REALIDADE E FICÇÃO
Há 204 anos, o Brasil
tornou-se independente — mas a cena real do 7 de Setembro foi muito menos
gloriosa do que aquela que aprendemos a enxergar.
Não havia um príncipe
impecável sobre um magnífico cavalo de guerra, nem uma formação cinematográfica
de soldados de uniformes imaculados, como na monumental tela
"Independência ou Morte!", de Pedro Américo. Na tarde de 7 de
setembro de 1822, D. Pedro tinha 23 anos, regressava de Santos para São Paulo
por uma estrada difícil, viajava sobre uma mula, como era mais adequado aos
caminhos da região, e enfrentava uma forte indisposição intestinal, descrita
nos relatos como diarreia ou disenteria. A imagem consagrada seria construída
muito depois: Pedro Américo concluiu sua pintura em 1888, 66 anos após o
acontecimento, compondo não uma reprodução fotográfica do Ipiranga, mas uma
pintura histórica destinada a transformar aquele momento em um grande mito
visual da fundação da nação.
A realidade era consideravelmente
mais humana. D. Pedro vinha de uma viagem exaustiva e, segundo o relato
atribuído ao padre Belchior Pinheiro de Oliveira, que o acompanhava, seu
problema intestinal obrigara-o inclusive a parar à margem do Ipiranga para
satisfazer necessidades fisiológicas. Estavam próximos do príncipe, entre
outros integrantes da comitiva, o próprio padre Belchior, o major Antônio Ramos
Cordeiro, o correio Paulo Bregaro e o criado João Carlota. Foi naquele caminho
rural dos arredores de São Paulo, e não no cenário grandioso que a memória
posterior nos ensinou a imaginar, que chegaram as notícias capazes de
precipitar a ruptura.
Os documentos trazidos do
Rio de Janeiro revelavam que as Cortes portuguesas continuavam tentando reduzir
a autonomia conquistada pelo Brasil e esvaziar a autoridade do príncipe. No
Rio, D. Leopoldina, que exercia a regência durante a ausência do marido, havia
presidido em 2 de setembro uma reunião extraordinária do Conselho de Estado e
apoiava decididamente a separação. Junto às notícias de Lisboa seguiram para D.
Pedro as cartas de Leopoldina e de José Bonifácio de Andrada e Silva, seu
principal ministro. A documentação oficial confirma que ambos o pressionavam a
não se submeter às novas determinações portuguesas e a consumar o rompimento.
D. Leopoldina advertia ao
marido que o momento chegara: “O pomo está maduro, colhei-o já, senão
apodrece.” José Bonifácio, por sua vez, defendia abertamente a separação. D.
Pedro teria ficado furioso ao conhecer as determinações vindas de Portugal, tomando
os papéis, amarrotando-os e lançando-os ao chão. Voltando-se então para
Belchior, perguntou: “E agora, padre Belchior?” O religioso teria respondido
que já não havia outro caminho senão a independência.
Foi então que a cena
começou a adquirir a dimensão que entraria para a História. De acordo com o
testemunho de Belchior — registrado posteriormente e, por isso, tratado pelos
historiadores com a necessária cautela quanto às palavras exatas — D. Pedro
caminhou alguns passos, tomou sua decisão e anunciou a ruptura. Outros relatos
posteriores também associariam aquele momento à fórmula que acabaria
eternizada: “Independência ou Morte!” O marco político do 7 de Setembro
consolidou-se precisamente naquele encontro entre as notícias que chegavam de
Lisboa, a atuação de Leopoldina e Bonifácio no Rio de Janeiro e a decisão
tomada pelo príncipe na estrada do Ipiranga.
Foi justamente nesse processo de construção da memória que surgiu a imagem que hoje quase todos associamos ao nascimento do Brasil. Quando Pedro Américo pintou Independência ou Morte!, D. Pedro já estava morto havia mais de meio século. A obra foi concebida para o Monumento do Ipiranga e concluída em Florença em 1888. O artista substituiu a precariedade da estrada pela monumentalidade, a mula pelo cavalo, a pequena comitiva por uma espetacular massa de cavaleiros e a roupa de viagem pela aparência marcial de um soberano. Estudos do Museu Paulista mostram como a obra e suas incontáveis reproduções acabaram tornando-se parte central do imaginário social brasileiro sobre a Independência.
A História, porém, não
perde grandeza quando retiramos dela o verniz romântico. Talvez ganhe
humanidade. A pintura transformaria aquele
instante em epopeia; a memória nacional transformaria a epopeia em símbolo. Por
trás de ambas permanece um acontecimento muito mais imperfeito, complexo e
humano — o 7 de setembro de 1822, marco da Independência do Brasil.
Resenha do texto de: Renato Drummond Tapioca
Neto
Imagem: Cena acima criada
por simulação de I.A., com base nos relatos do acontecimento. Abaixo, a tela
"Independência ou Morte!" (1888), de Pedro Américo, em exposição no
Museu Paulista da USP.
