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sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

A CALMA DO "SEU GARCIA"

 

Em meio ao pânico causado por ataque a duas agências bancárias no pacato município do norte gaúcho, idoso virou motivo de descontração após aparecer impassível diante da quadrilha

Diversos memes foram criados a partir do Seu Garcia

 

Quando os criminosos que atacaram as agências do Banco do Brasil e do Banrisul de Ibiraiaras se preparavam para iniciar a fuga, fotos e vídeos capturados pelos celulares dos moradores locais mudariam a vida de um homem ao tirá-lo do anonimato da pacata cidade de pouco mais de sete mil habitantes do norte gaúcho.
 
Enquanto dezenas de homens e mulheres usadas pelos bandidos em um cordão humano fariam qualquer coisa para sair correndo dali, um senhor de chapéu e óculos acompanhava tudo impassível, sentado no banco da praça, pernas cruzadas, sem esboçar qualquer reação, poucos metros distante de reféns e homens armados até os dentes.
 
O idoso continuou de olhos vidrados nos fatos, sem se mover, mesmo quando os dois carros ocupados por bandidos e reféns deram a partida, com direito a seis tiros de fuzil para o alto. Lucy Garcia da Silva, 83 anos, era imune ao pânico que tomou Ibiraiaras. Nem as balas de grosso calibre o fizeram arredar pé do camarote de onde assistia aos fatos que se tornariam assunto uníssono no município.
 
Logo que as imagens do assalto e do cordão humano com o curioso Seu Garcia ao fundo caíram na internet, começou o processo de viralização. Memes se espalharam rapidamente mostrando ele, na mesma pose em que foi fotografado diante do assalto, olhando sem reação um incêndio de enormes proporções, uma execução coletiva do Estado Islâmico, o avanço de um dinossauro do filme Jurassic Park e a chegada de uma onda gigante que varria uma cidade inteira. Todas situações de extrema gravidade, contempladas com calma pelo Seu Garcia nos memes.
 
Na praça municipal de Ibiraiaras, os taxistas e idosos que batem papo diariamente eram só risos. Mostravam para quem se aproximava as montagens. E assim, ainda que em decorrência de um fato triste e tirou a vida de um refém inocente. Seu Garcia ganhou seus minutos de fama e deu alguns motivos para a população local sorrir.
 
Ele nasceu em Montenegro, mas está desde os 6 anos de idade em Ibiraiaras, cidade conhecida pelo plantio de batata — cultura que vem perdendo espaço, nas propriedades locais, para as lavouras de soja. É casado com Francelina Spiller e mora em uma casa que fica na quadra ao lado da praça em que ele costuma sentar diariamente para assistir a vida passar. É pai de sete filhos e tem 11 netos. Uma das suas características é caminhar pela cidade inteira, visitando comércios e empresas. De uns anos para cá, Seu Garcia vende rifas. Anda com uma pastinha de couro debaixo do braço para todo o lado. Às tardes, costuma passar um tempo na Lancheria Migliavacca para jogar cartas e tomar uma bebida.
 
Seu Garcia, ao virar assunto na cidade, ainda protagonizou outro vídeo curioso quando foi a uma cooperativa oferecer suas rifas após o ataque. Um rapaz que o aguardava filmou com o celular. Ao receber o idoso, o interlocutor declarou: “Tava esperando mais um processo, né?”, disse, em tom de brincadeira, o rapaz ao comentar a proximidade com que ele assistia aos desdobramentos do assalto.

Seu Garcia prontamente negou. Ocorre que, em um ataque anterior na cidade, advogados aportaram por lá e Seu Garcia foi um dos convencidos a ingressar com ação judicial. Alegou que foi forçado a aderir ao cordão humano e, por isso, requereu indenização do banco.
 
Depois, com um voz pausada e serena, sotaque de gringo, bigode bem aparado, comentou o que aconteceu. Ao ser questionado se não correu o risco de “levar uma bala”, respondeu tranquilamente: “Passa dos lados”. Ele contou que, metros antes de chegar à praça, foi avisado por uma mulher de que era melhor não seguir adiante porque estava ocorrendo um assalto. Ainda assim, ele decidiu ir. Não poderia perder aquele acontecimento. Avaliou que a ação dos criminosos, que durou mais de 20 minutos, foi muito vagarosa.
— Essa gente demorou muito com esse assalto deles. O que acontece? Pegaram. Caçaram seis quatis — narrou, referindo-se aos criminosos abatidos em confronto na mata pela brigada militar.
 
Seu Garcia espantou-se com a repercussão e pelo fato de começar a ser procurado pela imprensa. Uma guinada brusca em sua tranquila rotina, rodeada apenas por familiares, amigos e conhecidos da região. Por isso, passou a se negar a conversar com repórteres. Ficou acuado.
 
Ines Garcia Poltronieri, uma de suas filhas, conta que ele está muito temerário com a “falta de segurança no município e na região”. E que está “sentido demais pela morte do nosso gerente Rodrigo (Mocelin da Silva, subgerente do Banco do Brasil)”.
 
Fonte: Site Alegrete Tudo