RETRATO DA SEMANA


No rancho de Jeová / mais um Tronco se aproxima / e o Braun faz uma rima / - Vá se chegando pra cá. / O Noel e o Maicá, / e o próprio Jayme Caetano / já caseriando por anos / nesta querência lindaça / recebem o Pedro Ortaça / pra verseja noutro plano.

sábado, 6 de junho de 2026

 

UM BELO PROGRAMA PARA ESTA SEMANA

Ecos de 1923: A Última Guerra dos Gaúchos

Honóerio Lemes, o Leão do Caverá, e sua coluna revolucionária


João Vítor Debiasi - *Sob supervisão do jornalista Ticiano Osório

Trilogia sobre guerra gaúcha que mudou o Brasil terá sessões de graça em Porto Alegre. Documentários de Henrique de Freitas Lima sobre a Revolução de 1923 serão exibidos e debatidos na Cinemateca Paulo Amorim nos dias 9, 10 e 11 de junho. Entrada franca.

Henrique de Freitas Lima tem mais de 40 anos de cinema, e boa parte desse caminho foi dedicada a filmar o Rio Grande do Sul. Não o Estado de cartão-postal, mas aquele que aparece nos campos, nos conflitos, nos personagens históricos e nas histórias que muitas vezes ficam restritas aos arquivos, às famílias e aos municípios onde aconteceram.

Agora, o cineasta chega a um dos projetos mais ambiciosos de sua carreira com Ecos de 1923: A Última Guerra dos Gaúchos.

A programação reúne três documentários de cerca de 70 minutos sobre a Revolução de 1923, guerra civil gaúcha que opôs forças ligadas ao governo de Borges de Medeiros e revolucionários contrários à sua permanência no poder. Para Henrique, reduzir o episódio a uma disputa regional é perder a dimensão do que estava em jogo.

— Não é um troço de gaúcho para gaúcho. A gente está fazendo com uma linguagem para o Brasil, para quem quiser ver, para poder entender esse processo — afirma o diretor, que tem no currículo Tempo Sem Glória (1984), Lua de Outubro (1998) e Concerto Campestre (2005).

O projeto nasceu de uma pesquisa sobre Zeca Netto, caudilho ligado a Camaquã. Henrique havia sido provocado a escrever um roteiro sobre o personagem, mas logo percebeu que aquela trajetória abria uma porta maior. Ao mergulhar nas memórias de Zeca Netto, surgiram Honório Lemes, Assis Brasil, Flores da Cunha, Borges de Medeiros e outros nomes que atravessaram a política gaúcha na virada do século 19 para o século 20.

A ideia cresceu até se transformar em Os Caudilhos, projeto dividido em etapas. A primeira resultou em filmes locais de 30 minutos, produzidos nos municípios participantes. A segunda aparece agora na mostra Ecos de 1923, com três longas reorganizados para formar um painel mais amplo do conflito. A próxima será uma série de televisão em formato de docudrama, com cenas ficcionais de recriação histórica.

— Foi uma costura de produção absurda. Foram nove municípios diferentes, com produtores locais que precisei localizar, além de uma parte filmada no Uruguai — conta Henrique.

As filmagens passaram por Uruguaiana, São Gabriel, Caçapava do Sul, Camaquã, São Francisco de Assis, Rosário do Sul, Alegrete, Santana do Livramento e Pedras Altas. Também houve gravações em Porto Alegre e no Uruguai. Segundo o diretor, a circulação pelos territórios foi decisiva para que os filmes não ficassem presos apenas à fala dos especialistas.

— Esses filmes mostram uma realidade muito curiosa, no sentido de ver quem são os guardiões da nossa história nesses municípios. Algumas vezes, pessoas que estão isoladas, que já são idosas e que mantêm essa memória — diz.

Um dos achados mais importantes do projeto é o uso de imagens de Revolução no Rio Grande, longa filmado em 1923 por Benjamin Camozato, dentista de Cachoeira do Sul que se aventurou pelo cinema. Do material original, sobreviveram pouco mais de 50 minutos. Para Henrique, a presença dessas imagens muda a relação do espectador com a história.

Camozato conseguiu autorização para filmar acampamentos dos dois lados do conflito. Em alguns momentos, aparecem figuras como Honório Lemes, Zeca Netto e Estácio Azambuja. Não são atores tentando representar a Revolução: são os próprios personagens históricos diante da câmera, em um registro feito enquanto a guerra ainda acontecia.

— Foi emocionante ver o próprio Honório Lemes na tela. Não é um ator, é ele mesmo — enfatiza.

Henrique lembra que o material também servirá para a futura etapa ficcional do projeto. A equipe pretende usar as imagens para observar roupas, armas e modos de organização das colunas revolucionárias.

— A gente convive com o projeto hoje em cada detalhe. É incrível, porque vai ser muito útil também agora na recriação, na parte de ficção, para ver como é que os caras se vestiam, as armas que usavam, aquela coisa toda — diz.

A mostra foi organizada em três movimentos. O primeiro documentário apresenta o contexto da Revolução e passa por Uruguaiana, São Gabriel e Caçapava do Sul. O segundo entra no trecho mais duro da guerra, com Camaquã, São Francisco de Assis e Rosário do Sul. O terceiro observa a permanência dessa história em Alegrete, Santana do Livramento e Pedras Altas.

Henrique resume de forma simples:

— O primeiro é um pouco mais contemplativo. O segundo é pau puro, porque é guerra mesmo. E o terceiro aponta para a permanência desse universo.

A parte sobre São Francisco de Assis é uma das que mais impressionaram o diretor durante o processo. Em 1923, a cidade foi palco de um combate urbano que, segundo relatos recuperados pelo filme, deixou quase cem mortos no centro do município. Mais de um século depois, as marcas ainda aparecem na paisagem e na memória local.

— Dizem que morreram quase cem pessoas no centro, na praça da cidade, que eram parentes entre elas. Isso causou um trauma nessa comunidade que existe até hoje. Tu vai lá e ainda tem buraco de bala nas árvores, na prefeitura — relata.

O encerramento em Pedras Altas tem outro tom. Foi na residência de Assis Brasil que o pacto responsável pelo fim do conflito foi assinado. O castelo, hoje em processo de restauração, aparece como símbolo de uma memória que tenta sair da ruína. Para Henrique, esse desfecho permite que a mostra não termine apenas olhando para trás.

A importância do Pacto de Pedras Altas vai além do fim da guerra. O diretor lembra que ali surgiram bases para mudanças que ajudariam a moldar o sistema eleitoral brasileiro. A Justiça Eleitoral só seria criada em 1932, mas a necessidade de uma instituição capaz de cuidar das eleições já aparece naquele contexto.

— São histórias desconhecidas, que são chave para entender o Brasil moderno — diz Henrique.

Para o cineasta, os 10 meses da Revolução de 1923 ajudam a explicar a crise da República Velha e preparam o caminho para a Revolução de 1930. O conflito não terminou com uma vitória militar dos revolucionários, mas enfraqueceu a permanência de Borges de Medeiros no poder e abriu espaço para a ascensão de Getúlio Vargas.

— Eles não ganharam a revolução, porque houve paz, porque o governo federal resolveu finalmente intervir, mandou um pacificador. Mas eles mudaram o Brasil — afirma.

A dimensão cinematográfica da história também passa pelos detalhes concretos da guerra. Henrique cita as colunas em deslocamento, a alimentação improvisada, o frio e a precariedade dos combatentes. Em determinado momento da pesquisa, uma pergunta aparentemente banal ajudou a dar corpo ao passado. Como alimentar centenas de homens em movimento?

— Vocês sabem como é que essa coluna se alimentava? Precisava de seis bois por dia. Tinha que matar seis bois por dia, carnear, dividir a carne, assar o churrasco. Imagina a coluna do Honório, que tinha 2 mil. Quantos bois por dia, quando dava para comer, quando eles não estavam fugindo dos outros? — especula o diretor.

Essa atenção à matéria bruta da história, para Henrique, é o que permite ao cinema tirar 1923 do resumo escolar. Os filmes combinam entrevistas, arquivos, imagens de paisagens, cemitérios, estâncias, documentos e cenas preservadas do longa de Camozato. O diretor destaca ainda o trabalho gráfico aplicado ao material de época e a trilha de Sérgio Rojas, parceiro de longa data.

Embora reconheça que a história do Rio Grande do Sul muitas vezes fica confinada ao próprio Estado, Henrique rejeita a ideia de que um filme ambientado no universo gaúcho precise nascer condenado ao nicho. Para ele, a oposição entre regional e universal empobrece a discussão.

— Não tem nada que seja regional nem universal. O que importa é contar uma história boa com um ponto de vista original — diz.

O diretor compara o potencial dramático da história gaúcha ao que os Estados Unidos fizeram com o faroeste. A diferença, para ele, é que o Rio Grande do Sul ainda explorou pouco esse repertório no cinema.

— Os americanos reconstruíram a história deles a partir da dramaturgia, do cinema. Nós não precisamos nem reescrever a nossa, porque ela está aí. É só adaptar.

Depois da mostra, a ideia é que os três filmes sigam carreira em plataforma de streaming. Antes disso, Henrique quer ver o público reunido na Casa de Cultura Mario Quintana para assistir aos documentários e participar dos debates.

— Vai ser uma confraria de quem ama a história do Rio Grande do Sul.

Programação da mostra "Ecos de 1923"

9 de junho, terça-feira, às 19h

A deflagração do conflito: contexto, adesão e consciência política

Debate com Miguel do Espírito Santo e João Aloísio Degrazia

 

10 de junho, quarta-feira, às 19h

O corpo da guerra: trauma, violência, cicatriz

Debate com Coralio Cabeda e Fernando Azambuja

 

11 de junho, quinta-feira, às 19h

Elaboração simbólica: memória, política, conciliação e legado

Debate com Marcos Hernandez e Rodrigo Aguiar