RETRATO DA SEMANA


JuanMa Gutiérrez

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

 

O GÊNERO MUSICAL BUGIO

Parte I 


Na semana que vem começa mais uma edição do Festival Ronco do Bugio de São Francisco de Paula, aonde é permitido apenas um gênero musical, ou seja, o bugio.

Como o tema desperta muita curiosidade faremos uma matéria dividida em duas partes sobre este que é o único gênero musical gaudério criado em nosso Estado.  


Apesar das disputas narrativas quanto à sua origem, o bugio pode ser oficializado enquanto patrimônio imaterial do Rio Grande do Sul
Apesar das disputas narrativas quanto à sua origem, o bugio pode ser oficializado enquanto patrimônio imaterial do Rio Grande do Sul
LEO RIBEIRO/REPRODUÇÃO/JC  
Reportagem do Jornal do Comércio por: João Vicente Ribas
O bugio é um mamífero nativo do continente americano, muito presente no Rio Grande do Sul. Quando ameaçado, além de atirar esterco, projeta uma vocalização grave característica, popularmente conhecida como ronco. Também é chamado de macaco-uivante ou guariba. Seu nome científico é Alouatta, da família Atelidae. Vive de 15 a 20 anos e mede de 55 a 91 centímetros de comprimento. Subdivide-se em diferentes espécies, como o bugio-preto e o ruivo.
É unanimidade que a referência a esse animal tenha nomeado o único gênero musical reconhecido como genuinamente gaúcho. Mas há pouco consenso em torno das circunstâncias e do local exato onde se originou. Algumas histórias envolvem tropeiros imitando o ronco do bugio com a gaita, outras valorizam a dança indígena que mimetiza seu andar. Recentemente surgiram teses que associam o ritmo a origens caipiras.
Nesta reportagem do Jornal do Comércio, a quarta da série Gêneros Musicais Gaúchos, verificamos as principais versões da gênese do bugio, ritmo binário muito presente hoje em bailes no Estado todo. Contamos ainda as disputas e acordos entre duas cidades gêmeas, uma serrana e outra missioneira, que se auto-intitulam berço do bugio. E ainda atualizamos informações sobre o processo de reconhecimento do ritmo como patrimônio imaterial.

O primeiro bugio

Irmãos Bertussi gravaram 'O Casamento da Doralícia', primeiro bugio registrado em disco
Irmãos Bertussi gravaram 'O Casamento da Doralícia', primeiro bugio registrado em disco
ACERVO PESSOAL ADELAR BERTUSSI/DIVULGAÇÃO/JC
O bugio ganharia notoriedade a partir de 1956, quando os Irmãos Bertussi gravaram o primeiro em disco: O Casamento da Doralícia. Foi um impulso para a popularização e para a consolidação como gênero musical. Na contracapa do LP Coração Gaúcho 2, que contém a canção, há um texto explicativo: "O Casamento da Doralícia - Bugio - conto gauchesco de Honeyde Bertussi e música também colhida do folclore. Bugio é um samba ritmado caracterizado pelo jogo de fole do gaiteiro. O passo da dança é de acordo com o movimento do fole".

Adelar Bertussi orgulhava-se em dizer que após essa gravação, o bugio virou moda em todo o Rio Grande do Sul. Em registro audiovisual (Gema, 2016), realizado pouco antes de falecer, assegurou que ele e seu irmão Honeyde conservavam os ritmos folclóricos e apenas criavam uma roupagem moderna no arranjo das gaitas.

Sobre o bugio, Adelar afirmou que é nativo indígena: "a tribo dos kaingang aqui dançavam bugio a madrugada inteira". No entanto, parte da sociedade serrana desaprovava-o por causa da sensualidade atribuída aos movimentos. "Era proibido nos bailes aqui em cima dançar a dança do bugio", recordou.

Outras canções célebres vieram a seguir e ajudaram a consagrar o gênero. Na Califórnia da Canção, em 1973, dois bugios de São Borja foram classificados para a final e entraram para a história (veja cronologia abaixo). No entanto, nos festivais nativistas em geral é raro apresentarem o ritmo. E dificilmente sai vencedor. Já nos eventos exclusivos para o bugio, grandes gaiteiros do gênero, como Edson Dutra, dos Serranos, e Albino Manique, dos Mirins, participam e concorrem aos primeiros prêmios.

Uma das composições mais populares, até hoje entoada Estado afora, é Levanta Bugio, de Leonardo. Defendida pelo cantor junto ao grupo Os Monarcas, venceu em 1986 a primeira edição do festival Ronco do Bugio.

Ronco que ressoa na cordeona

Léo Ribeiro já participou do Ronco do Bugio como compositor, organizador, jurado, apresentador e ilustrador das capas dos álbuns
Léo Ribeiro já participou do Ronco do Bugio como compositor, organizador, jurado, apresentador e ilustrador das capas dos álbuns
JOÃO VICENTE RIBAS/ESPECIAL/JC
Yamandu Costa, hoje violonista famoso internacionalmente, venceu em 1995 a categoria infanto-juvenil do Ronco do Bugio, em São Francisco de Paula. E cantando! O jovem Diamandú, conforme assinava, interpretou Gaita Mulata, de autoria de Léo Ribeiro.
Essa é uma das memórias que o autor serrano guarda de tantos anos de festival. Léo participou de todas as edições, de diversas maneiras. Além de compositor, foi organizador, jurado, apresentador e, inclusive, criou capas de discos. A imagem que divulga a próxima edição tem a sua assinatura. Seu exemplo ilustra o envolvimento apaixonado dos moradores da cidade em torno do gênero.
Léo Ribeiro reforça o coro de que o bugio foi criado no Estado, diferente de outros ritmos presentes nos bailes, como a vanera, o xote, a valsa, a milonga, que teriam vindo de outros lugares. "O único ritmo que realmente foi parido no Rio Grande do Sul foi o bugio", sustenta.
A narrativa da origem indígena, com a participação dos tropeiros, faz sentido para Léo. "Nas rondas fechadas, quando chegavam naquelas propriedades que tinham mangueira, largavam o gado dentro, iam relaxar, tocar, dançar, e dizem que daí surgiu o bugio", afirma.
Para reforçar o argumento, cita o folclorista Paixão Côrtes e suas pesquisas sobre as danças masculinas: "dizia que os tropeiros dançavam inclusive entre eles, entre os homens". Daí teria saído a chula, a dança do bugio, que também era dançada com as indígenas. Inspiravam-se no jeito desengonçado do animal: "assim como a música é uma imitação do ronco, a dança é uma imitação do caminhar do primata".
Mas Ribeiro reconhece que existem muitas dúvidas e coloca mais lenha na discussão: "agora já surgiu uma nova versão, que o bugio teria origem paulista". E explica que um ritmo muito próximo teria sido trazido pelos tropeiros que vinham de São Paulo e passavam por aqui, a batida da moda de viola, o cururu. "Então os gaúchos botaram o som da gaita e virou o bugio", supõe.
 
Os Mirins estão entre os grupos que mantêm a tradição do bugio nos bailes
Os Mirins estão entre os grupos que mantêm a tradição do bugio nos bailes. Na ilustração os saudosos Francisco Castilhos e Albino Manique.  
ARTE DE LÉO RIBEIRO/REPRODUÇÃO/JC