UM BELO PROGRAMA PARA ESTA SEMANA
Trilogia sobre guerra gaúcha que mudou o Brasil terá sessões de graça em Porto Alegre. Documentários de Henrique de Freitas Lima sobre a Revolução de 1923 serão exibidos e debatidos na Cinemateca Paulo Amorim nos dias 9, 10 e 11 de junho. Entrada franca.
Henrique de Freitas Lima
tem mais de 40 anos de cinema, e boa parte desse caminho foi dedicada a filmar
o Rio Grande do Sul. Não o Estado de cartão-postal, mas aquele que aparece nos
campos, nos conflitos, nos personagens históricos e nas histórias que muitas
vezes ficam restritas aos arquivos, às famílias e aos municípios onde
aconteceram.
Agora, o cineasta chega a
um dos projetos mais ambiciosos de sua carreira com Ecos de 1923: A Última
Guerra dos Gaúchos.
A programação reúne três
documentários de cerca de 70 minutos sobre a Revolução de 1923, guerra civil
gaúcha que opôs forças ligadas ao governo de Borges de Medeiros e
revolucionários contrários à sua permanência no poder. Para Henrique, reduzir o
episódio a uma disputa regional é perder a dimensão do que estava em jogo.
— Não é um troço de
gaúcho para gaúcho. A gente está fazendo com uma linguagem para o Brasil, para
quem quiser ver, para poder entender esse processo — afirma o diretor, que tem
no currículo Tempo Sem Glória (1984), Lua de Outubro (1998) e Concerto
Campestre (2005).
O projeto nasceu de uma
pesquisa sobre Zeca Netto, caudilho ligado a Camaquã. Henrique havia sido
provocado a escrever um roteiro sobre o personagem, mas logo percebeu que
aquela trajetória abria uma porta maior. Ao mergulhar nas memórias de Zeca
Netto, surgiram Honório Lemes, Assis Brasil, Flores da Cunha, Borges de
Medeiros e outros nomes que atravessaram a política gaúcha na virada do século
19 para o século 20.
A ideia cresceu até se
transformar em Os Caudilhos, projeto dividido em etapas. A primeira resultou em
filmes locais de 30 minutos, produzidos nos municípios participantes. A segunda
aparece agora na mostra Ecos de 1923, com três longas reorganizados para formar
um painel mais amplo do conflito. A próxima será uma série de televisão em
formato de docudrama, com cenas ficcionais de recriação histórica.
— Foi uma costura de
produção absurda. Foram nove municípios diferentes, com produtores locais que
precisei localizar, além de uma parte filmada no Uruguai — conta Henrique.
As filmagens passaram por
Uruguaiana, São Gabriel, Caçapava do Sul, Camaquã, São Francisco de Assis,
Rosário do Sul, Alegrete, Santana do Livramento e Pedras Altas. Também houve
gravações em Porto Alegre e no Uruguai. Segundo o diretor, a circulação pelos
territórios foi decisiva para que os filmes não ficassem presos apenas à fala
dos especialistas.
— Esses filmes mostram
uma realidade muito curiosa, no sentido de ver quem são os guardiões da nossa
história nesses municípios. Algumas vezes, pessoas que estão isoladas, que já
são idosas e que mantêm essa memória — diz.
Um dos achados mais
importantes do projeto é o uso de imagens de Revolução no Rio Grande, longa
filmado em 1923 por Benjamin Camozato, dentista de Cachoeira do Sul que se
aventurou pelo cinema. Do material original, sobreviveram pouco mais de 50
minutos. Para Henrique, a presença dessas imagens muda a relação do espectador
com a história.
Camozato conseguiu
autorização para filmar acampamentos dos dois lados do conflito. Em alguns momentos,
aparecem figuras como Honório Lemes, Zeca Netto e Estácio Azambuja. Não são
atores tentando representar a Revolução: são os próprios personagens históricos
diante da câmera, em um registro feito enquanto a guerra ainda acontecia.
— Foi emocionante ver o
próprio Honório Lemes na tela. Não é um ator, é ele mesmo — enfatiza.
Henrique lembra que o
material também servirá para a futura etapa ficcional do projeto. A equipe pretende
usar as imagens para observar roupas, armas e modos de organização das colunas
revolucionárias.
— A gente convive com o
projeto hoje em cada detalhe. É incrível, porque vai ser muito útil também
agora na recriação, na parte de ficção, para ver como é que os caras se
vestiam, as armas que usavam, aquela coisa toda — diz.
A mostra foi organizada
em três movimentos. O primeiro documentário apresenta o contexto da Revolução e
passa por Uruguaiana, São Gabriel e Caçapava do Sul. O segundo entra no trecho
mais duro da guerra, com Camaquã, São Francisco de Assis e Rosário do Sul. O
terceiro observa a permanência dessa história em Alegrete, Santana do
Livramento e Pedras Altas.
Henrique resume de forma
simples:
— O primeiro é um pouco
mais contemplativo. O segundo é pau puro, porque é guerra mesmo. E o terceiro
aponta para a permanência desse universo.
A parte sobre São
Francisco de Assis é uma das que mais impressionaram o diretor durante o
processo. Em 1923, a cidade foi palco de um combate urbano que, segundo relatos
recuperados pelo filme, deixou quase cem mortos no centro do município. Mais de
um século depois, as marcas ainda aparecem na paisagem e na memória local.
— Dizem que morreram
quase cem pessoas no centro, na praça da cidade, que eram parentes entre elas.
Isso causou um trauma nessa comunidade que existe até hoje. Tu vai lá e ainda
tem buraco de bala nas árvores, na prefeitura — relata.
O encerramento em Pedras
Altas tem outro tom. Foi na residência de Assis Brasil que o pacto responsável
pelo fim do conflito foi assinado. O castelo, hoje em processo de restauração,
aparece como símbolo de uma memória que tenta sair da ruína. Para Henrique,
esse desfecho permite que a mostra não termine apenas olhando para trás.
A importância do Pacto de
Pedras Altas vai além do fim da guerra. O diretor lembra que ali surgiram bases
para mudanças que ajudariam a moldar o sistema eleitoral brasileiro. A Justiça
Eleitoral só seria criada em 1932, mas a necessidade de uma instituição capaz
de cuidar das eleições já aparece naquele contexto.
— São histórias
desconhecidas, que são chave para entender o Brasil moderno — diz Henrique.
Para o cineasta, os 10
meses da Revolução de 1923 ajudam a explicar a crise da República Velha e
preparam o caminho para a Revolução de 1930. O conflito não terminou com uma
vitória militar dos revolucionários, mas enfraqueceu a permanência de Borges de
Medeiros no poder e abriu espaço para a ascensão de Getúlio Vargas.
— Eles não ganharam a
revolução, porque houve paz, porque o governo federal resolveu finalmente
intervir, mandou um pacificador. Mas eles mudaram o Brasil — afirma.
A dimensão
cinematográfica da história também passa pelos detalhes concretos da guerra.
Henrique cita as colunas em deslocamento, a alimentação improvisada, o frio e a
precariedade dos combatentes. Em determinado momento da pesquisa, uma pergunta
aparentemente banal ajudou a dar corpo ao passado. Como alimentar centenas de
homens em movimento?
— Vocês sabem como é que
essa coluna se alimentava? Precisava de seis bois por dia. Tinha que matar seis
bois por dia, carnear, dividir a carne, assar o churrasco. Imagina a coluna do
Honório, que tinha 2 mil. Quantos bois por dia, quando dava para comer, quando
eles não estavam fugindo dos outros? — especula o diretor.
Essa atenção à matéria
bruta da história, para Henrique, é o que permite ao cinema tirar 1923 do
resumo escolar. Os filmes combinam entrevistas, arquivos, imagens de paisagens,
cemitérios, estâncias, documentos e cenas preservadas do longa de Camozato. O
diretor destaca ainda o trabalho gráfico aplicado ao material de época e a
trilha de Sérgio Rojas, parceiro de longa data.
Embora reconheça que a
história do Rio Grande do Sul muitas vezes fica confinada ao próprio Estado,
Henrique rejeita a ideia de que um filme ambientado no universo gaúcho precise
nascer condenado ao nicho. Para ele, a oposição entre regional e universal
empobrece a discussão.
— Não tem nada que seja
regional nem universal. O que importa é contar uma história boa com um ponto de
vista original — diz.
O diretor compara o
potencial dramático da história gaúcha ao que os Estados Unidos fizeram com o
faroeste. A diferença, para ele, é que o Rio Grande do Sul ainda explorou pouco
esse repertório no cinema.
— Os americanos
reconstruíram a história deles a partir da dramaturgia, do cinema. Nós não
precisamos nem reescrever a nossa, porque ela está aí. É só adaptar.
Depois da mostra, a ideia
é que os três filmes sigam carreira em plataforma de streaming. Antes disso,
Henrique quer ver o público reunido na Casa de Cultura Mario Quintana para
assistir aos documentários e participar dos debates.
— Vai ser uma confraria
de quem ama a história do Rio Grande do Sul.
Programação da mostra
"Ecos de 1923"
9 de junho, terça-feira,
às 19h
A deflagração do
conflito: contexto, adesão e consciência política
Debate com Miguel do
Espírito Santo e João Aloísio Degrazia
10 de junho,
quarta-feira, às 19h
O corpo da guerra:
trauma, violência, cicatriz
Debate com Coralio Cabeda
e Fernando Azambuja
11 de junho,
quinta-feira, às 19h
Elaboração simbólica:
memória, política, conciliação e legado
Debate com Marcos
Hernandez e Rodrigo Aguiar
















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