Polícia da Côrte dizendo que: "...vosmece amanhã á quinta feira 10 do corrente faça intimar pelas seis horas da manhã ao preso Bento Gonçalves da Silva que se acha na Fortaleza da Lage, que deve partir impreterivelmente para a Bahia no Brique de Guerra Constança que ha de largar deste Porto no dia immediato 11..." .

E assim aconteceu. O Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, no dia seguinte, informava o movimento no porto e dizia que aquele brigue seguia para Pernambuco, a cruzar pela Bahia. Informava ainda que seus passageiros eram o Arcebispo da Bahia com seu capellão e dois criados, além de Vencesláo Antonio Ribeiro, João Carneiro da Silva Rego, João Alves Pitombo, Francisco Alves Branco e o preso Bento Gonçalves da Silva.

João Carneiro, em 1822, já havia sido remetido para Lisboa, por envolvimento nos movimentos nacionalistas da Independência, na Bahia. Na Sabinada, foi um dos revoltosos. João Alves Pitombo era maçom Grau 30, e pertencia a Loja Fidelidade e Beneficência, que teve participação direta no auxílio a fuga de Bento Gonçalves.

Logo, nesta viagem de 15 dias, é natural deduzir que ambos trocaram ideias com Bento Gonçalves sobre os acontecimentos políticos do Sul e da capital baiana, sendo provável que o Irmão Pitombo já desembarcaria em Salvador e levaria a sua Loja uma proposta de ajuda ao Irmão gaúcho.  

No dia 26 de agosto, chegou Bento Gonçalves em Salvador, sendo recolhido ao Forte de São Marcelo (Forte do Mar). Este forte está localizado em um banco de areia a 300 metros do Porto de salvador, área mais antiga da cidade. Foi originalmente conhecido por "Fortaleza de Nossa Senhora do Pópulo".

O jornal baiano Recopilador Analysta publicou larga matéria sobre a chegada de Bento à Bahia. Dele, extraímos este trecho:

".... consta que, apenas chegado este Coronel, se lhe apresentárão alguns exploradores comissionados da Santa (mas não he muito) Causa, com grandes barretadas, rapapés, adulações e ofertas, persuadidos de que era chegado o Messias e que a cousa pegaria: mas o desgraçado Militar, já acossado de revezes, olhando com despreso para as carêtas que o procurárão, reconheceu nelles promessas em cumprimento, e letras sem aceitante, de que resultou voltarem corridos como cães que levarão pedradas.

O Coronel parece que estudou Lavater depois que foi preso, e por isso refutou as ofertas dos desconhecidos que forão importunar. O seu ar secco, seu aspecto melancolico e sizudo, e sobretudo a experiência, e as adversidades por que tem passado desarmarão a ousadia dos pingões ensejantes......".



 


 

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A FUGA DE BENTO GONÇALVES - PARTE I


A partir de hoje, durante seis dias consecutivos, passaremos a relatar, com uma riqueza de detalhes pouco vista, um dos episódios mais impressionantes da Guerra dos Farrapos, ou  seja, a fuga de Bento Gonçalves do Forte do Mar, na Bahia, ajudado por Irmãos maçons.

Tais informações foram obtidos por MANUEL ALMEIDA VASCONCELLOS, no Uruguai, em maio de 1840, através dos relatos de GOMES PEREIRA, responsável pela fuga de Bento na Bahia, e que acabou tornando-se seu coronel ajudante de ordens até virarem inimigos por questões financeiras.

Gomes Pereira, com o intuito de obter anistia total pelo seu envolvimento, tanto na Sabinada como na Revolução Farroupilha, revela como se deu a fuga, quanto dinheiro foi gasto no suborno dos militares envolvidos, no transporte, etc... E, para completar, faz uma série de delações sobre tudo que ele sabia da tropa farroupilha e sobre alguns militares legalistas, que eram solidários ao movimento revoltoso. 

Este fato atesta que "delação premiada" não é um procedimento novo, ou seja, dos dias atuais.

PARTE I

A PRISÃO NO RIO DE JANEIRO 

A Revolução farroupilha seguia seu curso, tendo já completado um ano soba a liderança do Coronel Bento Gonçalves. Como maçom, pertenceu a Loja Filantropia e Liberdade, fundada em Porto Alegre, em 1831, tendo sido eleito seu Venerável em dezembro daquele ano. No ano de sua prisão, ele já havia sido elevado ao grau 18º, Cavaleiro Rosa Cruz.

Nas operações de 1836, a 4 de outubro, Bento Gonçalves é derrotado e preso no Combate da Ilha do Fanfa, localizada no Rio Jacuí, próxima ao município de Triunfo. Em seguida, foi transportado para o Rio de Janeiro, lá chegando a 7 de novembro, sendo encarcerado na Fortaleza de Santa Cruz, onde já se encontravam presos Corte Real e outros farroupilhas.

Não havia completado um mês, o Ministro da Justiça imperial oficia ao Ministro da Guerra que tinha tomado conhecimento de um plano de fuga do coronel Bento Gonçalves. Isto faz com que as autoridades providenciem sua transferência, junto com Pedro Boticário, para a Fortaleza da lage, também no Rio de Janeiro.

Apesar da visitação aos presos ser permitida, o controle aos visitantes era mantido sob constante vigilância. Fruto, portanto, destas constantes visitações, na noite de 10 para 11 de março de 1837 Corte Real e Onofre Pires fogem da Fortaleza de Santa Cruz. Embora o plano fosse também auxiliarem a fuga de Bento Gonçalves e Pedro Boticário, da Fortaleza da Lage, esta tentativa foi fracassada.



 Amanhã Parte II -  Bento Gonçalves é levado para o Forte do Mar, Bahia
Tela de: Guido Mondin /Acervo Assembleia Legislativa do RS 






    

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

UM LIVRO DE VALOR HISTÓRICO




Estou lendo (e me deliciando) um livro de valor histórico inestimável. Trata-se de uma obra documental que registra atos e fatos da primeira Assembleia Provincial (1835 - 1836), onde Bento Gonçalves da Silva, o líder farroupilha, era deputado. São 434 páginas onde as opiniões, os achismos, não tem vasa. É preto no branco. É um resgate dos anais da Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul.   

Neste livro estão registrada TODAS as atas, bem como as manifestações, os conclames, os proclames, os discursos de Bento, então tratado como Gonçalves da Silva, nas Sessões ou nos jornais da época. Sensacional. 

Vejam como era composta (com nomes, votos recebidos e profissão) a primeira Assembleia Provincial:

Tal resultado das eleições para a primeira legislatura, realizada em fevereiro de 1835 pelo sistema indireto, que era o então vigente, está publicado no jornal rio-grandino O NOTICIADOR de 16/03/1835 e foi o seguinte:

Bacharel Rodrigo de Souza da Silva Pontes, juiz de direito de Rio Pardo - 138 votos
Antônio José Gonçalves Chaves "proprietário" - 136 votos
Padre Francisco das Chagas Martins Ávila (o Padre Chagas) - 115 votos
Marciano Pereira Ribeiro "doutor em medicina" - 112 votos
Gabriel Martins Bastos, Tesoureiro da Alfândega - 110 votos
Bacharel João Dias de Castro, juiz municipal - 110
Padre Fidêncio José Ortiz - 108 votos
José Maria Rodrigues "proprietário" - 108 votos
Rodrigo José de Figueiredo, tesoureiro - 100 votos
Américo Cabral de Melo, "doutor em medicina" - 97 votos
José de Paiva Magalhães Calvet, "lente de geometria" - 97 votos
Antônio Joaquim da Silva Maia - advogado - 96 votos
Tomé Luiz de Souza, "cura desta capital" - 95 votos
Bacharel Joaquim Vieira da Cunha, juiz de direito de Piratini - 93 votos
João Batista de Figueiredo Mascarenhas, "doutor em medicina" - 93 votos
Bacharel Pedro Rodrigues Fernandes Chaves, juiz de direito da capital - 90 votos
Padre Sebastião Pinto do Rego, vigário de Rio Pardo - 83 votos
Francisco de Sá e Brito Júnior, advogado - 79 votos
João Francisco Vieira Braga "proprietário" - 75 votos
Sebastião Barreto Pereira Pinto, Comandante das Armas - 75 votos
José Mariano de Matos, Major de Artilharia - 74 votos
Manoel Felizardo de Souza e Melo, Inspetor de Fazenda - 73 votos
Bento Gonçalves da Silva, Coronel de Cavalaria - 69 votos
Francisco Xavier Ferreira, "proprietário" - 69 votos
Bacharel Antônio Rodrigues Fernandes Braga, Presidente da Província - 66 votos
João da Silva Tavares, "major de Guardas Nacionais" - 64 votos
Domingos José de Almeida, major idem - 62 votos

Os acima anunciados foram os 28 titulares da primeira legislatura, um dos quais notoriamente impedido de exercer a deputação, por se achar no exercício do cargo de Presidente da Província: Antônio Rodrigues Fernandes Braga. Foram considerados suplentes os de votação imediatamente inferior, os quais, em grande número, foram chamados a exercer a deputação nos conturbados períodos de novembro de 1835 em diante, quando muitos titulares se encontravam ausentes. Aí funcionaram representantes de fraquíssima votação, como foi o caso de Antônio Fernandes Teixeira, Pereira Coruja ou do famoso Pedro Boticário, que recebera apenas 32 votos.



 


 

     

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

A VIDA MAÇÔNICA DE GARIBALDI




As fontes sobre a sua iniciação e percurso maçônico são algo contraditórias: segundo alguns, foi iniciado em Itália, filiando-se depois (1837) na loja irregular "Asilo (ou Refúgio) da Virtude", do Rio de Janeiro; outros defendem que teria sido iniciado numa loja do Rio Grande do Sul, com o mesmo nome da loja do Rio de Janeiro (a loja "Asilo da Virtude", do Rio Grande do Sul, é fundada em 1833 e regularizada em 1840); outros, ainda, consideram que foi iniciado (1844) em Motevidéu, na loja "Asilo de la Virtud", loja irregular criada por norte-americanos exilados, sendo depois regularizado (18 de Agosto de 1844) na loja francesa "Les Amies de la Patrie" (fundada em 1827, loja de RF, regularizada pelo GODF em 1844 e depois integrada no Grande Oriente do Uruguai); em 1850, está filiado na loja "Tompkins" (nº 471 de Stepleton, New York); improvável será o seu putativo contacto oficial (ou reconhecimento) com a maçonaria da UGLE, dado a sua matriz conservadora. Em Março de 1862, surge como Soberano Grande Comendador do REAA do Grande Oriente de Palermo e depois, pela unificação dos três Orientes existentes em Itália (Nápoles, Turim e Palermo), é nomeado Grão-mestre do Grande Oriente de Itália (na reunião de Florença, dos dias 21 a 24 de Maio de 1864). Em 1872 é nomeado Grão Mestre Honorário "Ad Vitam" do Grande Oriente de Itália. Em 1877 a Loja "Garibaldi" de Buenos Aires nomeia-o Venerável Mestre "Ad Vitam" e, na sequência [1837-1840] da sua participação na revolução Farroupilha do Rio Grande do Sul [iniciada em 1835  - levado a cabo pelo coronel Bento Gonçalves da Silva [importante maçom, da loja de Porto Alegre, "Filantropia e Liberdade", Domingos José de Almeida, Antônio de Souza Neto, David Canabarro e outros maçons – integra a construção da jovem República Rio-grandense [que precede o triunfal movimento republicano brasileiro], recebendo a "carta de corso" e assume-se "guerrilheiro".
 
Depois da epopéia Riograndense veio o Uruguai e o retorno a Itália, de onde partiu, como "Carbonário", uma Sociedade Secreta ao estilo da maçonaria.    
 
Em Montevidéu, lugar para onde vai residir [1841], participa na defesa da cidade, organizando a "Legião Italiana" ou "Camisas Vermelhas".  Em 1848 regressa a Itália com o intuito de fundar a República e unificar a Itália. Após relativos insucessos da sua ação militar e consequente exílio (Suíça e Nice), volta a Roma (onde, então, se proclama a República) como deputado republicano, mas rapidamente tem de a abandonar, depois da sua queda, sendo perseguido na fuga por exércitos de diferentes países, pelo que se retira para Tanger (1849), partindo, depois, para Staten Island (Estados Unidos). Retoma o seu trabalho nos navios mercantes, percorrendo de novo cidades e mares, restabelecendo a sua rede de amizades e cumplicidades. Em 1854 volta a Itália, participando, como comandante das forças sardo-piemontesas (do rei Vítor Emanuel II), na conquista da Lombardia  (1859) aos austríacos. Determinado a não perder a ocasião, Garibaldi avança para o do sul de Itália, conquistando a Sicília, Sardenha e Nápoles. O reino de Itália está assim unificado (faltaria Roma), após proclamação (em 1861) de Vítos Emanuel II como rei. Garibaldi tenta, ainda, a anexação de Veneza (1866), a conquista de Trento, a invasão de Roma (onde obtêm um enorme desaire). Organiza a Assembleia de Livres-Pensadores, em Nápoles (1869). Morre a 2 de Junho de 1882, em Capri.


 
 
 
 

terça-feira, 1 de setembro de 2015

VOLTEANDO DATAS / 01 DE SETEMBRO



No dia 01 de setembro, do ano de 1838, começa a circular em Piratini, capital dos farroupilhas, o jornal O Povo, órgão oficial da República Riograndense dirigido pelo letrado italiano Louiggi Rossetti

O Povo foi o mais importante periódico oficial da recém criada República Riograndense e se autointitulava Jornal Político, Literário e Ministerial.

Era editado por Luigi Rossetti e
organizado por Domingos José de Almeida que havia comprado as prensas em Montevidéu, com o produto da venda de 17 escravos de sua propriedade no mesmo local. A tipografia e redação foram inicialmente instaladas na mesma casa onde Rossetti morava com Giuseppe Garibaldi.

Foi o primeiro periódico publicado depois da proclamação da República RioGrandense, iniciando suas funções, com sede em Piratini, de 1º de setembro de 1838 a 6 de março de 1839, depois o jornal transferiu-se para Caçapava, com a mudança da capital da República, continuando a ser editado até 22 de maio de 1840. Foi brevemente editado por Giovanni Battista Cuneo, depois da saída de Rossetti, pouco menos de um mês antes do término do jornal, já que a tipografia farroupilha foi atacada por tropas imperiais e destruída.

Era bissemanal, circulando às quartas-feiras e aos sábados, quando não havia interrupção devido a circunstâncias da guerra. Durou mais tempo e teve mais números de edições publicadas do que o jornal farroupilha anterior, O Mensageiro, que tivera pouco mais de um ano de atividade, entre 22 de abril de 1835 e 3 de maio de 1836.

Um mês e meio depois do início de sua circulação, foi proibida sua entrada em Porto Alegre.


domingo, 18 de agosto de 2013

SIRVAM NOSSAS FAÇANHAS DE MODELO


A TODA A TERRA


Que estas festividades farroupilhas que ora começam, sirvam para revigorar nosso espírito rio-grandense fazendo reflorescer o atavismo daqueles que nos deram motivos para estas comemorações. Que os valores históricos prevaleçam, que o lado cultural se sobreponha. Vamos cantar, vibrar, sem no entanto esquecer do real motivo de aqui estarmos festejando.

     

sábado, 16 de junho de 2012

PESQUISADORES DESCOBREM QUE...

...REVOLUCIONÁRIOS FARRAPOS ESTIVERAM PRESOS EM FERNANDO DE NORONHA

Em 1844 a Revolução Farroupilha, ocorrida no Rio Grande do Sul, levou para Fernando de Noronha um contingente de revolucionários. Havia a intenção de ser encaminhado para a ilha-presídio o mais famoso daqueles revolucionários: Bento Gonçalves. No brigue-escuna “Constância” saiu o herói do Rio de Janeiro (onde já estava preso) em direção ao arquipélago. Fazendo escala em Salvador, não pode o navio prosseguir... Era velho e precisava de reparos. Por isso, Bento Gonçalves foi recolhido ao Forte baiano de São Marcelo, que parecia o lugar mais seguro.

A tentação de isolar no arquipélago nordestino parte dos revolucionários acabou acontecendo, quando esses prisioneiros políticos estavam sendo levados para a Bahia e, sabendo os comandantes da operação, que emboscadas tentariam matar os heróis gaúchos, desviaram as embarcações para Fernando de Noronha, onde sabiam já estar instalado uma colônia penal. Nada foi divulgado na época.

Somente em 1938, quando veio comandar o Presídio Político o gaúcho Nestor Veríssimo foi que alguns seus auxiliares tentaram organizar velhos papéis, reunindo-os cronologicamente e por assuntos. Com surpresa, encontraram a relação dos revoltosos da Farroupilha, que teriam sido recambiados para a ilha, pelas dificuldades de desembarque na Bahia. O responsável pelo “arrumação” do arquivo, João Henrique Domingues, copiou a lista e, anos mais tarde, enviou cópia para o primo do seu antigo Diretor, o escritor Érico Veríssimo que, conhecendo seu conteúdo, repassou-a para o historiador gaúcho Walter Spalding, que escrevia a obra “Um forte baiano ligado ao Rio Grande do Sul”. E então a lista foi incluída no trabalho, esclarecendo e prisão na ilha nordestina, jamais antes divulgada.

Foram 49 prisioneiros farroupilhas, chegados na ilha em 28 de outubro de 1844, na barca “Esmeralda”. Devem ter vindo antes outros presos, dos quais não se conhece a relação nem o número de pessoas, mas se sabe, com certeza, que, em 20 de novembro daquele ano, menos de um mês após ter chegado essa meia centena de presos, 17 do primeiro grupo encaminhado - da qual perdeu-se a relação completa - estavam sendo “devolvidos”, todos embarcados para a Capital da Província de Pernambuco sendo que 16 deles “com o fim de sentarem praça” e um remetido como “criminoso de morte”. Essas iformações só foram divulgadas quando a relação chegou nas mãos de um historiador. Sabe-se que os originais foram enviados para o Arquivo Nacional no Rio de Janeiro, onde estão até hoje.

Pena que - mesmo no Rio Grande do Sul - esse momento histórico é pouco conhecido... O trabalho de Walter Spalding, publicado pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, circulou no restrito círculo de pesquisadores interessados pela história pátria. A grande divulgação não se fez.

Em 2007, o episódio dos farroupilhas em Fernando de Noronha foi incluído na obra “FERNANDO DE NORONHA – CINCO SÉCULOS DE HISTÓRIA, divulgando essa aventura. Ainda bem que foi assim!

Postado por Marieta Borges: Marieta Borges Lins e Silva é educadora, poeta, historiadora e pesquisadora. Seu último livro chama-se “Fernando de Noronha: Cinco Séculos de História”.

Colaboração: Carlos Zatti / Hilton Araldi

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A GUERRA DOS FARRAPOS - PARTE X

General Bento Gonçalves da Silva, assim como Souza Netto, vendo que as proposições farrapas não seriam totalmente atendidas, como a libertação dos negros escravos, retirou-se das tratativas de paz, deixando em seu lugar o general David Canabarro.

AS NEGOCIAÇÕES DE PAZ E A SURPRESA DE PORONGOS

Em novembro de 1844 estavam todos em pleno armistício. Suspensão de armas, condição fundamental para que os governos pudessem negociar a paz. Por isso o relaxamento da guarda no acampamento da curva do arroio Porongos. Recolheram os cartuchos de munições para colocá-los ao sol para secar. Canabarro e seus oficiais imediatos foram a uma estância próxima visitar a mulher viúva de um ex-guerreiro farrapo. O coronel Teixeira Nunes e seu corpo de Lanceiros negros descansavam. Foi então que apareceu Moringue, de surpresa, quebrando o decreto de suspensão de armas. Mesmo assim o corpo de Lanceiros Negros, cerca de 100 homens de mãos livres, pelearam, resistiram e bravamente lutaram até a aniquilação, em uma posição de difícil defesa. Além disso foram presos mais de 300 republicanos entre brancos e negros, inclusive 35 oficiais.

O general Canabarro, recuperado, reuniria ainda todo o restante de seu exército, cerca de 1.000 homens, e atacaria Encruzilhada a 7 de dezembro de 1844, tomando-a e mostrando assim que a sua intenção não era entregar-se.

A PAZ DO PONCHE VERDE

Por fim, a 1 de março de 1845, assinou-se a paz: o Tratado de Poncho Verde ou Paz do Poncho Verde, após quase dez anos de guerra que teria causado 47829 mortes. Entre suas principais condições estavam a anistia plena aos revoltosos, a libertação dos escravos que combateram no Exército piratinense e a escolha de um novo presidente provincial pelos farroupilhas. O cumprimento parcial ou integral do tratado até hoje suscita discussões. A impossibilidade de uma abolição da escravatura regionalmente restrita, a persistência de animosidade entre lideranças locais e outros fatores administrativos e operacionais podem ter ao menos dificultado, senão impedido o cumprimento integral do mesmo. Tal discussão é remetida para o artigo principal deste assunto.

Dos escravos sobreviventes, alguns acompanharam o exército do general Antônio Neto em seu exílio no Uruguai, outros foram incorporados ao Exército Imperial e muitos foram vendidos novamente como escravos no Rio de Janeiro.

A atuação de Luís Alves de Lima e Silva foi tão nobre e correta para com os oponentes que a Província, novamente unificada, o indicou para senador. O Império, reconhecido, outorgou ao general o título nobiliárquico de Conde de Caxias. Mais tarde, (1850), com a iminência da Guerra contra Rosas seria indicado presidente da província de São Pedro do Rio Grande.

domingo, 19 de setembro de 2010

A GUERRA DOS FARRAPOS - PARTE IX

Foto: Gianne Carvalho

1840: OS FARRAPOS PERDEM TERRITÓRIO

A queda de Laguna deu início ao declínio Farroupilha. O General Andréa, que havia retomado Laguna, logo é nomeado o novo Presidente Imperial da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul e Comandante do Exército Imperial na Província.

Entre as frustrações de 1840 estão:

• Caçapava, a então capital da República é invadida pelos imperiais. Instala-se a capital em Alegrete.

• Em Julho os farrapos perdem São Gabriel.

• Francisco Pedro de Abreu, o Moringue, surpreende Souza Neto quase fazendo-o prisioneiro.

• Bento Gonçalves da Silva, em campanha pela conquista de São José do Norte, trava duríssima batalha de quase nove horas, mas tem que desistir. As condições eram totalmente desfavoráveis; o império ameaça retomar o controle da Província.

Estes insucessos, deu pretexto a lideranças de objetivos menos firmes, como Bento Manuel, tido como fiel da balança do confronto, para abandonar os revolucionários.

Em outros combates como em novembro de 1841 Chico Pedro fez 20 prisioneiros e tomou 400 cavalos dos Farroupilhas, perto de São Gabriel; em Rincão Bonito o coronel João Propício Mena Barreto provoca 120 mortes, faz 182 prisioneiros e toma 800 cavalos; em 20 de janeiro de 1842 Chico Pedro, atacado por Bento Gonçalves e 300 homens, derrota-o, provocando 36 mortes, 20 prisioneiros e capturando toda a bagagem, sofrendo somente 3 mortes e 7 feridos.

Uma Assembléia Constituinte havia sido convocada em 10 de fevereiro de 1840, porém manobras de Bento Gonçalves, que não queria perder poderes, levaram a que somente em 1842, fosse promulgada a Constituição da República, o que deu um ânimo momentâneo à luta.

Reforços Liberais

O fim rebeliões em outras províncias, como a Sabinada na Bahia e a revolução Liberal de 1842 em São Paulo, trazem novos reforços às tropas farrapas, como Daniel Gomes de Freitas (signatário depois do tratado de paz), o coronel Manoel Gomes Pereira, Francisco José da Rocha e João Rios Ferreira, da Bahia; e Rafael Tobias de Aguiar, de São Paulo.

Por outro lado, o fim destas outras rebeliões, também liberam as tropas do exército brasileiro para concentrarem seus esforços contra os Farroupilhas.

Intrigas: O duelo entre Bento Gonçalves e Onofre Pires

A República Rio-Grandense não ficou isenta das disputas pelo poder. Começaram a aparecer em sua fileiras pessoas inteligentes e capazes, dispostas a rachar a necessária unidade nacional naquele momento em que a nação gaúcha precisa de todas as suas forças para combater um inimigo reconhecidamente superior em número e riqueza. Em dezembro de 1842, quando se instalou a Assembléia Constituinte, as divergências se exteriorizaram, contrapondo a “maioria” de Bento Gonçalves e contra a "minoria" de Antonio Vicente da Fontoura. Isto levou o projeto de Constituição publicado em fevereiro de 1843, a ter prejudicada a sistematização das idéias de todos aqueles que ainda estavam na revolução ou a apoiavam.

Bento Gonçalves renuncia, por conta da campanha de intrigas, à Presidência da República Riograndense a 4 de agosto de 1843, assumindo seu vice Gomes Jardim. Lança um manifesto dizendo-se acometido de uma enfermidade pulmonar, que talvez já o estivesse incomodando, e incita a nação a se unir em torno do novo Presidente. Passa em seguida a comandar uma divisão do Exército Rio-Grandense.

Opositores, entre eles o deputado Antônio Vicente da Fontoura, induzem Onofre Pires a destratar e humilhar Bento Gonçalves, chamando-o de assassino ( de Paulinho da Fontoura) e ladrão. Onofre, desafiado por Bento para um duelo realizado em 27 de fevereiro de 1844, é ferido no braço direito, sendo socorrido por Bento, mas vindo a falecer, dias depois, por complicações advindas daquele ferimento.

sábado, 18 de setembro de 2010

A GUERRA DOS FARRAPOS - PARTE VIII


OS LANCHÕES DE GARIBALDI

Foi preciso engendrar uma manobra incomum para conquistar um ponto que pudesse ligar o Rio Grande dos farrapos com o mar. Este ponto era laguna, em Santa Catarina. O primeiro passo era constituir a Marinha Rio-Grandense. Giuseppe Garibaldi conhecera Bento Gonçalves ainda em sua prisão, no Rio de Janeiro, e obteria dele uma carta de corso para aprisionar embarcações imperiais. Em 1º de setembro de 1838, Garibaldi é nomeado capitão-tenente, comandante da marinha Farroupilha.

O plano era criar um estaleiro, junto a uma fábrica de armas e munições em Camaquã, na estância de Ana Gonçalves, irmã de Bento Gonçalves, trazer os barcos pela Lagoa até o Rio Capivari, e dali, por terra, sobre rodados especialmente construídos para isso, até a barra do Tramandaí, onde os barcos tomariam o mar. Assim foi feito, mas não sem dificuldades.

Os imperiais, informados dos planos farrapos, atacaram o estaleiro de Camaquã, comandados por Francisco Pedro de Abreu, o Chico Pedro, também conhecido por Moringue. Eram mais de uma centena de homens, cercando o galpão com 14 trabalhadores entrincheirados. A comandá-los, Giuseppe Garibaldi. Foram horas de ataque e resistência heróica. Quase ao anoitecer, Moringue precipita-se do esconderijo e leva um balaço no peito. Seus companheiros o recolhem e fogem tão rapidamente quanto chegaram.

Já com os lanchões Seival e Farroupilha cortando as águas da Lagoa dos Patos, eram fustigados pela retaguarda pelo temível John Grenfell, Comandante da Marinha Imperial na Província. Fugindo e despistando conseguem enveredar pelo estreito do Rio Capivari e passam os barcos a terra. Puxando sobre rodados, os dois lanchões artilhados, com cem juntas de bois, atravessaram ásperos caminhos, pelos campos úmidos - em alguns trechos completamente submersos, pois era inverno, tempo feio com chuvas e ventos, tornando o chão um grande lodaçal. Cada barco tinha dois eixos e, naturalmente, quatro rodas imensas, revestidas de couro cru. Piquetes corriam os campos entulhando atoleiros, enquanto outros, cuidavam da boiada.

Levaram seis dias até a Lagoa Tomás José, vencendo 90 km e chegando a 11 de julho. No dia 13, seguem da Lagoa Tomás José à Barra do Rio Tramandaí, sob o Oceano Atlântico, e, no dia 15, lançam-se ao mar com sua tripulação mista de 70 homens. O Seival, de doze toneladas, era comandado pelo norte-americano John Griggs, conhecido como “João Grandão”, e o Farroupilha, de dezoito toneladas, comandado por Garibaldi, ambos armados com quatro canhões de doze polegadas, de molde "escuna".

Finalmente atacam Laguna por terra, com as forças de Canabarro, e por água. Entrando através da Lagoa da Garopaba do Sul, passando pelo Rio Tubarão e atacando Laguna por trás, surpreendendo os imperiais que esperavam um ataque de Garibaldi pela barra de Laguna e não pela lagoa'. Garibaldi com o Seival, toma Laguna, com ajuda do próprio povo lagunense, a 22 de julho de 1839. A 29 deste mês proclama-se a República Juliana, feito um país independente, ligada à República Rio-grandense pelos laços do confederalismo.

Prepara-se o ataque farrapo à ilha do Desterro, hoje Florianópolis, mas o império contra-ataca de surpresa, com força total. Comandados pelo General Andréa, por terra, mais de 3.000 homens e por mar, com uma frota de 13 navios, melhor equipados e experientes, na batalha naval de Laguna, quando teve pela frente o Almirante Imperial Frederico Mariath.

Garibaldi recebe ordem superior de queimar os seus seis navios e de juntar o que resta de suas tripulações ao exército de terra, que prepara a retirada de Laguna. Os imperiais retomam Laguna a 15 de novembro de 1839, expulsando os farrapos Garibaldi e Canabarro. Garibaldi foge com Ana, que tornar-se-ia conhecida como Anita Garibaldi, uma mulher lagunense casada, cujo esposo alistara-se no exército imperial, abandonando-a, um escândalo para a época. Anita veio a ser sua companheira de todos os momentos, lutando lado-a-lado com Garibaldi seja nos pampas gaúchos, como na Itália, onde é considerada heroína.

OS CAMPOS DE LAGES

Em março de 1838 os farroupilhas haviam adentrado a região de Lages, anexando-a à República Rio-Grandense, com o apoio de alguns fazendeiros locais.

Depois das queda de Laguna as tropas farrapas, tomaram o caminho de Lages para retornar ao Rio Grande do Sul. Enquanto isso o governo imperial havia decidido enviar um contingente de tropas ao sul pelo interior com a missão de retomar Lages e depois auxiliar contra o cerco de Porto Alegre pelos farrapos. Em Rio Negro reuniram-se 1500 homens, vindos do Rio de Janeiro, Curitiba, Paranaguá, Antonina e Campo do tenente, deslocando-se em seguida para santa cecília, onde acamparam em 25 de outubro de 1839.

Travando pequenos combates com piquetes farroupilhas em novembro, através dos Campos dos Curitibanos e Campos Novos, chegaram a Lages, onde retomaram a vila. Dali uma parte da coluna do brigadeiro Francisco Xavier da Cunha decidiu seguir em direção ao Rio Pelotas, para invadir o Rio Grande do Sul.

Os farrapos, derrotados em Lajes, se reuniram em um entreposto alfandegário, para cobrança de impostos sobre as tropas de gado e mulas que vinham de Viamão e seguiam para Sorocaba, conhecido como Santa Vitória.

O brigadeiro Francisco Xavier da Cunha, foi informado e para lá dirigiu-se, com seus dois mil homens. Foi surpreendido, em 14 de dezembro de 1839, por Teixeira Nunes, que com sua cavalaria, conseguiu dividir a tropa legalista e o fez retroceder. Em um renhido combate as tropas legalistas foram derrotadas. O brigadeiro ferido e protegido por alguns oficiais, tentou escapar e ao cruzar o Rio Pelotas, morreu afogado.

Os farroupilhas retomaram Lajes novamente, mas as tropas legalistas foram reforçadas por uma divisão vinda de Cruz Alta, sob o comando do coronel Antônio de Melo Albuquerque, o "Melo Manso".

Garibaldi e Teixeira Nunes, pressentido um ataque, dividiram suas tropas, uma partiu para o norte, onde perto do Rio Marombas encontrou uma tropa legalista superior e, 12 de janeiro de 1840. Os republicanos foram dizimados, dos 500 iniciais, menos de 50 conseguiram retornar a Lajes e depois voltar ao Rio Grande do Sul.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A GUERRA DOS FARRAPOS - PARTE VII

A QUEDA DA TRANQUEIRA INVICTA

Em Rio Pardo estava concentrada uma divisão do exército imperial, comandada pelo marechal Sebastião Barreto, com os brigadeiros Francisco Xavier da Cunha comandando a infantaria e Bonifácio Caldeiron a cavalaria, num total de 1200 combatentes. A cidade era junto com Porto Alegre e Rio Grande, uma das mais importantes do estado, contando com quase o dobro de habitantes da capital.

A concentração de tropas imperiais chamou a atenção dos farroupilhas, conscientes das possíveis consequências desta tropa quando se movimentasse Bento Manuel Ribeiro, ao lado de Antônio de Souza Neto em 30 de abril de 1838, comandando 2500 homens, 800 deles de cavalaria, surpreendem a cidade, na batalha do Barro Vermelho, na entrada da cidade, derrotando os imperiais, conquistando Rio Pardo, a ex-tranqueira invicta, matando 71 homens e fazendo mais de 130 prisioneiros.

Este fato foi importante por vários aspectos. Rio Pardo formava, com Rio Grande e Porto Alegre, a fronteira de domínio imperial, um ponto de apoio para a conquista do interior, tinha fama de inexpugnável, e a vitória farrapa foi incontestável. Importante também porque em Rio Pardo se encontrava, na ocasião, a Banda Imperial, sob o comando do maestro mineiro Joaquim José Mendanha, que viria a compor, sob a encomenda de Bento Gonçalves o Hino Nacional da República Riograndense. Com a letra do republicano Serafim Joaquim de Alencastre, o hino foi executado e cantado pela primeira vez na cerimônia de comemoração do primeiro aniversário da Tomada de Rio Pardo. Hoje a música do hino é a mesma, mas foi composta outra letra, por Francisco Pinto da Fontoura, o Chiquinho da Vovó, para se adequar aos novos tempos.

Cabe ressaltar que a primeira composição do Hino Nacional da República Riograndense destacava a mesma idéia dos discursos de Bento Gonçalves, de não ceder à paz vergonhosa da deposição das armas: “Nobre povo rio-grandense, / Povo de heróis, povo bravo! / Conquistaste a independência / Nunca mais serás escravo”

Notas sobre o "Hymno republicano riograndense de 1835": A partitura manuscrita pertencente ao acervo do Museu Júlio de castilhos, Porto Alegre, e nela consta a inscrição "Este hino foi solfejado pelo m...(palavra ilegível, interpretada pelos técnicos do Museu como ministro) Augusto Pereira Leitão, revolucionário de 35". O acorde de 7ª na abertura foi realizado como um arpeggio à guisa de introdução. Foram alterados acidentes nos compassos 14 e 18 que indicavam Lá#, incongruente com a clave de Fá maior (talvez erro de cópia), e acrescentado um # no Fá do baixo, que constava natural contra um Fá# da melodia acima, na falsa preparação para Sol menor. Também uma nota do baixo do segundo compasso foi alterada de Lá para Sib por aparentemente ser um erro de harmonia, comparando-se com passagem idêntica mais adiante que traz o Sib no mesmo ponto.

O Hino Rio-Grandense é o hino oficial do estado do Rio Grande do Sul. Tem letra de Francisco Pinto da Fontoura, música de Comendador Maestro Joaquim José Mendanha e harmonização de Antônio Corte Real. A obra original possuía uma estrofe que foi suprimida, além de uma repetição do estribilho, pelo mesmo dispositivo legal que a oficializou como hino do estado - A lei nº 5.213, de 5 de Janeiro de 1966.

Como aurora precursora
Do farol da divindade
Foi o vinte de setembro
O precursor da liberdade

Refrão
Mostremos valor e constância
Nesta ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda terra
De modelo a toda terra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda terra

Mas não basta pra ser livre
Ser forte, aguerrido e bravo
Povo que não tem virtude
Acaba por ser escravo

Refrão
Mostremos valor e constância
Nesta ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda terra
De modelo a toda terra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda terra

Trecho suprimido. Em 1966, a segunda estrofe foi retirada oficialmente.

Que entre nós, reviva Atenas
para assombro dos tiranos
Sejamos gregos na glória
e na virtude, romanos

Tenho uma balda comigo: a de cantar o Hino do Rio Grande com a mão no coração (foto acima). Pelo que vejo, não sou o único.