RETRATO DA SEMANA


Para quem começou este blog há 16 anos atrás com 40, 50, acessos diários, terminar o mês de junho com 99.429 acessos (somente no dia 01 já tivemos 10.040 visitas) só aumenta nossa responsabilidade. Continuamos peleando apenas pelo prazer de ser mais um guardião da cultura regional gaúcha.

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

 

QUANDO SE VAI UM IRMÃO


Luiz Dutra Niederauer
Que o Grande Arquiteto o receba em sua Santa Gloria 


A gente vem pra este mundo

como o destino escolheu.

Uns, caboclos como eu

criados num campo fundo.

Hay quem não largue um segundo

o seu jeitão entonado,

tem os que nascem jogados

como filhos de perdiz

e tem quem brote feliz

pela fartura rodeado.

 

Dizia Jayme Caetano:

- Tudo isso desaparece, 

tudo, no mais, se parece

quando a gente abrir os panos.

Os sonhos, os desenganos,

num piscar já não são nada.

Viramos poeira da estrada

e quem habita o mausoléu

tem o mesmo espaço no céu

que o peão da cruz falquejada.

 

Mas tem uma coisa que fica

pairando na vós dos ventos,

peleando a tapa com o tempo,

murmurando pelas bicas.

Pra mim, a coisa mais rica

de tudo aquilo que temos

é a postura que mantemos

no ir e vir das andanças.

Esta é a nossa herança:

- o que de bom nós fizemos -

 

Me digam quem sente falta

de algum bandido ou ladrão?

Quem é que guarda paixão

por quem mata, quem assalta?

Lá o fundo o peito exalta

o tombar de um calaveira.

- Lá se vai mais um porqueira.

a gente fala, brincando,

quando um destes vai cruzando

a cancela derradeira.  

 

Mas quando um Irmão obedece

ao chamado do Arquiteto?

Ah... sob um cortejo discreto

as nossas almas padecem.

As colunas estremecem

e do Sul ao Oriente

há um sentimento plangente

pelo adeus que não tem volta

e uma lágrima se solta

do Olho Onividente.

 

Quando o Pai reculuta

um Irmão em tantos nomes

sabe que ali vai um homem

que poliu a pedra bruta,

que suas armas, nestas lutas,

foram ideais libertários.

Um Irmão é voluntário

quando a prosa é independência

dos porões da inconfidência

aos farrapos legendários.

 

E é por isso, no mais,

que ao ir um Irmão fraterno

rumando o Oriente Eterno

a terra dá seus sinais.

Na lagoa os juncais

se inclinam em reverência,

flores exalam essências,

bem-te-vis gorjeiam cantos,

nuvens cinzas tecem um manto

como enlutando a querência.

 

E não importa ao supremo

joias, medalhas, diplomas,

o que interessa, o que soma,

são gestos, atos, exemplos.

É construir o seu Templo

com amor e devoção

crer no poder de união

e aplicar o aprendizado.

Não adianta Grau elevado

sem atitudes de Irmão.

 

Mas um Irmão não falece,

tal qual não morre a bondade.

Ele fica na saudade

pois saudade não envelhece.

Fica nas horas de prece,

na Loja, em cada Sessão,

na lenda de Salomão,

no brilho da pentagrama,

renascendo a cada chama

das brasas do coração.