RETRATO DA SEMANA


QUE AS COVARDIAS DOS FEMINICÍDIOS DEIXEM AS MULHERES EM PAZ.

domingo, 26 de março de 2017

CAUSO DE GALPÃO


RABELO BERRÃO
 
Como já faz tempo que não publico um causo de galpão e temos aí um domingo de politicagem correndo solta pelas ruas e parques deste meu Brasil, vou contar de uma que aconteceu no saudoso CTG Rancho Colorado, na antiga e legendária Aratinga de minha infância.

Corria a década de sessenta, vésperas das eleições no município de São Francisco de Paula. Um dos candidatos a prefeito que, sinceramente, não me recordo o nome, tinha comício marcado naquele lugarejo ermo, mas com uma farta mesa eleitoral visto que ali existia uma sub-prefeitura do município.

A churrascada ia correr solta e os preparativos eram grandes pois naquelas bandas, além dos comícios, só carreira, velório e festa do padroeiro para juntar tanta gente.

Acompanhavam a comitiva diversos candidatos a vereadores e alguns artistas que tinham a função de alegrar o ambiente. Dentre estes, um trovador de Gravataí que vinha com os versos “na manga” exaltando o fulano candidato. Era de praxe convidar algum cantador ou gaiteiro da localidade para “valorizar” o povo visitado. Aí é que entra na história o Rabelo Berrão.

O Rabelo Berrão era um gringo metido a fazedor de verso que se aquerenciou pela Aratinga e vivia de pequenos biscates. Dizem que era um bom mecânico mas como por lá a maioria da força motora era na pata de cavalo, o Rabelo não tinha muita função. Consertava uma tombadeira aqui, um trator ali, e assim, como a mulher era professora municipal, ia se defendendo. No mais, vivia no bolicho do Seu Albérico fazendo verso e bebendo. De beberrão é que veio o apelido Rabelo (berrão).

Ficou então definido que o Rabelo faria uns versos, representando a Aratinga, com o trovador de Gravataí. Tudo muito recomendado para que não se emborrachasse na véspera nem fizesse cantoria que fosse contra o candidato.

Chegado o dia, domingo ensolarado, gente saindo pelo ladrão do Rancho Colorado, discurso pra cá, discurso pra lá, promessas e mais promessas. O trovador gravataiense num canto do balcão, já entre um trago e outro, combinou informalmente com o Rabelo para trovarem no estilo Gildo de Freitas que estava muito em moda pelas redondezas da capital. O galo da Aratinga, embora não muito manso com a métrica desta trova, topou a parada.

Pois a trova ia mais ou menos bem com a torcida local toda para o Rabelo Berrão quando o trovador de Gravataí, vendo que estava perdendo terreno, esqueceu dos elogios para o seu candidato e começou a dar “puaços” no Rabelo. O gringo, já meio ofendido com os versos provocativos, não deixava por menos. Foi então que aconteceu a desgraça; O trovador da grande Porto Alegre, levando a mão na genitália, terminou seu verso assim: “.... hoje tu engole meu osso”.

Correu um calafrio nas autoridades presentes. Rabelo Berrão, envermelhou, branqueou, esverdeou e sem querer saber aonde e com quem estava respondeu à altura:

- Hoje tu engole meu osso
não sou assim como tu,
eu sou da velha Aratinga
onde gorjeia o inhandu,
se tu é um lenha-podre
eu sou pau-de-guabiju,
me adesculpe seu moço
mas cusco que engole osso
tem confiança no seu c...!

Não precisa dizer que o comício, entre uma porção de panos mornos, foi esmorecendo ali mesmo.

causo recolhido e escrito por Léo Ribeiro