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Léo Ribeiro

RETRATO DA SEMANA

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quinta-feira, 1 de novembro de 2018

ALGUMAS DO PAULINHO PIRES




Tem certas pessoas que tem o dom de contar causos fazendo a gente visualizar e imaginar o que estaria se passando. O grande Paulinho Pires era um destes.

Isto é um dom pois a mim, podem entregar-me a piada mais engraçada do mundo com a missão de fazer alguém gargalhar, que não consigo.

Já com o Paulinho Pires a pegada era diferente. Lembro que eu ia nos nossos encontros na Estância da Poesia Crioula só para ouvir o Paulinho, pessoa calma, tranquila, que nunca andava com pressa, retratar suas proezas dos tempos de boemia pelos bares de Porto Alegre.

Na última vez que estivemos juntos, antes do parceiro velho adoecer, me contou de um conterrâneo meu, seu Juvenil Souza, pai do meu amigo Luiz Souza, que fez um bonde lotado parar, na descida da Borges de Medeiros, em Porto Alegre, porque ele (Juvenil) tinha enxergado o Paulinho Pires na parada.

Uma narrativa que seria singela tornava-se uma epopeia contada pelo grande mestre do serrote. Ele imitava a freada do bonde, o motorneiro tentando fazer parar a condução, os passageiros brabos com aquela pessoa que tentava passar meio que a força e que todo aquele transtorno era somente para o seu Juvenil dar um abraço no Paulinho.

O Paulinho Pires, grande amigo, figura humana sem par neste mundo velho de Deus, abaixo de muito riso, arrematava seu causo dizendo que o seu Juvenil teve o cuidado de deixar uma das pernas no estribo do bonde para que o motorneiro não seguisse adiante. - Segurou o bonde com um pé - dizia o Paulinho.
 
 
De outra feita fiz uma viagem a São Lourenço do Sul e me acompanhou nesta jornada o Paulinho Pires que, por sua vez, levou junto sua nova companheira (Paulinho Pires havia viuvado em 2013). 
 
Viajar com o Paulinho era um prazeraço porque os causos, as piadas, as terminologias que  brotavam do autor do Cevador de Mates, Súplica do Rio, e outros tantos sucessos musicais, eram sempre muito engraçadas, tornando a viagem mais curta. Eu tentando sugar tudo o que podia. Pena não ter um gravador...  
 
Esta lenda viva do Rio Grande na época estava com 83 anos e sua amiga, a Angelina, que ele chama amorosamente de Gê, devia ter idade parecida. Ela cuidava dele com o maior esmero e regramentos pois o Paulinho Pires sempre foi um homem meio descuidado com horários. A pressa nunca foi apresentada a este grande parceiro.
 
E como todo casal novo, os dois estavam cheios de carinhos. E eu só negaciando pelo retrovisor...
 
Vez em quando, na folga do namoro, o Paulinho largava uma que chegava a me doer a cabeça de tanto rir.
 
Na hora em que os dois tomaram alguns dos diversos remédios diários, ali por perto do município de Cristal, o Paulinho, com sua voz pausada e mansa, me saí com esta:
 
- Pois sabes, Léo, que eu e a Gê temo igual a junta de boi carrero passando em ponte estreita. Um se firmando no outro....
 
Aí eu larguei de mão.