RETRATO DA SEMANA


quinta-feira, 29 de outubro de 2026

 

PANO PRA MANGA




Um dia após o aniversário do MTG o advogado Maxsoel Bastos de Freitas, especialista em licitações e contratos públicos, faz um importante questionamento em suas redes sociais a respeito da destinação de recursos do projeto Vivências de Galpão. 

Abaixo, na íntegra, reproduzimos a reflexão sobre os destinos desta verba tão importante para as entidades que vivem em uma penúria sem fim. 


VIVÊNCIAS DE GALPÃO: DOS R$ 3,4 MILHÕES DESTINADOS AO TRADICIONALISMO, QUANTO REALMENTE CHEGARÁ AOS CTGs?

Uma reflexão sobre a aplicação dos recursos públicos, a contratação de serviços terceirizados e a necessidade de transparência do MTG.

Nos últimos dias, fui questionado por dirigentes e integrantes de diversos Centros de Tradições Gaúchas sobre o projeto Vivências de Galpão, desenvolvido pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), com recursos públicos do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, por intermédio da Secretaria Estadual de Turismo.

A pergunta que me fizeram foi simples e objetiva: se o projeto envolve R$ 3.465.520,00, por que apenas R$ 1.600.000,00 serão destinados diretamente às 32 entidades tradicionalistas? Para onde irão os outros R$ 1.865.520,00? QUAL O CRONOGRAMA DE ETAPAS COM AS DATAS DEFINIDAS  A SEREM CUMPRIDAS?

Resolvi examinar a documentação disponibilizada, especialmente o Plano de Trabalho, o Edital MTG nº 001/2026, seus aditivos, o Parecer Técnico da Secretaria Estadual de Turismo e o Termo de Fomento FPE nº 4144/2025, vinculado ao processo administrativo PROA nº 25/2301-0001035-1.

Antes de qualquer consideração, quero deixar claro que sou favorável a projetos que fortaleçam o tradicionalismo, valorizem nossa cultura e proporcionem melhores condições de funcionamento aos CTGs.

Entretanto, não podemos confundir a importância de uma proposta com a obrigação e clareza de elementos que nos possam dar a possibilidade de fiscalizar a aplicação dos recursos públicos.

O QUE É O PROJETO VIVÊNCIAS DE GALPÃO?

O projeto pretende qualificar 32 entidades tradicionalistas para o desenvolvimento do turismo de experiência, oferecendo aos visitantes atividades relacionadas à gastronomia, música, dança, hospitalidade e demais manifestações da cultura gaúcha.

A proposta está dividida em duas etapas principais.

A primeira compreende planejamento estratégico, consultorias especializadas, capacitação de mão de obra, qualificação em gastronomia, elaboração de projetos e ações de marketing.

A segunda prevê o repasse de R$ 50.000,00 para cada um dos 32 CTGs selecionados, destinados à realização de melhorias estruturais, obras e aquisição de equipamentos permanentes.

Ocorre que a liberação desses valores está condicionada ao cumprimento satisfatório das atividades da primeira etapa.

Portanto, os recursos destinados às entidades não representam um repasse imediato e incondicional.

A DISTRIBUIÇÃO DOS R$ 3.465.520,00

O valor total do projeto é de R$ 3.465.520,00, integralmente financiado pelo Governo do Estado.

A distribuição financeira apresenta a seguinte realidade:

Investimentos diretos nos 32 CTGs R$ 1.600.000,00 46,17%

Demais despesas do projeto R$ 1.865.520,00  53,83%

Total R$ 3.465.520,00        100%

Ou seja, mais da metade dos recursos públicos previstos será utilizada fora dos repasses estruturais diretos aos CTGs.

Isso significa que, para cada R$ 100,00 previstos no projeto, aproximadamente R$ 46,17 serão destinados às melhorias estruturais das entidades, enquanto R$ 53,83 financiarão consultorias, serviços, deslocamentos, alimentação e demais despesas operacionais.

E aqui começa meu questionamento.

É razoável que um projeto destinado a fortalecer os galpões tenha despesas de execução superiores ao valor reservado para os investimentos diretos nas entidades tradicionalistas?

Não afirmo que essas despesas sejam ilegais. Questiono sua proporcionalidade, necessidade, economicidade e efetivo retorno para as entidades beneficiadas.

QUANTO SERÁ GASTO EM SERVIÇOS E OUTRAS DESPESAS?

Ao examinar o Plano de Trabalho, encontramos uma previsão de gastos que merece atenção especial.

Entre os valores orçados estão:

Descrição      Valor previsto

Consultoria de turismo (Turismóloga)      R$ 440.000,00

Planejamento estratégico e marketing — SENAC      R$ 259.608,00

Consultoria para elaboração de projetos      R$ 105.600,00

Jardinagem      R$ 111.000,00

Transporte — previsão de 320 mil quilômetros      R$ 400.000,00

Hospedagem      R$ 57.600,00

Alimentação em deslocamentos R$ 48.000,00

Apoio administrativo R$ 74.880,00

Subtotal desses oito itens R$ 1.496.688,00

O plano ainda prevê outras despesas relacionadas à execução do projeto.

Especificamente, a rubrica de serviços de terceiros alcança R$ 1.262.720,00. Há também R$ 505.600,00 previstos para viagens, transporte e deslocamentos, R$ 96.000,00 para alimentação vinculada às experiências turísticas e R$ 1.200,00 em custos indiretos.

Esses valores integram o orçamento global e não devem ser somados novamente ao total da parceria.

Chama atenção, por exemplo, a previsão de R$ 400 mil para transporte, considerando 320 mil quilômetros, e de R$ 440 mil para consultoria de turismo.

Quais empresas executarão esses serviços? Como foram formados esses preços? Quais profissionais serão contratados? Qual será a entrega concreta para cada CTG?

A mesma cautela deve ser aplicada às demais despesas.

O que precisamos conhecer não é apenas o orçamento, mas a execução financeira e os resultados produzidos.

O PROJETO JÁ RECEBEU R$ 621.840,00. QUEM RECEBEU ESSE DINHEIRO?

Outro questionamento que me fizeram diz respeito à primeira parcela do projeto.

Conforme a consulta de repasses apresentada, consta o valor de R$ 621.840,00 como primeira liberação de recursos.

O cronograma financeiro estabelece quatro parcelas:

Parcela Valor

Primeira R$ 621.840,00

Segunda R$ 743.680,00

Terceira R$ 500.000,00

Quarta R$ 1.600.000,00

Total R$ 3.465.520,00

A primeira questão é esclarecer quanto dos R$ 621.840,00 já foi efetivamente utilizado.

É importante distinguir duas situações: o dinheiro transferido pelo Estado ao MTG e o dinheiro efetivamente pago pelo MTG a fornecedores ou prestadores de serviços.

Receber recursos públicos não significa necessariamente que eles já tenham sido gastos.

Por isso, pela transparência dos recursos públicos empregados é que precisamos saber:

• Quais empresas ou profissionais já receberam pagamentos?

• Quais os respectivos CNPJs e valores?

• Quais contratos foram celebrados?

• Quais notas fiscais foram emitidas?

• Quais serviços já foram efetivamente executados?

• Quanto permanece depositado na conta bancária específica do projeto?

A documentação examinada não apresenta uma relação completa dos beneficiários dos pagamentos realizados com a primeira parcela.

Portanto, não há elementos suficientes para afirmar quais empresas efetivamente receberam esses valores, tampouco para concluir que toda a primeira parcela já tenha sido utilizada.

Mas há elementos suficientes para exigir que essas informações sejam apresentadas.

QUANTO DESSE DINHEIRO FICA PARA O MTG?

Esta talvez seja uma das perguntas mais importantes feitas pelos tradicionalistas.

O Movimento Tradicionalista Gaúcho figura como entidade proponente e responsável pelo gerenciamento administrativo e financeiro dos recursos recebidos.

Isso significa que os valores são administrados pelo MTG para execução das despesas autorizadas no Plano de Trabalho.

Entretanto, não significa que a diferença de R$ 1.865.520,00 represente receita livre, lucro ou remuneração institucional do Movimento.

A pergunta correta é:

Dentro dos R$ 1.865.520,00 destinados às demais despesas, quanto será utilizado para custear atividades executadas diretamente pelo MTG, quanto será pago a terceiros e quanto corresponde à eventual remuneração administrativa autorizada?

Também é necessário esclarecer se existem contratos com dirigentes, colaboradores, empresas ou profissionais que mantenham algum vínculo com a administração da entidade.

Não estou afirmando que existam irregularidades ou favorecimentos. Estou defendendo que os vínculos, os critérios de escolha e os pagamentos sejam transparentes.

Afinal, quando uma entidade privada administra recursos públicos, deve prestar contas da aplicação de cada valor recebido.

O QUE MAIS ME PREOCUPA NESSE MODELO?

O tradicionalismo gaúcho não nasceu de consultorias milionárias, planejamentos empresariais ou contratos administrativos.

Nasceu dentro dos galpões, sustentado pelo trabalho voluntário de homens e mulheres que dedicaram parte de suas vidas à preservação dos costumes, da história e da identidade do nosso povo.

Muitos CTGs enfrentam dificuldades para manter suas atividades. Dependem de promoções, almoços, bailes, rodeios e contribuições de associados para pagar despesas básicas.

Por isso, considero necessário refletir sobre um projeto em que cada entidade poderá receber R$ 50 mil para melhorias estruturais, enquanto o orçamento prevê R$ 440 mil para consultoria de turismo, R$ 400 mil para transporte e R$ 259.608,00 para planejamento estratégico e marketing.

Não questiono a importância de capacitar pessoas, organizar atividades turísticas ou desenvolver estratégias de divulgação.

Questiono se todos esses custos são indispensáveis, se foram dimensionados de maneira econômica e se o benefício produzido será proporcional ao dinheiro investido.

O CTG precisa ser o protagonista do projeto, não apenas a justificativa para a contratação de serviços.

Também precisamos saber se as entidades foram ouvidas na definição das suas necessidades reais.

Será que todas precisam das mesmas consultorias? Será que não seria mais proveitoso ampliar os investimentos em infraestrutura? Será que parte das capacitações não poderia ser realizada por instituições públicas, universidades ou profissionais do próprio movimento tradicionalista, mediante alternativas de menor custo?

São questionamentos legítimos que merecem respostas técnicas.

AS INFORMAÇÕES QUE O MTG E A SECRETARIA DE TURISMO DEVEM APRESENTAR

Entendo que a transparência do projeto exige a divulgação pública e acessível de informações fundamentais:

1. Relação completa dos fornecedores e prestadores de serviços. Identificação das empresas e profissionais contratados, com CNPJ ou identificação profissional, objeto contratual, valor, critérios de seleção e documentação correspondente.

2. Prestação de contas da primeira parcela de R$ 621.840,00. Discriminação dos valores efetivamente pagos, notas fiscais, comprovantes bancários e serviços entregues, além da identificação do saldo ainda disponível.

3. Saldo atualizado da conta específica do projeto. Apresentação dos recursos recebidos, rendimentos financeiros, despesas realizadas e saldo bancário.

4. Despesas administrativas do MTG. Esclarecimento sobre os valores destinados à administração, ao apoio operacional, à estrutura interna e à eventual remuneração institucional autorizada.

5. Comprovação dos serviços já executados. Relatórios de consultorias, capacitações, atividades realizadas, profissionais responsáveis, listas de presença e resultados alcançados.

6. Identificação de quem das 32 entidades contempladas já cumpriu as etapas para receber os valores.

7. Justificativa dos valores orçados. Demonstração da economicidade das despesas, especialmente consultorias, transporte, hospedagem, alimentação, jardinagem e serviços administrativos.

8. Informação sobre vínculos entre contratados e dirigentes. Esclarecimento quanto à existência de eventuais vínculos entre fornecedores, prestadores de serviços, dirigentes e integrantes da estrutura administrativa do MTG, com indicação das medidas adotadas para prevenir conflitos de interesses.

9. Divulgação dos critérios de contratação. Apresentação das pesquisas de preços, propostas comerciais e critérios utilizados na escolha dos fornecedores.

10. Relatórios de fiscalização da Secretaria Estadual de Turismo. Divulgação dos documentos de acompanhamento, avaliação de metas e análise das prestações de contas parciais.

A PRESTAÇÃO DE CONTAS NÃO É UMA FACULDADE

O próprio Termo de Fomento nº 4144/2025 estabelece obrigações de controle, acompanhamento e fiscalização.

O MTG deve manter os recursos em conta bancária específica, comprovar sua aplicação e prestar informações sobre a execução financeira e física do projeto.

A Secretaria Estadual de Turismo, por sua vez, possui atribuições de monitoramento e fiscalização, inclusive mediante análise de documentos fiscais e relatórios de execução.

A Lei Federal nº 13.019/2014, que disciplina as parcerias entre a Administração Pública e as organizações da sociedade civil, estabelece deveres de transparência, acompanhamento e prestação de contas.

Portanto, solicitar contratos, comprovantes, notas fiscais e relatórios de execução não representa qualquer ataque ao Movimento Tradicionalista Gaúcho.

Representa o exercício legítimo do controle social sobre a aplicação de dinheiro público.

MINHA POSIÇÃO FINAL

Quero que o projeto Vivências de Galpão dê certo.

Quero ver os CTGs recebendo turistas, melhorando suas instalações, criando oportunidades de trabalho e preservando as manifestações culturais que fazem do Rio Grande do Sul uma terra de identidade própria.

Mas não posso deixar de manifestar minha preocupação quando verifico que, de um orçamento de R$ 3.465.520,00, apenas R$ 1.600.000,00 estão reservados aos investimentos estruturais diretos nas 32 entidades.

São R$ 1.865.520,00 destinados às demais despesas do projeto.

É mais dinheiro para executar e operacionalizar a proposta do que para investir diretamente na estrutura dos galpões.

Isso, por si só, não caracteriza irregularidade. Mas exige uma justificativa consistente de economicidade, eficiência e resultados.

Também não podemos ignorar a informação de que a primeira parcela, no valor de R$ 621.840,00, já consta como repassada.

Precisamos saber quanto foi gasto, quem recebeu, quais empresas foram contratadas e quais serviços foram entregues.

Da mesma forma, é indispensável esclarecer quanto dos recursos será efetivamente utilizado na estrutura administrativa do MTG e quanto será destinado à contratação de terceiros.

Não faço essas perguntas para condenar antecipadamente qualquer dirigente, empresa ou instituição.

Faço porque acredito que a transparência fortalece as entidades e protege o próprio movimento tradicionalista.

O dinheiro público não pertence ao Governo, ao MTG ou aos dirigentes dos CTGs. Pertence à sociedade.

E quando esse dinheiro é destinado à cultura gaúcha, temos o dever de garantir que sua aplicação produza benefícios reais para aqueles que mantêm viva a nossa tradição.

O tradicionalismo não pode servir apenas de cenário para projetos de grande orçamento. Precisa ser o verdadeiro beneficiário dos investimentos realizados em seu nome.

Por isso, aos dirigentes dos CTGs que me perguntaram onde estão os recursos, respondo:

Sabemos quanto o Estado destinou ao projeto. Sabemos quanto está previsto para as 32 entidades. Sabemos quanto foi orçado para consultorias, transporte e outras despesas.

O que ainda precisamos conhecer, de forma documentada, é quem já recebeu, quanto recebeu, pelo que recebeu e quanto efetivamente ficará na estrutura administrativa do MTG.

Essas respostas devem ser públicas, claras e acompanhadas dos respectivos comprovantes.

Porque tradição também se preserva com responsabilidade, respeito e transparência.

E quem administra recursos em nome dos galpões precisa prestar contas aos homens e mulheres que mantêm aceso o fogo da tradição.

Maxsoel Bastos de Freitas

Advogado em licitações e contratos públicos. 

Segue o Link abaixo do DRIVE para visualização dos arquivos que foram consultados e que são todos de livre acesso público.
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