RETRATO DA SEMANA


Evolução da indumentária gaúcha

terça-feira, 8 de setembro de 2026

 


REALIDADE E FICÇÃO



Há 204 anos, o Brasil tornou-se independente — mas a cena real do 7 de Setembro foi muito menos gloriosa do que aquela que aprendemos a enxergar.

Não havia um príncipe impecável sobre um magnífico cavalo de guerra, nem uma formação cinematográfica de soldados de uniformes imaculados, como na monumental tela "Independência ou Morte!", de Pedro Américo. Na tarde de 7 de setembro de 1822, D. Pedro tinha 23 anos, regressava de Santos para São Paulo por uma estrada difícil, viajava sobre uma mula, como era mais adequado aos caminhos da região, e enfrentava uma forte indisposição intestinal, descrita nos relatos como diarreia ou disenteria. A imagem consagrada seria construída muito depois: Pedro Américo concluiu sua pintura em 1888, 66 anos após o acontecimento, compondo não uma reprodução fotográfica do Ipiranga, mas uma pintura histórica destinada a transformar aquele momento em um grande mito visual da fundação da nação.

A realidade era consideravelmente mais humana. D. Pedro vinha de uma viagem exaustiva e, segundo o relato atribuído ao padre Belchior Pinheiro de Oliveira, que o acompanhava, seu problema intestinal obrigara-o inclusive a parar à margem do Ipiranga para satisfazer necessidades fisiológicas. Estavam próximos do príncipe, entre outros integrantes da comitiva, o próprio padre Belchior, o major Antônio Ramos Cordeiro, o correio Paulo Bregaro e o criado João Carlota. Foi naquele caminho rural dos arredores de São Paulo, e não no cenário grandioso que a memória posterior nos ensinou a imaginar, que chegaram as notícias capazes de precipitar a ruptura.

Os documentos trazidos do Rio de Janeiro revelavam que as Cortes portuguesas continuavam tentando reduzir a autonomia conquistada pelo Brasil e esvaziar a autoridade do príncipe. No Rio, D. Leopoldina, que exercia a regência durante a ausência do marido, havia presidido em 2 de setembro uma reunião extraordinária do Conselho de Estado e apoiava decididamente a separação. Junto às notícias de Lisboa seguiram para D. Pedro as cartas de Leopoldina e de José Bonifácio de Andrada e Silva, seu principal ministro. A documentação oficial confirma que ambos o pressionavam a não se submeter às novas determinações portuguesas e a consumar o rompimento.

D. Leopoldina advertia ao marido que o momento chegara: “O pomo está maduro, colhei-o já, senão apodrece.” José Bonifácio, por sua vez, defendia abertamente a separação. D. Pedro teria ficado furioso ao conhecer as determinações vindas de Portugal, tomando os papéis, amarrotando-os e lançando-os ao chão. Voltando-se então para Belchior, perguntou: “E agora, padre Belchior?” O religioso teria respondido que já não havia outro caminho senão a independência.

Foi então que a cena começou a adquirir a dimensão que entraria para a História. De acordo com o testemunho de Belchior — registrado posteriormente e, por isso, tratado pelos historiadores com a necessária cautela quanto às palavras exatas — D. Pedro caminhou alguns passos, tomou sua decisão e anunciou a ruptura. Outros relatos posteriores também associariam aquele momento à fórmula que acabaria eternizada: “Independência ou Morte!” O marco político do 7 de Setembro consolidou-se precisamente naquele encontro entre as notícias que chegavam de Lisboa, a atuação de Leopoldina e Bonifácio no Rio de Janeiro e a decisão tomada pelo príncipe na estrada do Ipiranga.

Foi justamente nesse processo de construção da memória que surgiu a imagem que hoje quase todos associamos ao nascimento do Brasil. Quando Pedro Américo pintou Independência ou Morte!, D. Pedro já estava morto havia mais de meio século. A obra foi concebida para o Monumento do Ipiranga e concluída em Florença em 1888. O artista substituiu a precariedade da estrada pela monumentalidade, a mula pelo cavalo, a pequena comitiva por uma espetacular massa de cavaleiros e a roupa de viagem pela aparência marcial de um soberano. Estudos do Museu Paulista mostram como a obra e suas incontáveis reproduções acabaram tornando-se parte central do imaginário social brasileiro sobre a Independência.

A História, porém, não perde grandeza quando retiramos dela o verniz romântico. Talvez ganhe humanidade. A pintura transformaria aquele instante em epopeia; a memória nacional transformaria a epopeia em símbolo. Por trás de ambas permanece um acontecimento muito mais imperfeito, complexo e humano — o 7 de setembro de 1822, marco da Independência do Brasil.

Resenha do texto de: Renato Drummond Tapioca Neto

Imagem: Cena acima criada por simulação de I.A., com base nos relatos do acontecimento. Abaixo, a tela "Independência ou Morte!" (1888), de Pedro Américo, em exposição no Museu Paulista da USP.