RETRATO DA SEMANA


Obra de Tadeu Martins

domingo, 11 de janeiro de 2026

 

NOSSA MÚSICA GALPONEIRA RESPIRA

(POR APARELHOS)


Gravura: Léo Ribeiro 

Além do nativismo, que não apresenta grandes novidades apesar das dezenas de festivais, a música galponeira respira por aparelhos.

Nos tempos atuais pouco importa se tua letra tem mensagem, se a música é bem executada, se o intérprete tem potencial. Basta bater forte o pé no chão, mostrar uma autenticidade duvidosa e achar alguém que leve tuas “criações” para as redes sociais que tu vira artista.

Nossa música galponeira de fundamento está desaparecendo e poucos se importam com isso. O que vemos hoje são grupos fandangueiros reproduzindo nos bailes que foi feito a décadas atrás.

Justamente por essas e outras, meio as pressas devido a exiguidade do tempo, no apagar das luzes de 2025, resolvi aceitar o convite do produtor cultural Jeandro Garcia e dar uma mão no festival Aldeia da Canção Gaúcha promovido pelo CTG Aldeia dos Anjos, de Gravataí, que tinha esse propósito, ou seja, o resgate e a valorização da música que fugisse da morosidade das milongas.  

O chamado foi um sucesso, haja visto que a composição vencedora, um chamamé, recebeu, através do avaliador Paulo Mendonça, grandes elogios de nada mais nada menos do que Antonio Tarragó Ros, uma legenda argentina.

Mas isto é uma gota de água num oceano que, antigante, já inundou nossos Centros de Tradições.      .    


sábado, 10 de janeiro de 2026

 

A SOLIDÃO NÃO É MEME

O “caso Brad Pitt” como espelho da nossa crueldade


Esse acontecimento do ator Brad Pitt no RS já encheu, saturou. Contudo, ontem li um texto da psicóloga Carliza Welker que expressa exatamente o que penso a respeito e resolvi reproduzi-lo. 


A mulher acreditou. O Brasil riu.

E isso diz mais sobre nós do que sobre ela.

Na véspera de Natal, enquanto a maioria de nós brindava em família, uma mulher estava no aeroporto de Erechim. Ela não esperava um parente. Não esperava um voo de férias.

Ela esperava um sonho — com nome de galã de Hollywood e promessas de uma vida nova.

O final dessa história todos já conhecem: o encontro nunca aconteceu, o herói era um golpista e a esperança revelou-se um estelionato emocional.

O Brasil riu. O caso viralizou. Marcas aproveitaram o “engajamento” para fazer piadas e vender produtos. O “falso Brad Pitt” virou o meme da semana.

Mas, enquanto o país dava risada, uma família desmoronava no interior do Rio Grande do Sul.

Como psicóloga, sinto o dever de interromper a piada para fazer uma pergunta simples — e profundamente incômoda: - quando foi que perdemos a capacidade de enxergar o humano por trás do clique? 

É muito fácil apontar o dedo e chamar de “ingênua” ou “louca” uma mulher de cinquenta e poucos anos que acredita em um romance impossível. O que poucos param para analisar é a engenharia perversa por trás de golpes como esse.

Golpistas não procuram pessoas “burras”. Eles procuram pessoas vulneráveis. Eles preenchem lacunas. Oferecem a escuta que ninguém oferece. O elogio que o tempo apagou. O olhar que a sociedade deixou de sustentar.

O que ela esperava naquele aeroporto não era uma celebridade. Era a materialização de uma importância que lhe foi roubada em um mundo que insiste em tornar mulheres de meia-idade invisíveis. 

O que aconteceu depois do aeroporto talvez seja ainda mais violento do que o golpe em si.

Vivemos a era do “marketing de oportunidade”, em que empresas não hesitam em transformar o sofrimento alheio em estratégia de venda. Um marketing cruel, que se alimenta do linchamento público e se esconde atrás do riso fácil.

Por trás do meme que você compartilhou existe um adolescente de 12 anos assistindo à mãe virar chacota nacional. Existe um lar onde o Natal foi substituído pelo luto da dignidade.

E a internet, tratada por muitos como “terra de ninguém”, agiu como um tribunal medieval em praça pública. A viralização veio como um tsunami.

Do que você está rindo?

O riso, neste caso, não é humor. É defesa. Rimos para nos sentirmos superiores. Rimos para acreditar que “comigo isso nunca aconteceria”. Rimos para não tocar nas nossas próprias fragilidades.

Mas todos nós as temos.

A diferença é que a dela foi exposta para milhões.

O que nos leva a transformar a dor de uma mulher em entretenimento? O que nos torna tão ávidos por curtidas a ponto de ignorar que estamos pisando sobre os destroços emocionais de alguém?

Este caso não é sobre uma mulher que caiu em um golpe. É sobre uma sociedade que caiu na desumanização. É sobre o quanto nossa empatia é seletiva. E o quanto nossa sede por diversão pode ser tóxica.

A fragilidade alheia não é conteúdo. A solidão não é piada. A confusão emocional de uma pessoa ferida não é entretenimento.

Antes de digitar o próximo comentário ou compartilhar a próxima chacota, olhe-se no espelho. Se a dor do outro te provoca riso, talvez quem precise de ajuda não seja apenas a vítima do golpe.

Porque, no fim das contas, a internet passa. O meme envelhece. O engajamento some. Mas o trauma que causamos no outro permanece — silencioso, profundo e real.

E isso também é responsabilidade coletiva.



sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

 

ENTENDA O JOGO DO OSSO


Jogando Osso - Vasco Machado 
 

Aqui pela praia, vendo os argentinos disputar aquele jogo semelhante a nossa conhecida bocha mas utilizando discos no lugar das bolas, me lembrei do nosso antigo Jogo do Osso, diversão nos domingos pelos bolichos de antigamente e agora esquecido até pelos organizadores de festas campeiras. 
Suorte ganha, Culo perde! Regulamento e história de um dos Jogos mais antigos da humanidade. Antecedência: A peça Tava é um osso retirado do calcanhar do boi o nome desse osso é astrágalo.
Rodopiando a três metros do chão, ao ser lançada em direção à raia, a TAVA ou JOGO do OSSO desenha uma trajetória pelo tempo e pelo espaço – existem vestígios pelo menos há três séculos a.C., na Ásia, Árabes e persas já o praticavam.
A própria palavra "taba", ou "Tava", teria sua raiz etimológica no vocábulo hebreu "ka-ba". "Lab-el-kab" era denominado o jogo dos árabes. Chegou o jogo à bacia do Prata pelas mãos espanholas pelos idos de 1620, pelos colonizadores da Bacia do Prata por este motivo no Rio Grande do Sul, os termos sofreram grande influencia da língua castelhana em sua terminologia tais como: "userte", "culo", "clavada" e "gueso".
Ademais, a história gaúcha do Jogo do Osso, confunde-se no início, com a história platina e a conquista dos Sete Povos, em 1801. A Região do Prata (Brasil, Uruguai e Argentina) uma espécie de terra de ninguém em permanente disputa de posse entre Espanha e Portugal. Milicianos e aventureiros, mestiços e gaudérios, não conheciam outras fronteiras senão aquelas onde abundavam o boi e o cavalo os costumes eram comuns entre todos e a cor da bandeira trocava conforme os interesses e ambição pessoal - o churrasco, o chimarrão, a doma dos potros, o estilo de montar, o abater e carnear o boi era comum a toda a região pampeana e natural, portanto, que nessa identidade ampla de usos e costumes, os jogos de recreio como a cancha-reta e a Tava fossem comuns a todos nesta nação platina.
Assim o Jogo do Osso, Tava se enraizou na cultura e nos costumes do gaúcho.
     A TAVA
Instrumento com que se pratica o jogo do osso -, também chamada "taba", "osso" ou "garrão", provém do astrálago, osso do jarrete do animal vacum. A norma, para conseguimento de uma boa TAVA é, logo após sua extração do jarrete do animal abatido, enterrá-la por cerca de dois a três meses em terreno nem muito seco, nem muito úmido - processo a que se chama "curar o osso". É comum, igualmente, colocar o astrálago na boca de um formigueiro de campo, provando um processo de inteira limpeza por parte das formigas.
     Posições da TAVA no solo
Após o arremesso a TAVA pode estabilizar-se em pelo menos OITO posições, cada uma delas com seu nome:
SUERTE ou SORTE - parte ganhadora para cima, é quando a parte que possui o enfeite, corte, algumas são torneadas em ouro ou bronze, nas mais simples geralmente a cabeça dos grampos ou rebite são destacados, mas todas tem uma característica a Suerte possui a ponta menor e em formato de “S”. Quando ela cai chapada ao solo chamam também de “Sorte Corrida”.
CULO - parte ganhadora para baixo, é a parte da base da Tava, o lado mais reto e possui uma pequena lamina em uma das pontas que se ressalta na peça que ferra o osso. Algumas Tavas no lado do “Culo” são feitas de ferro escuro e adquirem a cor preta no lado escuro da sorte. Quando ela cai chapada ao solo chamam de “Culo Corrido”, também.
CLAVADA - quando a saliência, uma das pontas ficam cravadas(clavar), enterra-se no chão, qualquer das pontas enterradas deixam a Tava na diagonal. Uma das pontas enterrada deixa a Tava inclinada cravada ao solo.
"SUERTE CLAVADA" quando a parte da Suerte, fica para cima com ela cravada. É a o tiro-rei das canchas do jogo do osso. Tanto faz o ângulo do declive, 90º ou 270º, direita ou esquerda.
CULO CLAVADO - quando a parte do Culo, fica para cima com a Tava cravada. Tanto faz o ângulo do declive, 90º ou 270º, direita ou esquerda.
GUESO ou OSSO - posição que não é nem "suerte" nem "culo", com qualquer dos lados não ferrados para cima.
"31" - "TOURO" ou “OSSO” - variação do gueso com a Tava exatamente na vertical.
Parada – é cada disputa, cada aposta.
     Espécies de arremessos
Os arremessos exigem manejo especial da Tava, com posições de saída e métodos de lançamentos quase inflexíveis. Todo bom jogador precisa conhecer os vários métodos, que podem ser volta-e-meia (Tava dá uma volta e meia no ar), duas-e-meia, duas voltas, três voltas e o carreteiro (lançamento da Tava sem manejo especial, nem preocupação com número de voltas ou giros - dá se esta denominação por lembrar a sua anti-técnica o ato de lançarem os carreteiros um osso de fervido, ou costela já pelada da carne, ao guaipeca que normalmente acompanham-os nas carretadas pelo pago).
     Coimeiro
Pessoa encarregada pelo movimento. É quem vende e troca às fichas, o que cobra a "coima", percentagem fixa sobre as paradas pagas. É a versão acrioulada do "croupier" internacional dos cassinos.
     Dinâmica do jogo
Não há regras escritas sobre o jogo do osso, mas existem normas gerais a serem respeitadas através da tradição oral.
O que é: jogo entre equipes em que o objetivo é marcar a maior pontuação ao arremessar a tava, que é o osso do garrão do boi com chapas de bronze e ferro.
Equipes: 3 ou 4 pessoas (em caso de 4, a menor pontuação é descartada). É possível jogar sozinho e concorrer apenas na pontuação individual.
Onde jogar:
Cancha com o mínimo de 7m e máximo de 9m (entre os picadores). Nela, é marcado o “picador”, um espaço com terra molhada ou argila de no mínimo 2m e máximo 3m de comprimento por 2m de largura em cada raia. Dentro dele deve ser delimitada a bacia (50cm x 50cm).
O jogo começa quando o coimeiro "grita banca", já com a cancha preparada, o par de Tavas e as fichas à sua frente. Geralmente é quem estipula o valor das primeiras paradas: "Duzentos mil réis é a banca! Quem se habilita?”.
Apresenta-se um jogador que compra as fichas, escolhe a Tava de sua preferência e encaminha-se para uma cabeceira. Apresentando-se o oponente que compra fichas e depositam na mão do coimeiro o valor da parada que anuncia "Está copada a parada! Vale jogo!”.
Atira o que levantou a primeira Tava. Imediatamente, da outra cabeceira, o oponente. Teve início o jogo.
O coimeiro só paga a parada para o jogador que somar dois lances positivos:
duas "suertes" do mesmo jogador, contra nenhuma do oponente
uma "suerte" somada a um "culo" do oponente
dois "culos" do oponente contra dois "güesos" do favorecido.
Acontecendo "suerte" contra "suerte", "culo" contra "culo", ocorre empate que é chamado de "senão". Não é raro a parada decidir-se depois de vários tiros, pela ocorrência de "senões" seguidos.
Os atiradores só ganham a parada quando favorecidos por dois lances, mas no "jogo de fora", a questão se decide a cada lance. Joga-se de fora (do jogo, da cancha) a favor ou contra o tiro de quem arremessa.
Ao pagar a parada ao atirador vencedor, o coimeiro já desconta a coima (comissão).
Quando um dos atiradores desiste do jogo, deixando a Tava na cabeceira, qualquer assistente pode "copar a parada", "apertando a Tava", qe é o atao de colocar o pé em cima, ao mesmo que anuncia: "Copei a parada!".
Quando um dos jogadores, durante o jogo, resolve trocar de Tava, o coimeiro anuncia "Cambiou de Tava".
Desviada a Tava de seu curso por qualquer acidente natural, seja uma pedra próxima, uma raiz, galho seco, o tiro não perde validade. São casos que acontecem com alguma frequência nos tiros de "carreteiro", quando a Tava rola sem direção determinada.
Fato interessante, quando a gauchada se reunia para lançar a Tava, uns limpavam a cancha e outros caso não tivesse água, cavavam um buraco e migavam para fazer o barro que acolhe o tiro da Tava. Isso de nada incomodava os participantes.
Sempre se formava um bolicho em algum canto aparecia uma barraca, a bebida para gelar, o gelo guardado em buracos forrados com serragem ou em riachos para gelar. Uns traziam em uma tábua com um couro sobre os ombros como uma bandeja pastel de carreira, massa com carne e ovo frita em banha.
     Trampas
Significa má fé, engodo, artifícios para favorecer uma das partes ou, o mais usual, o próprio coimeiro. Entre as antigas formas citam-se:
CARGAR A TAVA - colocar uma esfera de chumbo ou de ferro no interior do osso que tendia a estabilizar-se no terreno em posição, quase sempre, de "suerte" ou somente de "culo".
BARRO - Colocar sob o "barro", a cerca de meio palmo de profundidade, um pelego com lã para cima, com o que, segundo os aficionados, era quase impossível conseguir-se uma "suerte" clavada. O pelego enterrado conferia ao "barro" certa elasticidade, fazendo a TAVA saltar bem mais que o normal.
     Expressões
Alarula, tia Carula, china e ficha não se adula!
Dito por quem recolhe as fichas, por haver apostado no tiro que deu "suerte". Há conotação machista no refrão
Cospe no buraco
Crença de que cuspindo-se na TAVA do contrário o azar o perseguirá.
É macho, alumiou pra baixo!
Expressão usada por quem jogou contra o tiro e a TAVA se estabiliza na posição perdedora de "culo". O "alumiou para baixo" quer significar que a face mais brilhante da TAVA (a da "sorte", recoberta de bronze) ficou chapada contra o terreno.
Jogador não tem vergonha"
Expressão usada no momento em que os ganhadores levantam do chão as fichas ou o dinheiro apostado na parada - jogador não tem vergonha por entregar-se ao vício do jogo.
Louca também se casa!
Saudação a um lançamento mal feito, especialmente o "carreteiro", que resulte numa "suerte".
Mão fria não bota suerte!
É preciso aquentar o corpo e as mãos para lançar-se a TAVA com habilidade.
Não é só butiá que dá em cacho!
Quando um atirador repete várias "suertes" 

Jogo do Osso - Bendito aquele que estuda porque estudar é importante, embora o ignorante tem sempre um santo que ajuda, por isso não encabulo - que a TAVA que bota CULO é a mesma que bota sorte! Jayme Caetano Braun.

Fonte: Site Portal das Missões

Gravura de Tadeu Martins 


quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

 






Antonio Mamerto Gil Núñez, Gauchito Gil, teria nascido em Pagamento Ubre, hoje Mercedes, Corrientes, possivelmente em 1840, e morreu em 8 de Janeiro de 1878. Ele é considerado o santo gaúcho mais proeminente Argentina.

Relatos populares variam, mas em termos gerais, a lenda diz que Antonio Gil era um camponês e que uma viúva rica se apaixonou, ou teve um caso com ele. Quando o chefe da polícia (que também era apaixonado pela viúva) descobrio sobre seu relacionamento, acusou-o de roubo e tentou matá-lo. 

Alistou-se no exército para fugir dele e, após lutar contra o exército paraguaio, voltou para sua aldeia como um herói.

Contudo, voltou para o exército para lutar na Guerra Civil argentina.  Foi uma guerra de irmão contra irmão e Gauchito Gil estava cansado de lutar.  Por isso, ele decidiu pela deserção. Durante esse tempo, ele se tornou um bandido e adquiriu uma reputação como um Robin Hood por seus esforços para proteger e ajudar os necessitados.

No final, a polícia pegou-o na floresta.  Eles o torturaram e penduraram seus pés em uma árvore.  Quando um policial estava indo para matá-lo, "Gauchito" Gil disse a ele: "Seu filho está muito doente. Se você orar e implorar-me para salvar o seu filho, eu prometo a você que ele vai viver. Se não, ele vai morrer..."  Em seguida, o policial matou Gauchito Gil cortando sua garganta.  Isso aconteceu no dia 08 de janeiro de 1878.

Quando os policiais voltaram para a sua aldeia, aquele que havia matado Gauchito Gil ficou sabendo que seu filho estava de fato muito doente.  Muito assustado, o policial rezou a Gauchito Gil para seu filho que acabou ficando bom. Diz a lenda que Gauchito Gil havia curado o filho de seu assassino. 
Muito agradecido, o policial deu ao corpo de Gil um enterro apropriado, e construiu um santuário para Gauchito.  Além disso, ele espalhou a todos sobre o milagre.

Gauchito Gil é considerado um santo popular para muitas pessoas das províncias de Formosa, Corrientes, Chaco , no norte de Santa Fé e até a província de Buenos Aires.  Pode-se detectar santuários menores de Gauchito Gil em estradas da Argentina. 

Grandes peregrinações são organizadas para o santuário (localizado a cerca de 8 km da cidade de Mercedes ) para pedir favores ao santo.

Além disso, cada 08 de janeiro (data da morte de Gil), há uma celebração em homenagem a Gauchito Gil.  O povo dança, canta e bebe e também pratica esporte folclóricos com cavalos, touros e outros animais.

Embora a igreja católica não reconheça Gauchito Gil como santo, muitos argentinos assim o consideram.


Túmulo de Gauchito Gil, perto de Mercedes, Argentina.



 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

 


REPONTANDO DATAS / 07 JANEIRO


NASCE O POETA CYRO GAVIÃO

 
Num dia 07 de janeiro, do ano de 1913, nascia em Itaqui Cyro Gavião, autor do livro Querência Xucra e de dezenas de poemas espalhados por este Rio Grande velho. 

Foi membro da Estância da Poesia Crioula e faleceu em Porto Alegre, onde morava, no ano de 1976. 

Abaixo uma de seus belos poemas intitulado:
 
PETIÇO      
Cyro Gavião
 
Esse petiço troncho que, ao passito,
Vem chegando co'a pipa, lá da fonte,
Foi quebra noutros tempos... foi bonito,
Foi mestre, num rodeio e num reponte.

Mas, hoje, nem o relho, nem o grito
Da gurizada já lhe altera a fronte
Indiferente a tudo, ao infinito,
A mais um dia que se lhe desconte.

Até dá pena ver esse sotreta,
Trocando perna, ao lado da carreta
Num caminhar tristonho, passo a passo...

Petiço velho,... jóia do meu pago!
Saudade amarga que, comigo, trago,
Espera,...qu'eu também sinto cansaço.






terça-feira, 6 de janeiro de 2026

 


HOJE, 6 DE JANEIRO, É DIA DE REIS.



Terno de Reis em Santo Antônio da Patrulha


Folia de Reis é um festejo de origem portuguesa ligado às comemorações do culto católico do Natal, trazido para o Brasil ainda nos primórdios da formação da identidade cultural brasileira, e que ainda hoje mantém-se vivo nas manifestações folclóricas de muitas regiões do país.

Na tradição católica, a passagem bíblica em que Jesus foi visitado por reis magos, converteu-se na tradicional visitação feita pelos três "Reis Magos", denominados Melchior, Baltasar e Gaspar, os quais passaram a ser referenciados como santos a partir do século VIII.

Fixado o nascimento de Jesus Cristo a 25 de dezembro, adotou-se a data da visitação dos Reis Magos como sendo o dia 6 de janeiro que, em alguns países de origem latina, especialmente aqueles cuja cultura tem origem espanhola, passou a ser a mais importante data comemorativa católica, mais importante, inclusive, que o próprio Natal

Mas como se compõe e qual a função do Terno de Reis?

Segundo o folclorista Paixão Côrtes, é variável o número de participantes de um "terno" pois nem sempre os cantadores são também instrumentistas, e isto obriga a uma maior divisão de funções. No geral, não vai além de oito pessoas: o mestre ou guia e o ajudante de mestre; contra-mestre e ajudante de contra-mestre; o tipe; o tambor; o triângulo e a rabeca. O mestre, que é o diretor, deve não só ser um bom repentista como também um bom conhecedor da história do nascimento de Jesus, principalmente no que se refere à visita dos Reis Magos. É o mestre (em primeira voz) que inicia o canto acompanhado de seu ajudante (em segunda voz); o verso é então repetido pelo contra-mestre e seu ajudante, também em primeira e segunda voz, respectivamente. O tiple ou tipe ou ainda tipi, é ordinariamente uma criança que se encarrega de cantar as firmatas características do segundo e do quarto verso de cada estrofe ou somente deste último. Podem existir um ou dois tipes em cada terno. Sobre esta figura assim se expressou o folclorista Mário de Andrade: "A mim me parece que o quipe que 'faz o contracanto' é o mesmíssimo 'tiple', também 'tipe' pela nossa gente folclórica, palavra de terminologia musical espanhola que nomeia o soprano (se trata dum menino) muito generalizada nas cantorias brasileiras para indicar uma voz subalterna.


Letra e música

As estrofes de nossos ternos de Reis, são quadrinhas na maioria das vezes de feitura popular, heptasílabas que narram episódios referentes ao nascimento de Cristo. Podemos classificá-las como religiosas e profanas. As primeiras são aquelas que no seu conteúdo mantêm bem vivo o motivo cristão das comemorações da Bíblia. As profanas são as que fogem ao tema do ciclo natalino religioso. Mas antes desta narração encontram-se os versos de chegada ou de saudação, à porta da casa. Os versos compreendem vários ciclos: anterior ou véspera de 25, dia de Natal, de 25 à 1º do ano e de 1º de janeiro ao dia de Reis. As estações são cantadas de acordo com o decorrer dos dias, e obedecem as seguintes principais frases: Chegada, Entrada, Louvação, Peditório, Agradecimento e Despedida.

Cada terno tem mais ou menos decorado um número grande de versos, podendo no entanto "o mestre" acrescentar improvisos que a situação exigir.

São numerosas as melodias existentes. Variam de região para região. Talvez os tipos de instrumentos musicais acompanhantes tenham contribuído para o surgimento dessas variedades. Em nossas pesquisas registramos inúmeras "toadas". As melodias geralmente apresentam duas partes distintas: uma bastante lenta, corresponde aos versos cantados; a outra somente tocada, no geral caracteriza-se por uma aceleração do ritmo.

A seguir damos um exemplo da maneira de como é "tirado" um verso pelos cantores:

Cantam: mestre e seu ajudante

Os três Reis por serem Santos
Os três Reis por serem Santos
Se puseram a caminhar

Repetem: contra-mestre e seu ajudante

Os três Reis por serem Santos
Os três Reis por serem Santos
Se puseram a caminhar

Cantam: mestre e seu ajudante

Procurando Jesus Cristo
Procurando Jesus Cristo
Em Belém foram encontrar

Repetem: contra-mestre e seu ajudante

Procurando Jesus Cristo
Procurando Jesus Cristo
Em Belém foram encontrar

Em outros ternos, porém, cantam os "reses" quadrinha por quadrinha; assim como as melodias, as maneiras de cantar são também distintas.

Geralmente eles terminam o verso bem "choroso", acrescentando "oi"...

Instrumentos

Os instrumentos musicais que podem considerar como tradicionais são: viola, rabeca, gaita, violão, tambor ou caixa de triângulo.

Comum outrora era a parceira da viola com a rabeca acrescida quase sempre de tambor ou triângulo. Na falta deste último um estribo de meia picaria é também usado.

Atualmente a gaita tomou conta da parte musical, fazendo-se acompanhar do violão e não raro de pandeiro, chocalho e cavaquinho.

Visita

Em traços gerais a visita dá-se da seguinte maneira: no terreiro da casa, o "terno" tendo a frente o "mestre" e o "ajudante", faz em verso de "saudação" ao dono da residência, solicitando permissão para cantarem e ao mesmo tempo justificando-se da sua chegada:

Chegada

Agora mesmo chegamos
Na beira do seu terreiro
Para tocar e cantar
Licença peço primeiro

Entrada

Se o proprietário concorda — geralmente muito satisfeito e feliz — abre a porta, convidando o mestre e seus cantadores para passarem. Existe mesmo uma certa tradição que consiste em o proprietário aguardar alguns versos para no caso positivo de receber o terno, acender as luzes da casa.

Porta aberta, luz acesa
Sinal de muita alegria
Entra eu, entra meu terno
Entra toda a companhia



No flagrante acima, Paixão Côrtes e Os Três Xirus (Leonardo tocando tambor a esquerda, Elmo Neher ao violão e Bruno Neher com o acordeom) numa cantiga de reses.






segunda-feira, 5 de janeiro de 2026



 CAUSOS DE GALPÃO

PARA COMEÇAR 2026 COM BOM HUMOR 


- ONDE ESTÁ O LEONEL? - 


Leonel de Moura Brizola 

Essa é de almanaque!

O causo a seguir, verídico como dois e dois são quatro, aconteceu recentemente, mais precisamente no dia 18 de dezembro, na Câmara de Vereadores de Viamão.

Na oportunidade a Sessão tinha como objetivo homenagear a E.T.A., tradicional Escola Técnica de Agricultura que já foi considerada a melhor do Brasil. Muitos rodeios e bailes graúdos já fui na referida escola. O proponente de tal homenagem foi o vereador Marco Borrega.

O nome oficial da E.T.A. é Leonel de Moura Brizola, em reverência ao tradicional e conhecidíssimo político gaúcho que foi governador do Rio Grande do Sul e também do Rio de Janeiro e que foi aluno de tal instituição. 

Comandava a Sessão o Presidente da Casa Legislativa da Primeira Capital, vereador Luizinho do Espigão que, mostrando total desconhecimento da nossa história anunciou a presença de Leonel de Moura Brizola no plenário solicitando ao colega vereador Jonas Rodrigues que o acompanhasse até a mesa de trabalho para receber as devidas homenagens.

Como Leonel não dava as caras Luizinho do Espigão reforçava sua solicitação ao microfone: - Senhor Leonel de Moura Brizola se encontra na casa?

O constrangimento pairou sobre o ambiente.  

Com certeza meu saudoso amigo Porca Véia que também estudou na E.T.A. dava verdadeiras gaitadas (risadas) do lugar aonde hoje se encontra. 

domingo, 4 de janeiro de 2026

 

REPONTANDO DATAS 




Honeyde Bertussi nasceu em 20 de Fevereiro de 1923 na localidade de São Jorge da Mulada, distrito de Criúva, município, na época, de São Francisco de Paula e faleceu em 4 de Janeiro de 1996 no hospital Pompeia em Caxias do Sul. 

Aos quatro anos ganhou de presente de seu pai, Fioravante Bertussi, uma gaita de quatro baixos. Com o tempo, aprendeu a tocar violão e gaita de boca. Após a realização de seus estudos na cidade de Vacaria, onde concluiu o 2º Grau, Honeyde retornou para o campo.

Em 1942 adquiriu o seu primeiro acordeon uma Todeschini de oitenta baixos e, pouco tempo depois, em 8 de maio de 1942, em virtude de uma cheia do rio da Mulada, a orquestra que tocaria uma festa de casamento não consegue chegar a tempo e Honeyde foi chamado para tocar seu primeiro baile. 

Em 1943 compôs a canção Cancioneiro das Coxilhas, sua música predileta. Na década de 50, junto com seu irmão Adelar, 10 nos mais novo, formou a primeira dupla de gaiteiros do Rio Grande do Sul dando início a uma saga galponeira que floresceu e dá frutos até hoje.

Em 1955 lançaram o primeiro LP "Coração Gaúcho" consagrando Os Irmãos Bertussi como os primeiros a gravar o compasso "bugio". Daí para frente, foi um sucesso atrás do outro sendo aclamados como a melhor dupla de acordeonistas de todos os tempos.

Na Rádio Caxias, todas as quintas-feiras, Honeyde apresentava o Cancionero das Coxilhas, um dos pioneiros programas radiofônicos ao vivo. Cantava e tocava músicas regionais, sempre resgatando e promovendo os ricos costumes campeiros do nosso Estado.  

Incentivando o culto tradicionalista gaúcho, Honeyde Bertussi brilhantemente conduziu a história musical rio-grandense, conservando junto aos Centros de Tradições Gaúchas o gosto pela música e pelo regionalismo.

Honeyde Bertussi foi um dos artistas mais completos do Rio Grande do Sul pois tocava bem seu acordeom, era excelente letrista e cantava com uma voz de trovão inigualável. Grandes conjuntos de hoje são seguidores de Os Irmãos Bertussi aonde destacamos Grupo Cordeona, herdeiros musicais do Porca Véia, um dos maiores divulgadores da musicalidade Bertussi.






sábado, 3 de janeiro de 2026

 


APENAS MAIS UM QUE SE VAI


Pomba pousou onde ficava busto do fundador do Correio do Povo

Foto : Pedro Piegas

 

Por: Marcel Horowitz

 

Ninguém foi preso por furtar o busto em homenagem a Francisco Antônio Vieira Caldas Júnior, jornalista e fundador do Correio do Povo, no Centro Histórico de Porto Alegre. A escultura foi instalada na Praça XV em 13 de dezembro de 1913, mas acabou sendo transferida, em 1932, para a Praça da Alfândega, onde continuava desde então. Não há indícios de seu paradeiro após o crime, em outubro.

Ao ser inaugurada, cerca de oito meses após a morte do homenageado, a peça tornou-se a primeira do tipo em praças públicas na Capital. Vinha sendo alvo de bandidos há mais de uma década, quando houve furto de relevos no pedestal e de uma reprodução da capa da primeira edição do Correio do Povo, que estava ali desde 1º de outubro de 1975. Nada foi recuperado.

Conforme o professor de escultura, pesquisador e historiador de arte, José Francisco Alves, a obra era feita de bronze, denominador comum em furtos de patrimônio histórico. “A venda clandestina desse material atrai criminosos. O bronze é utilizado na produção de anéis, torneiras e canos, entre uma infinidade de outras coisas. Neste contexto, infelizmente já devem ter derretido o busto do Caldas Júnior”, lamentou.

José Francisco Alves não crê na possibilidade de recuperação da peça, nem que esteja em coleções ou antiquários. “Diferente do que acontece em países na Europa, não há crime especializado em arte no Rio Grande do Sul. Aqui, a venda é feita por qualquer valor, o que é muito triste, tendo em vista que estamos falando de patrimônio histórico, insubstituível e de avaliação inestimável”, disse.

De acordo com o comandante do Comando de Policiamento da Capital (CPC), coronel Fábio Schmitt, os envolvidos no furto a monumentos são, em geral, dependentes químicos. “Na maioria das vezes, cometem delitos para sustentar o vício. Ampliamos nossas ações de policiamento, mas crimes assim têm punibilidade baixa na lei, gerando problemas sérios de reincidência”, avaliou o oficial.

A Brigada Militar, por meio do 9º BPM, garantiu reforço de efetivo na Praça da Alfândega. Em nota, a corporação destacou que faz patrulhamento ostensivo e abordagens preventivas, de maneira incessante no local. Também via comunicado, a Secretaria Municipal de Segurança (SMSeg) apontou que dois homens furtaram o busto de Francisco Caldas Júnior, em ato registrado por câmeras de monitoramento. Nenhum deles foi identificado. 

Nota do blog: Ninguém foi preso e ninguém vai ser. Deteriorar patrimônio histórico sem nenhuma consequência punitiva é algo comum, banal, corriqueiro em nossa capital. Há quantos anos roubaram as pesadas placas laterais do Monumento a Bento Gonçalves a plena luz do dia na movimentada João Pessoa e nada aconteceu?

Então nós perguntamos: - Para que servem centenas de câmaras de segurança espalhadas pela cidade?  




sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

 

REPONTANDO DATAS / 02 DE JANEIRO

 

Num dia 02 de janeiro de 1989 morria 
o Tronco Missioneiro CENAIR MAICÁ





 


COMEÇOU O VERÃO GAÚCHO



Não sei se vocês, de outros Estados, sabem, mas temos o mais fantástico litoral do País: de Torres ao Chuí uma linha reta, sem enseadas, baías, morros, reentrâncias ou recortes. Nada! Apenas uma linha reta, areia de um lado, o mar do outro.

Torres, aliás, é um equívoco geográfico, contrário às nossas raízes farroupilhas.

Nosso veraneio consiste em pisar na areia, entrar no mar, sair do mar e pisar na areia. Nada de vistas deslumbrantes, vegetações verdejantes, montanhas e falésias, prainhas paradisíacas e outras frescuras cultivadas em outros Estados.

O mar gaúcho não é verde, não é azul, não é turquesa. É marrom! Cor de barro iodado, é excelente para a saúde e para a pele (embora neste começo de 2026 esteja parecendo aquelas praias de Santa Catarina, algo contrário ao que estamos aclimatados)! 

E nossas ondas são constantes, nem pequenas nem gigantes, não servem para pegar jacaré ou furar onda. O solo do nosso mar é escorregadio, irregular, rico em buracos. Quem entra nele tem que se garantir.


Não vou falar em inconvenientes como as estradas engarrafadas, balneários hiper-lotados, supermercados abarrotados, falta de produtos, buzinaços de manhã de tarde e de noite, falta de água e luz, areia fervendo, churras e cachorros na areia, crianças berrando, ruas esburacadas, tempestades e pele ardendo, porque protetor solar é coisa de fracos e em praia de gaúcho não tem sombra.

Dois ventos predominam, em nosso veraneio: o nordeste – também chamado de nordestão – e o sul, cuja origem é a Antártida.

O nordestão é vento com grife e estilo... estilo vendaval.

Chega o nordestão e... lá se vai o guarda sol, voando alegremente pela orla e você correndo atrás. Ganha quem consegue pegá-lo antes de ele se cravar na perna de alguém ou desmanchar o castelo de areia que, há três horas, você está construindo com seu filho de cinco anos.

O vento sul, por sua vez, é menos espalhafatoso. Se você for para a praia de sobretudo, cachecol e meias de lã, mal perceberá que ele está soprando. É o vento ideal para se comprar milho verde e deixar a água fervente escorrer em suas mãos, para aquecê-las.

Outra coisa: nosso mar é pra taura! Água gelada, vai congelando seus pés e termina nos cabelos. Se você prefere sofrer tudo de uma vez, mergulhe e erga-se, sabendo que nos próximos quinze minutos sua respiração voltará ao normal: é o tempo que leva para recuperar-se do choque térmico.

E, em todos os veraneios, acontece aquele dia perfeito, nenhum vento, mar tranquilo e transparente, o comentário geral é: “foi um dia de Santa Catarina, de Maceió, de Salvador”. Esse dia perfeito quase sempre acontece no meio da semana, quando quase ninguém está lá para aproveitar. Mas fala-se dele pelo resto do veraneio, pelo resto do ano, até o próximo verão.

Nossos veraneios costumam começar aí pela metade de janeiro e terminar aí pela metade de fevereiro, depende de quando cai o Carnaval. Somos um povo trabalhador, não costumamos ficar parados nas nossas praias. Vamos para lá nas sextas-feiras de tarde e voltamos de lá nos domingos à noite. Quase todos na mesma hora, ida e volta.

É assim que, na sexta-feira, pelas quatro ou cinco da tarde, entramos no engarrafamento. Chegamos a nossa casa, rezando para que não tenha sido arrombada, pelas nove ou dez da noite. Usufruímos nosso mar paradisíaco no sábado – manhã, tarde e noite – e no domingo, quando fechamos a casa.

A todos, um bom veraneio.