RETRATO DA SEMANA


Coluna Maragata de Honório Lemes, o Leão do Caverá (1923).

sábado, 18 de julho de 2026

 

QUEM TEM, TEM MEDO!


Nestas noites de puro breu aqui pela praia, em virtude dos roubos de fios da minha rua, na madrugada de sexta para sábado ouvi gritos estranhos. Te juro que não eram uivos do vento ou barulhos do mar.   

Estou sozinho por aqui pois a patroa está em São Paulo e lhes digo: Foi de arrepiar o sabugo. 

Agora que voltou a energia e o cagaço passou me lembrei desta matéria que postei recentemente mas que sempre desperta curiosidades.  


O LOBISOMEM NO FOLCLORE GAÚCHO

 



Viramos o século XXI e aqui pelo Rio Grande do Sul se acredita em Lobisomem. Tal mito é basicamente a crença que determinados homens podem se transformar em um monstro meio lobo meio homem.

Já na Grécia clássica se conhecia o Licantropo, literalmente lobo-homem. Deve-se aos gregos a expressão licantropia, usada para designar o fenômeno. Na Roma dos Césares, era o Versipélio, o Lobisomem latino.

O mito no Rio Grande do Sul sustenta que o sétimo filho homem de uma família será fatalmente Lobisomem -  a menos que seja batizado pelo irmão mais velho. Há, também, uma forma folclórica de se transmitir o fado: quando um velho que é Lobisomem sente que ai morrer, ele fica sofrendo muito a alguém mais moço. E não consegue morrer antes disso. Se tem algum guri ou moço por perto ele simplesmente pergunta: "Tu queres?". O ingênuo normalmente acredita tratar-se de algum presente e responde: "Sim". Aí o velho morre feliz porque transmitiu o fado.

O homem que tem o fado de Lobisomem é sempre de raça branca, pelo duro (ou seja, não há Lobisomem negro, alemão ou gringo), magro, de olhos no fundo, dentes salientes e cara de cor amarelada, muito pálido. Quase sempre mora sozinho. Mais raramente vive com a mãe, uma velha muito estranha. Mais raramente ainda é casado e a mulher ignora o fato.

Mora sempre em um rancho o mais isolado possível, obrigatoriamente com um galinheiro nos fundos.

O fado do Lobisomem é uma cruz que ele carrega. Não fazendo mal a ninguém, ele é mais uma vítima do que um carrasco. Se é atacado, reage. E morde cachorros e até pessoas, mas se puder evitar isso ele evita. O lobisomem tem que cumprir o seu fado , que é correr nas sextas-feiras de lua cheia, da meia noite ao clarear do dia.

À meia-noite ele se rebolca no sujo das galinhas, rolando no chão e se transforma. Quando vai amanhecer ele retorna ao galinheiro, se rebolca novamente e volta a ser gente.

Durante sua ronda fatídica, se ele é ferido por arma branca, transforma-se e aí, já como homem, mostra o mesmo ferimento no mesmo lugar em que, como monstro, foi ferido. Se alguém atira sal nele enquanto Lobisomem, no outro dia, como homem, ele virá a casa da pessoa que atirou o sal, devolvendo um punhado, como se tivesse recebido por empréstimo.

Em cada cidade gaúcha correm histórias envolvendo o velho mito do Lobisomem. Cuidem-se, portanto. 

Do livro: Mitos e Lendas do Rio Grande do Sul / Antonio Augusto Fagundes