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Léo Ribeiro

RETRATO DA SEMANA

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domingo, 11 de fevereiro de 2018

TEMPOS BICUDOS



Metendo minha colher aonde não fui chamado penso que a polêmica levantada a partir da publicação da foto da cantora e apresentadora Shana Müller com o vestido da campanha que abraçou em 2017 em defesa da purificação musical ao se tratar da mulher gaúcha revestiu-se de um certo exagero. Mas talvez seja isto que as campanhas de marketing almejam, caso contrário morrem antes mesmo de ter nascido.
Mas vamos aos fatos.
Quanto a frase "Não Sou Égua", me insiro totalmente ao lado da apresentadora do Galpão Crioulo. Talvez nossa índole musical gauchesca seja um tanto machista e comparar uma mulher a um animal, como já observamos seguidamente, é algo grotesco e desabonador.  "...aprendi a domar amanunciando égua/ e para as mulher vale a mesma regra. / Animal te para, sou lá do rincão / mulher pra mim é como redomão maneador nas patas e pelego na cara...". É claro que isto tudo foi uma brincadeira, só que de mau gosto. Ainda bem que o saudoso Leonardo contrapôs com "Morocha Não".  
Em relação a "Não Sou China", temos que entender o contexto histórico e, também, que a própria história evolui. Nos primórdios da formação do Rio Grande a palavra "gaudério" significava errante, sem paradeiro, homem sem lei e, até, ladrão. Nos dias de hoje o significado de gaudério mudou e é tido como o gaúcho que cultiva as tradições, de uma maneira geral, sendo nome e legenda até de Centros de Tradições.  Da mesma forma a palavra "China". Antigamente (mas não muito) china era um tratamento carinhoso a mulher amada. Chinoca, chinita... Conheci uma senhora que seu nome era Chinoquinha. Quantos poetas da pura cepa crioula como Jayme Caetano Braun e Aureliano de Figueiredo Pinto usaram a terminologia "china" em seus versos ao enaltecer a prenda de seus encantos? Contudo, com o passar dos anos, tal terminologia foi associando-se a prostituta, a mulher de zona e, não raro, se escuta músicas dando ênfase a esta identificação: "... não chora minha china véia, não chora / me desculpe se te esfolei com as minhas esporas / não chora minha china véia, não chora / encosta tua cabeça no meu ombro / que este bagual véio te consola..". Neste sentido Shana também tem razão embora muitos (como eu) palmeiam pela velha estrada e preferem a identificação antiga e carinhosa equiparando china a prenda.
Já em se tratando da última frase do vestido promocional "Não quero que o velho goste", a mesma pode ser observada por dois ângulos: O primeiro é o da "mulher objeto", ou seja, comparando seu gosto com churrasco, com chimarrão, com fandango, com trago... Mas acho um certo exagero nisto tudo. Qual o problema de uma pessoa de idade, dentro dos limites normais de educação e respeito, gostar de mulher? Eu sou velho e gosto (ainda bem). Sou apaixonado por minha esposa.
O que me causa uma certa estranheza que tudo isto está vindo a tona num momento em que a mulher está sendo valorizada como nunca no meio da cultura gaúcha a qual, reconheço, já foi um tanto machista. Nos dias de hoje temos dezenas de mulheres no comando de Centros de Tradições e de Regiões Tradicionalistas. No CTG aonde sou associado (Rodeio Serrano, de São Francisco de Paula), a diretoria é totalmente composta por mulheres.
As próprias músicas citadas por mim acima e que, talvez, tenha dado origem ao protesto estampado, tem mais de 20 anos de existência e na época pouco se ouviu algum contraponto a tanta coisa mal escrita e musicada. Nos tempos de agora pouco ou quase nada se ouve de composições denegrindo ou mal comparando a mulher gaúcha. Por isso muito se perguntam nos posts da redes sociais ao tratar de tal polêmica: - Não seria a compra de uma briga depois que passou a batalha? "Oportunismo tardio" não existe, mas poderia ser criado tal antagonismo para o caso em questão.  
De toda forma eu penso que sempre é tempo de enaltecer e defender os ideais de igualdade pois, queiram ou não, em todos os setores, a mulher, o negro, o índio, o colono, os velhos, ainda são muito discriminados. E não podemos esquecer das campanhas dos últimos meses onde reverberam os debates sobre o assédio contra mulheres.  
Enquanto isso, eu vou continuar tratando a china de....china, como o grande mestre Jayme Caetano nos ensinou.
Bendita china gaúcha
que és rainha do pampa
e tens na divina estampa
um que de nobre e altivo.
És perfume, és lenitivo
que nos encanta e suaviza
e num minuto escraviza
o índio mais primitivo.