RETRATO DA SEMANA

RETRATO DA SEMANA
Bandeira do Rio Grande hasteada na chaminé de 92 metros do Shopping Total em Porto Alegre. Foto: Divulgação Shopping Total.

domingo, 18 de fevereiro de 2024

 

PARA FICAR GRAVADO


Eu fico imaginando, cá com meus botões, quão dura é a tarefa de um colunista que tem a responsabilidade de publicar diariamente em algum jornal de grande circulação. 

Eu, por vezes, fico mais atarantado que sapo em cancha de bocha nestas minhas singelezas que há 14 anos venho postando diariamente, sem a responsabilidade que escrever para um periódico de renome. 

Penso que o jornalista tem que se superar a cada texto. Pois o Fabrício Carpinejar conseguiu se superar na sua coluna no jornal Zero Hora, @gzhdigital, última página, Porto Alegre no dia 16/2/2024. Tal escrito deveria ser postado em todas as redes sociais, espaços públicos, colégios, enfim, aonde alguém se preocupasse com a nossa segurança aqui pela Província de São Pedro. 

Apreciem: 

UM FORAGIDO POR HORA NO RS

Fabrício Carpinejar 

Prisão não mete mais medo. 

A Polícia Civil prende. E muito. A Brigada Militar prende. E muito. 

O Ministério Público realiza a sua tarefa de apuração dos fatos e de acusação. 

Mas os criminosos não duram em nada nas cadeias.

Nossos júris parecem encenações. É bem possível que um condenado a mais de cem anos esteja em liberdade com um décimo da sua sentença. 

Não conseguimos manter o bandido atrás das grades. 

Vivemos um círculo vicioso, de eterna reciclagem de violência. 

A maior parte das prisões é reincidência. 

Nossos policiais e brigadianos têm que prender a mesma pessoa dez vezes. É um verdadeiro escárnio, um despropositado deboche das leis. 

Quantos impostos são jogados fora pelo retrabalho de nossos agentes de segurança, de nossos promotores e juízes? 

Às vezes, os brigadianos e os policiais prendem alguém, voltam ao batente da rua e, quando retornam a sua corporação ou a sua delegacia, o suspeito já foi liberado. 

No ano passado, ao menos um foragido foi recapturado por hora no Rio Grande do Sul, formando um contingente de 9 mil presos com ficha corrida, o que indica aumento de 15,9% no comparativo com 2022. 

Não dá tempo nem para mudança de hábitos, para o exame da consciência, para sentir falta dos familiares, para pesar as consequências da transgressão, para valorizar a soltura diante do confinamento, para uma fundamentada reeducação.

Só a ressocialização dos apenados funciona no país, porque eles jamais permanecem nos presídios. É uma ressocialização — ironicamente — rápida e imediata. 

Quem assalta não tem mais receio da prisão, porque acabou de sair e logo sairá novamente. Ela não representa o fim da sua vida, ou uma punição pesada pelas suas contravenções.

A detenção passou a ser vista como uma transição obrigatória para obter mais autoridade nas quadrilhas. Trata-se de um batismo de fogo. Ser preso é carreira no Brasil, promoção para receber tarefas mais complexas, sórdidas e sanguinárias. 

Além da proteção das facções nas cadeias, com a sua rede de favores e seus advogados, existe a certeza da reversão do quadro. 

O presidiário sabe que vai escapar de um jeito ou de outro. Pela redução da pena por fingido bom comportamento. Ou por fugas pela vigilância relaxada e falta de efetivo. Ou pelas saidinhas conquistadas nas datas comemorativas. 

Não é que temos um sistema muito brando, é que não seguimos o sistema. O problema maior, do qual não se fala, é o descumprimento na ponta final da estrutura: a ideologização de certa parcela do Judiciário. 

Não é que amargamos uma legislação suave, é que não aplicamos rigorosamente a lei, desencadeando uma realidade repetitiva. 

Há soltura em etapas forjadas, à base do canetaço. Como só temos o regime fechado nas penitenciárias, sem previsão de condicionamento para o regime aberto e semiaberto, o detento recoloca sua tornozeleira em qualquer animal para despistar seu paradeiro. 

A escandalosa impunidade foi chamada de “bandidolatria” pelos promotores de Justiça gaúchos Diego Pessi e Leonardo Giardin de Souza. Ambos escreveram um livro — Bandidolatria e Democídio — apontando que há algo de podre na inércia das autoridades encarregadas de combater a criminalidade no Brasil: o bandido torna-se sempre uma vítima da sociedade e não é responsabilizado por seus atos. 

Essa mentalidade é resultado da ideologia de uma oligarquia acadêmica, político-burocrática e jurídica, que não reconhece a dor familiar de 60 mil assassinatos anuais. 

O que não percebemos é que aquele que rouba, ao ser solto, ganha confiança para matar, adquire onipotência para subtrair inocentes existências à mão armada. 

Ninguém pensa nos direitos humanos dos cidadãos de bem e das vítimas?