RETRATO DA SEMANA

RETRATO DA SEMANA
Bandeira do Rio Grande hasteada na chaminé de 92 metros do Shopping Total em Porto Alegre. Foto: Divulgação Shopping Total.

quarta-feira, 10 de março de 2021

DOIS DEDOS DE PROSA COM O MESTRE


GLÊNIO FAGUNDES 


A TVE nunca mais foi a mesma. Isto todos nós sabemos. Também sabemos que o declínio vertiginoso deste meio de fazer política, ao invés de fazer cultura, começou lá por 2011 quando mudaram a grade de programação e um dos programas mais autênticos do nosso Estado, o Galpão Nativo, deixou de acontecer. Quem apresentava com maestria tal programa era um dos maiores ícones da nossa cultura, ou seja, Glênio Cabral Portela Fagundes, crioulo do Cacequi, RS, casado com Maria Francisca Fagundes, pai de seis filhos, que levava sua sabedoria terrunha, a milhares de admiradores. Glênio Fagundes é destes gaúchos de se “lavar com um bochecho d’água” como ele mesmo diz.




Autor de três discos, um CD e do livro Cevando Mate, além de vários trabalhos editados em revistas e periódicos, sempre na área do crioulismo, Glênio, em 1952, foi um dos fundadores do grupo musical Os Teatinos, que permaneceu em atividade durante vinte e cinco anos, como um esteio de pau-ferro que não lasca com dentadas de potranca.

Pois essa pessoa que, por sua competência e retidão, talvez tenha sido o jurado que mais participou de festivais pelo Rio Grande, este mestre da cultura sul-continentina certa feita foi convidado para dois dedos de prosa. Seu pensamento continua atual.  

Blog- Estamos cevando um mate com um especialista no assunto. Com um cevador de mates. Isto é correto?

Glênio – Sim, pois ... não sou verde porque já sou maduro. Quanto ao especialista, todo o mateador terrunho se orgulha de saber cevar um mate.

Blog – Nos conte um pouco sobre sua tragetória dentro do tradicionalismo.

Glênio – Nasci na região da campanha, Mesopotânea Crioula, entre os Rios Ibicuí e Cacequi, local onde está enterrado meu umbigo. Dentro das nossas tradições de campo, se o filho fosse varão, o pai procurava um local onde houvesse tido uma batalha e enterrava ali o cordão umbilical do filho para que esse saísse um guerreiro. Se fosse menina, o cordão era enterrado no piso da cozinha,para que saísse uma dona de casa de mão cheia.

Continuando a prosa, eu e meu mano Paulo Fagundes passamos nossa infância no campo, vivenciando as lides campeiras, cursando as faculdades dos galpões.

Nosso primeiro instrumento foi uma cordeona de voz trocada. Aos quinze anos de idade, mais ou menos, por influência do Tio Jarbas Cabral, criador do conjunto Os Gaudérios, buscamos intimidade com a guitarra crioula.

Lembro que em uma destas viagens do Tio Jarbas a fronteira, na passagem pelo Cacequi, ele nos deixou um violãozinho tenor, quatro cordas, pouco maior que um cavaquinho. Ao regressar ficou muito decepcionado com os sobrinhos, pois a tampa do instrumento havia sido arrancada e nela havia um eixo com duas rodas... Lembro que foi a mais linda “carreta” que cobriu a geografia pampeana de nossa infância.

A nossa convivência musical foi sempre sem fronteiras. A presença da música pampeana era normal em nossa região. Como decorrência natural, procuramos um conhecimento maior não só da cultura de campo do nosso Estado, como dos atuais países do Mercosul.

Praticamos a cultura crioula no Galpão do Palácio Piratini durante dez anos.

Participamos de muitos espetáculos, painéis, conferências, palestras, júris de música nativa, elaboração de regulamentos de festivais, criação do Troféu da Linha Campeira, da Califórnia de Uruguaiana, estudos de guitarra com o professor Isaías Sávio, cursos de teoria e solfejo, curso de harmonia com o maestro Arnaldo Albuquerque...

Me encanta a arte da dança, desenho, escultura e pintura e todas essas manifestações dentro do gauchismo. Enfim, sou um produto do campo.

Blog – És um profundo conhecedor da língua guarani. Onde começou este conhecimento?

Glênio – Gostaria de ser um profundo conhecedor da minha gente guarani e falar fluentemente este idioma que é o “avá ñe-ë” (língua da gente). Na realidade, todos nós do Rio Grande do Sul falamos o avá ñe-ë ao empregarmos a toponímia guarani, quando pouco, ou quase nada sabemos destes topônimos tão nossos.

Sou um curioso, sim, a lamentar a não existência de um curso de introdução a língua da nação guaranítica. Minha curiosidade tem início com um “Lutier” da guitarra, Don Alberto Salmeron, criador da guitarra Salmeron, que falava fluentemente o avá ñe-ë. Bem mais tarde fiz um curso de introdução a língua guarani, que foi promovido pelo IGTF.

Blog – Você não tem coragem de “surrar” uma guitarra, ao contrário, faz carícias e, ao fazê-las, toca na alma de quem escuta. De onde vem esse telurismo?

Glênio – A guitarra tem sido o grande veículo de minha sensibilidade, por onde a natureza e os meus afetos se manifestam serenamente...

Minha mestra é a terra, onde a vida cresce em silêncio...