"TEU PRESTÍGIO É PROPORCIONAL A TUA CONDUTA"

Léo Ribeiro


RETRATO DA SEMANA

RETRATO DA SEMANA
Ânimo, gurizada. As águas estão voltando para o leito.

domingo, 18 de outubro de 2020

OS MUARES E O TROPEIRISMO

 


Aos poucos as cavalgadas estão retornando a desbravarem as trilhas do Rio Grande e como burros e mulas voltaram a ser muito utilizados nestes eventos, vamos falar um pouco sobre estes animais.

Embora a mula e o burro sejam animais cheios de problemas em relação á docilidade, em face de que seus pais são de espécie diferente, cujos descendentes são estéreis, (a mãe é uma égua e o pai um jumento) a mistura acaba dando certo proporcionando um animal forte e de ótimo cômodo para a andadura. A mula (ou burro, se for macho, já que mulo não existe) é resistente e boa para o serviço, mas não se reproduz. A união entre o jumento e a égua é estimulada porque o burro é um animal apropriado para trabalho pesado.

Foram através destes animais, principalmente da mula, que o tropeirismo se desenvolveu abrindo picadas em lugares inóspitos e de difícil acesso: No lombo da mula começa nossa história mais recente.

Do cruzamento entre o burro e a égua (ou da besta com o cavalo) nasceram as mulas. Da união entre as mulas e o homem, surgiu o tropeirismo, que deu suporte para a economia aurífera até o desenvolvimento das estradas de ferro. A explosão do ouro na região onde hoje é o Estado de Minas Gerais, em meados do século 18, fez com que aumentasse a necessidade de levar mantimentos para abastecer os pequenos povoados que começavam a crescer Brasil adentro. É aí que entra o tropeiro: espécie de caminhoneiro sem motor, que transportava mercadorias e alimentos para a região das minas, onde a agricultura e a criação de gado haviam sido proibidas pela Coroa para não dispersar a mão-de-obra do ouro.

Seguindo as trilhas dos índios ou desbravando novas rotas, as caravanas propiciaram o desenvolvimento de cidades – como Congonhas do Campo, em Minas Gerais, e Sorocaba, em São Paulo – e abriram caminhos do Sul ao Nordeste do Brasil. Mas, para que as mulas cortassem o centro do País em busca do ouro mineiro, era preciso buscá-las no Rio Grande do Sul. Só aqui havia criações dos resistentes animais, trazidos ilegalmente de Montevidéu.

Numa dessas viagens pelo Sul, um tropeiro ganhou fama por sua bravura: Reinaldo Silveira. Ele saiu com mais sete peões de Ponta Grossa, no Paraná, rumo a Cruz Alta, no Rio Grande do Sul, para buscar uma tropa de 550 mulas. A viagem começou no dia 28 de julho de 1891 e acabou em 19 de novembro do mesmo ano. As estreitas estradas que beiravam abismos em que caminharam, os mais de 12 rios que atravessaram a nado e as canoas que construíram foram só algumas das agruras pelas quais os tropeiros passaram. Mas, 56 dias depois, voltavam sãos e salvos para casa. Tinham 22 mulas e 3 milhões de réis a menos. Os animais foram mortos ou perdidos. O dinheiro foi extorquido pelo governo em barreiras colocadas nas rotas das tropas, espécie de pedágio da época.

Esta é apenas uma das histórias das milhares que existem sobre o tropeirismo.

Agora, na primeira semana de junho, acontecerá o 3º Encontro de Muleiros de Fazenda Souza (distrito de Caxias do Sul, RS).

Os organizadores, Ivan Machado, da Associação dos Muleiros da Serra Gaúcha e Roque Tomé, sub-prefeito do local estão preparando a programação com muito entusiasmo.

Esse evento será comemorativo aos 250 anos do Pouso Alto, nome antigo de Fazenda Souza. Ali nas terras do paulista Ignácio Correia de Souza, no século XVIII existia uma parada de Tropeiros que passavam pela região. Poucas pessoas sabem deste pedaço da história, encravada dentro do sistema de colonização da imigração italiana.

Será um acontecimento de vulto e importância para o resgate de raízes de muitas famílias antigas, anteriores a 1875. Também está programado o lançamento da Rota Tropeira de Caxias, que segundo a documentação encontrada iniciava na chamada Ponte do Raposo (divisa com Gramado) e seguia até a Ponte do Kroeff (Criúva, divisa com o antigo território de Vacaria). Uma conquista de quem gosta da História de nossa gente.



Foto: Luciana Heitelvan