RETRATO DA SEMANA

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José Luis dos Santos - 1934 - 3º Distrito de Cruz Alta

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terça-feira, 4 de julho de 2017

PAIXÃO CÔRTES ANUNCIA AFASTAMENTO


DA VIDA PÚBLICA



Por Carlos C. Paixão Côrtes (Filho do J.C. Paixão Côrtes)
Via Jornal Correio do Povo

João Carlos D’Ávila Paixão Côrtes, nascido em Santana do Livramento, fronteira seca do Rio Grande do Sul com Rivera (Uruguai), em 12 de julho de 1927, é engenheiro agrônomo, folclorista, radialista e dedicado pesquisador da cultura, hábitos e costumes populares do Rio Grande do Sul e do Brasil, os quais registrou em dezenas de publicações e discos. Formado em agronomia, teve sua vida profissional ligada à Secretaria da Agricultura do Rio Grande do Sul, onde desenvolveu trabalhos relacionados com a ovinotecnia, com destaque para a introdução da tosquia australiana e a tipificação de carcaças.

Em 1947, liderou os estudantes que fundaram o Departamento de Tradições Gaúchas do Grêmio Estudantil do Colégio Júlio de Castilhos em Porto Alegre, célula-mater do Movimento Tradicionalista Gaúcho. Esse núcleo estudantil foi o centro agregador para um grupo de jovens que protagonizaram pioneiramente momentos marcantes na história do tradicionalismo. Ele e sete companheiros, trajados e montados tipicamente à gaúcha, algo inédito na época, formaram o “Piquete da Tradição” que desfilou, em Porto Alegre, fazendo a guarda de honra da urna funerária dos restos mortais do general farroupilha Davi Canabarro.

Este Departamento criou, durante a primeira Ronda Crioula, uma série de solenidades culturais e cívicas que deram origem aos símbolos da Chama Crioula e do Candeeiro Crioulo e que inspiraram a criação da Semana Farroupilha. Participou ativamente do grupo, onde estavam presentes Barbosa Lessa e Glaucus Saraiva, que fundou o “35 Centro de Tradições Gaúchas”, o primeiro CTG, compondo a primeira diretoria como Patrão de Honra. Estima-se que existam mais de 4.000 entidades gauchescas de diferentes constituições (CTGs, piquetes, grupos de danças e conjuntos musicais, etc.) que congregam cerca de 5 milhões de pessoas no Rio Grande do Sul, em quase a totalidade dos estados do Brasil, e em diversos países da Europa, da América do Norte e da Ásia.

Seu trabalho foi reconhecido pelo povo do Rio Grande do Sul, ao ser escolhido por voto espontâneo, como um dos “20 Gaúchos que Marcaram o Século XX”, colocando-o entre exponenciais figuras como Getúlio Vargas, Osvaldo Aranha, João Goulart, Erico Verissimo, Mario Quintana, Barbosa Lessa e outras personalidades. Nacionalmente foi distinguido pelo então presidente da República Fernando Henrique Cardoso com a Comenda da Ordem ao Mérito Cultural por serviços prestados à cultura brasileira.

Do governo do Estado do Rio Grande do Sul recebeu a Medalha Negrinho do Pastoreio como reconhecimento por serviços prestados à cultura e a Medalha Assis Brasil em destaque por seu trabalho em prol da agropecuária. Por sua atuação nos mais diversos segmentos, igualmente recebeu significativas homenagens e distinções por diferentes entidades das áreas de ensino, da cultura, das artes, da literatura, das representações governamentais, da agropecuária, da economia, da religiosidade e da representação popular.

Igualmente, empresta seu nome a museu, a CTG, a praça e a premiações em distintos municípios gaúchos. Convidado pelo consagrado escultor Antônio Caringi, em 1954, Paixão Côrtes teve a honra de posar, com suas roupas campeiras e laço de 14 braças, para o artista esculpir a estátua O Laçador, que inicialmente foi colocada em gesso na exposição em comemoração do IV Centenário de São Paulo. Em 1958, a obra escultural eternizada em bronze foi erguida em praça pública à entrada de Porto Alegre, sendo deslocada, em 2007, para o Sítio do Laçador.

Recentemente, sua Santana do Livramento homenageou-o com obra estatutária de Sérgio Coirolo, colocada na entrada da cidade, saudando o visitante da fronteira. Paixão Côrtes, que iniciou suas pesquisas folclóricas junto com Barbosa Lessa ainda no final da década de 40, desenvolveu um notável trabalho de “garimpagem” junto ao genuíno homem do campo por perdidos rincões do estado gaúcho. No transcorrer do tempo, necessitou custear, às expensas próprias e sem auxílio de qualquer órgão governamental, os filmes, as fitas magnéticas e os equipamentos — gravadores, filmadoras e máquinas fotográficas — utilizados para registrar um fértil manancial da cultura popular gauchesca.

Deste trabalho como pesquisador no nosso Estado, em outros estados brasileiros e em diversos países da América Latina e da Europa, resultou um acervo de milhares de slides, de centenas de fitas gravadas, de horas de filmes em super 8 e em VHS, de raros registros fonográficos da Casa A Eléctrica, pioneira produtora do selo gramofônico Discos Gaúchos, e de inúmeros documentos sobre os hábitos e costumes rio-grandenses.

Tendo como foco a divulgação deste material, colaborou com diversos artigos para jornais e revistas, apresentou teses aprovadas em Congressos Tradicionalistas e de Pesquisadores da Música Brasileira, palestrou em simpósios e encontros culturais, participou de programas de rádio e televisão, colaborou com documentários, entre outras atividades culturais. 

Profissionalmente realizou cursos sobre tradição, folclore e danças tradicionais, ensinou professores em especializações em faculdades, realizou espetáculos de danças e, como radialista, utilizou seus programas, ao longo de quatro décadas para propagar seus estudos e para oportunizar espaço para manifestação da cultura popular do homem do campo. Desenvolveu nas últimas décadas o Projeto Mogar (Momento Gauchesco Artístico Cultural Rio-grandense), no qual editou, com textos e fotos do seu acervo pessoal, cerca de quatro dezenas de livros, opúsculos, folhetins, e fôlderes, num total de 350 mil publicações que estão sendo distribuídas gratuitamente para enriquecimento cultural de bibliotecas públicas, de entidades educacionais, de Centros de Tradições Gaúchas (CTGs), de grupos artísticos, de escolas e de diversos grupos propagadores da cultura gauchesca.

Assim, em 70 anos de múltiplas atividades, Paixão Côrtes sempre foi um tropeiro cultural. Se em um momento estava em terras europeias cantando e dançando a alma da sua terra, em outro estava pesquisando e resgatando as manifestações autóctones do povo sulino, para, em seguida, estar transmitindo e divulgando-as pelos diversos rincões do Brasil, contribuindo, assim, definitivamente na formação da identidade do gaúcho rio-grandense.

Chegando aos 90 anos de idade, decidiu recolher-se na intimidade do convívio familiar. Vai dar uma pausa na sua atuação como homem público, pois os anos de tropeada lhe causaram desgastes de saúde. Já não consegue atender igualmente a todas as demandas e não quer preterir ninguém, mas precisa se fortalecer. Espera que compreendam sua decisão. A sua figura pública sempre foi agente de uma ideia, que foi plantada em solo fértil, e propagou nas novas gerações. Que estas sejam responsáveis pelos novos frutos.

Ele segue observando, organizando e enriquecendo seu extenso acervo documental de pesquisas. O Tropeiro da Tradição agora segue “a despacito”, no ritmo do seu tempo, a trançar outros tentos. Agradece a todos as mais diferentes manifestações de carinho que continua recebendo.

Porto Alegre, 2 de julho de 2017.