RETRATO DA SEMANA


Para quem começou este blog há 16 anos atrás com 40, 50, acessos diários, terminar o mês de junho com 99.429 acessos (somente no dia 01 já tivemos 10.040 visitas) só aumenta nossa responsabilidade. Continuamos peleando apenas pelo prazer de ser mais um guardião da cultura regional gaúcha.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

SEMANA NOVA... CAUSO NOVO!

Se fosse eu o inventor do calendário, por certo pularia de domingo para a terça, direto e sem escala pela segunda-feira. Como não sou esse gênio, vamos começar a semana com um pouco de bom humor, com um causo de galpão. E que o Grande Arquiteto nos acompanhe no resto do dia.

ENGATA AS “TRAÇÃO”


O gaúcho Adão Ondino de Moraes Bueno, crioulo lá de Bagé, Irmão de uma Ordem Maior, é destes tauras de lei que, na minha opinião, nasceram fora do tempo. Por seu estilo e estampa deveria ter brotado lá onde o Rio Grande começa. Nos campos sem alambrados, nos pealos de gado alçado a tiros de boleadeiras. Foi dançarino do Grupo de Arte Nativa Os Muuripás e andejou por este mundo velho de Deus sendo considerado um dos maiores sapateadores de chula e malambo do Rio Grande além de grande declamador e exímio executor de bombo legüero.

O Bueno, após abandonar as gauderiadas ao casar-se com a cambaraense Liane Borges, reapareceu lá por São Chico de Paula, numa kombi já querendo bater os canecos, como representante na região de uma indústria de máquinas agropecuárias. Entre uma churrasqueada e outra vendia seus produtos. Seu “ajudante” lá por Cambará do Sul era o saudoso Severiano Lima, o gaúcho mais autêntico que já conheci. Com ele não tinha gre-gre para dizer Gregório. Era o serrano típico que hoje não se vê mais... Para muitos era considerado um índio grosso mas, para mim, o Severiano Lima era a pureza em pessoa. Legítimo comunista ao prosear com alguém, pois tratava a todos, brancos, negros, velhos, crianças, de “Meu Querido”. Nunca ouvi o Severiano, velho monarca, chamar alguém pelo nome.

Era proprietário de uma Rural Willys tracionada que subia até em pinheiro e mesmo após muitos anos de uso o velho Severiano não sabia ou não acostumou-se a dar sinal de esquerda ou direita. Botava o braço para fora e apontava para onde ia dobrar.

Por ser conhecedor de todos os moradores daquela terra bonita onde o frio fez morada, ajudava o Bueno nas vendas.

Certa feita trataram uma visita num lindeiro de campo do Severiano. Antes de dar ôh de casa no vizinho agendado, comeram uma feijoada engrossada a caracu, pois o Severiano não tinha pressa para nada e vivente que chegasse no seu rancho não saía assim no mais. Depois de uma ambrosia para adoçar as tripas embarcaram na Kombi do Bueno para a empleitada da venda.

- Vamo por dentro do campo, meu querido, que nóis ataiemo um eito – bradou o Severiano.

O Bueno profetizou: - Mas de Kombi será...

- Vamo que tô acostumado. Conheço cada palmo do terreno – afirmou o velho gaúcho.

Ao chegarem numa baixada da coxilha deram de frente com um manancial. Uns dez metros de banhado correndo ao comprido do campo. O Adão Bueno parou a Kombi e falou, meio sestroso.

- Acho que não passa...

Severiano Lima, vaqueano de campo e mato insistia:

- Passa, meu querido! Meta que eu garanto!

O Bueno, respeitando a idade do amigo e para não contrariar o parceiro de lida lascou uma primeira, pisou fundo e... parou no meio do banhadal com a água batendo nas paletas da Kombi que patinava de sair fumaça.

Foi aí que o Severiano gritou:

- ENGATA AS TRAÇÃO!!!

- Não tem tração!!! – respondeu o Bueno, embaixo do mau tempo.

- ENTÃO NÃO PASSA MESMO... MEU QUERIDO!!!!

Causo recolhido e escrito por Léo Ribeiro