RETRATO DA SEMANA


Para quem começou este blog há 16 anos atrás com 40, 50, acessos diários, terminar o mês de junho com 99.429 acessos (somente no dia 01 já tivemos 10.040 visitas) só aumenta nossa responsabilidade. Continuamos peleando apenas pelo prazer de ser mais um guardião da cultura regional gaúcha.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

SONHO CRIADOR

Parceirada! Numa segunda-feira enferruscada, num 12 de abril em que no ano de 1867, morre na Estância São Gregório (Livramento) David Canabarro, chefe Farroupilha que firmou com Caxias o Tratado de Paz de Ponche Verde, nada melhor do que uma gravura do Nóe, artista plástico lá de São Lourenço do Sul e uma poesia do saudoso Antonio Augusto Ferreira.

Uma boa semana a todos.


Não, já não são de mim as arrancadas
que a um corpo velho só restou defeitos.
Os horizontes turvos do meu peito
já tiveram a cor das madrugadas.
Também fui moço
e parti a inventar um mundo novo,
o braço verde, o peito pelechado,
os olhos claros refletindo, alçados,
a cor do céu, boiando nas aguadas.

E eu era o capataz do meu destino...
Empurrava a pobreza nos encontros
varando a vida arisca feito um potro
levando sempre um ideal de tiro.
A lua cheia a gauderiar comigo
me alumiava os rumos da cruzada,
com meu sorriso de topar parada
e a voz de calmaria no perigo.

E eu tive a coragem na vigília
e tive por fortuna a juventude
e aqueles sonhos de quem tem saúde
no aconchego tranqüilo da família.
Nem o trabalho, nem a dura lida
me achou amargo, nem me fez cansado
e eu fui um pouco um tigre renegado
para buscar o brabo pão da vida.

As minhas cartas
não vieram marcadas para o jogo
mas eu peguei na brasa e comi fogo
e me lambi de suor para o consolo.
O meu caminho que encontrei tapado
eu fui abrindo a foice e a machado
e se algum dia eu levantei telhado
eu amassei com os pés o meu tijolo.

Os meus cavalos
fui eu próprio quem teve de domá-los
pois não se emprestam nem se dão cavalos
a quem não tem nem onde cair morto.
Mas a cada golpe,
a cada tirão que eu dava e recebia
o velho sonho se fortalecia
de um dia ter tropilha e criar potro.

Ah! Mocidade arisca que dispara!
Eu tinha muita força no tutano
e a coragem de armar meu próprio plano
sem o receio de quebrar a cara,
então derrubei mato, e na coivara
plantei a saracuá, milho de cova,
e a minha lama brotou na roça nova
que o meu próprio machado derrubara.

Ver a planta que nasce é ter um filho...
Eu, que plantara um sonho de fartura,
via nascer tão verde e tão segura
a minha ilusão com que derrubara o milho.
E plantar outra vez a terra amiga...
A mão da enxada é a mesma da guitarra,
o meu braço operário é de formiga
e a alma cantadeira é de cigarra.

E o sonho criador se fez um dia.
A vaca mansa, vinda por leiteira,
amanheceu num canto da mangueira
transparente de luz, lambendo a cria.
O sol é o mesmo, mas é outro o brilho,
a semente madura é fecundada,
e a jovem moça, eterna namorada,
incha a barriga para ter meu filho.

Como uma ave grande, sob as asas
chama e protege uma ninhada inteira
eu apontei para o céu outra cumeeira
e ergui mais um puxado para as casas.
E as nossas quatro mãos foram pequenas
pro cercado, o pomar, o pátio cheio,
e o céu amanhecia nas estrelas
dos olhares da prole que nos veio.

E vieram bonecas e petiços,
as tardes domingueiras se passando,
nestes tempos os verões andam voando
se a gurizada cresce em pleno viço.
Depois, são os colégios, a cidade,
há que tocar-se a vida para frente,
o pago, então, é um sonho decadente
sobrevivendo em brumas, na saudade.

Agora cada qual faz seu caminho.
Batem asas os filhos quando emplumam,
mais dia, menos dias, todos rumam
a construir seu próprio rancho e ninho.
De um sonho criador, quanto carinho,
quanta saudade boa pra viver
na sina de cumprir esse destino
de criar filhos pra depois perder.