segunda-feira, 22 de junho de 2026
domingo, 21 de junho de 2026
AQUI ESTOU SENHOR INVERNO
Já sei que trazes - bárbaro! O frio
e as longas chuvas sobre os beirais.
Começo a olhar-me, como em espelho,
nos meus recuerdos... Olho e sorrio
como sorriram meus ancestrais.
Sei que vens vindo... Não me amedrontas!
Fiz provisões de sábias quietudes
e de silêncios - que prevenido!
Vão-se-me os olhos nas folhas tontas
como simbólicos ataúdes
rolando ao nada do teu olvido.
Aqui me encontras... Nunca deserto
do uivo dos ventos e das matilhas
de angústias vindo sem parcimônias.
Chega ao meu rancho que estou desperto:
- sou veterano de cem vigílias,
sou tapejara de mil insônias.
Aqui estarei... Na erma hora morta,
junto da lâmpada, com que sonho,
não temo estilhas de funda ou arco.
Tuas maretas de porta em porta,
os teus furores de trom medonho
não trazem pânico ao bravo barco.
Na caravela ou sobre a alvadia
terra do pampa - cerros e ondas
meu tino e rumo não mudarão.
No alto da torre que o mar vigia,
ou, sem querência, por longas rondas,
não me estrangulas de solidão.
Tua estratégia de assalto e espera
conheço-a muito, fina e feroz:
de neve matas; matas de mágoa;
derramas nalma um frio de tapera;
nanas ausências a meia voz
e os olhos turvos de rasos d'água.
Comigo, nunca... Se estou blindado!
Resisto assédios, que bem conduzes,
no legendário fortim roqueiro.
Brama as tuas fúrias de alucinado!
- Fico mais calmo que as velhas cruzes
braços abertos para o pampeiro.
Os meus fantasmas bem sei que animas
para, num pranto de vãs memórias,
virem num coro de procissão
trazer-me o embalo de velhas rimas.
- À intimidade dessas histórias
tenho aço e bronze no coração.
Então soluças pelas janelas,
gemes e imprecas pelos oitões,
galopas louco sobre as rajadas,
possesso, ululas entre procelas.
E ébrio, nas noites destes rincões
lampejas brilhos de punhaladas.
Inútil tudo! Vê que estou firme.
Nenhum receio me turba o aspeto,
nenhuma sombra me nubla o olhar.
Contigo sempre conto medir-me
frio, impassível, bravo e correto
como um guerreiro que ia a ultramar.
Reconciliemo-nos, velho Inverno!
Nem és tão rude! Tão frio não sou...
Venha um abraço muito fraterno.
Olha...
Esta lágrima que rolou
não a repares...
É de homenagem
a alguém que aos céus se fez de viagem,
e nunca... nunca! Nunca mais voltou...
sábado, 20 de junho de 2026
EU E O MACANUDO TAURINO FAGUNDES
Ando aqui pela capital paulista aonde vim assistir a uma apresentação de festa junina na escolinha da minha netinha Olívia.
Só ela, mesmo, para fazer um velho medroso que não gosta de altura pegar um aeroplano e sair de seu habitat gaudério e se meter nesta selva de cimento.
Falando nisso, me lembrei do Macanudo Taurino Fagundes personagem do glorioso cartunista Santiago. Acho que se eu viesse residir por aqui teria que ser mais ou menos assim.
sexta-feira, 19 de junho de 2026
REPONTANDO DATAS / 19 DE JUNHO
Hoje, 19 de junho, o maior trovador do Rio Grande do Sul, em todos os tempos, se vivo estivesse estaria completando 107 anos. Leovegildo José de Freitas, com o nome artístico de Gildo de Freitas nasceu em 19 de junho de 1919 no Bairro Passo D'Areia em Porto Alegre.
Consagrado na tradicional trova "Mi Maior de Gavetão", em versos de sextilhas, acabou criando um estilo próprio muito difundido nos dias de hoje.
Também foi compositor de grande talento e algumas de suas obras transformaram-se em verdadeiros clássicos do cancioneiro gaúcho como é o caso de "Eu Reconheço Que Sou Grosso".
Uma tecla que vivo batendo é sobre a prometida estátua de Gildo de Freitas que até hoje, quase 20 anos após, não saiu da gaveta.
Eis o projeto aprovado:
"O Plenário da Câmara aprovou nesta quarta-feira (21/11/2007) projeto de lei da vereadora Margarete Moraes (PT), que autoriza a construção de monumento em homenagem à memória do trovador e compositor Gildo de Freitas.
A proposta sugere como local para erguer o monumento o Parque Maurício Sirotsky Sobrinho, conhecido como Parque da Harmonia.
Considerado o Rei dos Trovadores, Gildo nasceu em 1919, no Bairro Passo d'Areia, na época zona rural de Porto Alegre, e morreu em dezembro de 1983."
Utilizando a trova Estilo Gildo de Freitas fiz estes versos demonstrando minha indignação com tamanho descaso:
Como diria o Brizola:
- São muitos os “interésses”.
Quando passa as eleições
o trato desaparece.
Esqueceram o Gildo velho
mas o povo não esquece,
trovador que honrou a raça
enquanto em bronzes de praças
tem gente que não merece.
quinta-feira, 18 de junho de 2026
O FRIO NO BRONZE
quarta-feira, 17 de junho de 2026
terça-feira, 16 de junho de 2026
ME TIRA O TUBO!
Os mais antigos vão
lembrar.
Esse era um dos bordões
mais clássicos do saudoso humorista Jô Soares. A frase "Me tira o
tubo!" pertencia ao personagem do General, um militar linha dura que
sofria um acidente e ficava em coma. Pelo sotaque e o linguajar (tchê, bah,
barbarirade..) dava a entender que era gaúcho.
Ele acordava anos depois,
no hospital, cheio de aparelhos, e cada vez que lhe contavam as mudanças pelo
qual o Brasil havia passado durante seu período de coma ele se desesperava e
pedia para ser desconectado dos aparelhos que o mantinham consciente: "Me
tira o tubo! Eu não aguento isso!"
Lembrei-me do “General”
olhando a seleção brasileira jogar.
Para quem viu na função
de centroavante do escrete canarinho nomes como Tostão, Careca, Romário,
Ronaldo... ao ter a tristeza de assistir a camisa 9 ser entregue a Higor Thiago
só poderia dizer: ME TIRA O TUBO!
Aproveitando a olada da
prosa.
Para escrever este texto
fui ver alguns vídeos do Jô Soares. Mal comparando com os “humoristas” de hoje,
eu diria: ME TIRA O TUBO!
segunda-feira, 15 de junho de 2026
domingo, 14 de junho de 2026
A FALSA CARTA DE CAXIAS
sábado, 13 de junho de 2026
MEU SANTO DE DEVOÇÃO
Hoje, 13 de junho, é Dia
de Santo Antônio, meu santo de devoção. Em 2024 consegui realizar um sonho, ou
seja, conhecer o local aonde ele trabalhou até o final de sua vida na cidade de
Pádua, na Itália.
Era um dia chuvoso e
nunca senti tanta espiritualidade em minha vida. Nesta basílica está exposta,
em perfeito estado de conservação, sua língua (ele era um grande tribuno).
Santo Antônio, ou Santo
Antônio de Pádua nasceu em Fernando de Bulhões em Lisboa, Portugal, em 1195,
foi frade franciscano discípulo de São Francisco de Assis e Doutor da Igreja.
Famoso por sua profunda sabedoria bíblica e caridade, ele é celebrado no mundo
todo.
É amplamente invocado
como o santo que ajuda a encontrar objetos perdidos além da fama de Santo
Casamenteiro devido a sua caridade ao ajudar moças pobres a conseguirem o dote
necessário para o casamento. No Brasil, é o primeiro santo celebrado nas
tradicionais Festas Juninas.
Iniciou como cônego
agostiniano, mas mudou-se para a Ordem Franciscana para viver uma vida de maior
simplicidade e pregação. Faleceu em Pádua, na Itália, em 1231, onde hoje se
encontra a sua basílica.
Agora, se os leitores me
dão licença, vou até a igreja de Santo Antônio do Pão dos Pobres, aqui na capital, fazer minhas
orações de agradecimento por tudo que tenho alcançado e pegar meu pãozinho bento.
CULTURA GAÚCHA EM BRASÍLIA
A Secretaria da Cultura
está apoiando a realização da 33ª Expotchê, em Brasília. É o governo do Estado
presente na maior feira da cultura gaúcha fora da região Sul. O evento encerra amanhã (14).
A pasta viabilizou a
contratação de atrações artísticas – os grupos musicais Le Farfalle e Família
Ortaça, e a Burzum Cia. Circense – e correaliza uma mostra audiovisual sobre os
400 Anos das Missões Jesuíticas Guaranis, temática da Expotchê este ano. Estão
sendo exibidos os filmes “Trinta Povos”, “Cantata Sete Povos – Episódios 1 e 2”
e “Pará Yxapy”.
Realizado de 4 a 14 de
junho, no Pavilhão de Exposições do Parque da Cidade, o evento conta com uma
ampla programação, que inclui outras apresentações artísticas, gastronomia
típica, artesanato e ações de valorização do Rio Grande do Sul, como um estande
inspirado nas ruínas de São Miguel Arcanjo – tudo para levar a cultura gaúcha a
visitantes de todas as regiões do país!
Foto: Marcello Candido/Expotchê.
"ESTÁTUA VIVA" GANHA EDITAL
PARA REVITALIZAÇÃO DO SÍTIO DO LAÇADOR
A "estátua
viva" do Laçador, interpretada pelo ator Pablo Espindola, venceu o edital
"Sítio do Laçador Vive". Com isso, ele e sua equipe serão
oficialmente responsáveis pela gestão, preservação e revitalização do entorno
do monumento histórico de Antônio Caringi.O acordo do edital inclui obrigações
e novidades para a região:
O grupo é responsável por
manter a grama aparada, as pinturas conservadas e garantir a integridade da
estátua. O projeto também prevê apresentações culturais caracterizadas, ações
de educação patrimonial e fomento à economia criativa.
Nos próximos 12 meses, a
área deverá ganhar novas instalações, incluindo banheiros e iluminação
aprimorada, além de integração com marcas.
sexta-feira, 12 de junho de 2026
SEIS ANOS SEM PORCA VÉIA
Hoje, 12 de junho, Dia dos Namorados, fez seis anos que o grande gaiteiro Porca Véia deixou este plano. Seu falecimento ocorreu devido a uma parada cardíaca durante uma hemodiálise.
Em virtude de que a pandemia do Coronavírus estava em seu auge naquele junho de 2020, seu velório na cidade de Ivoti foi restrito a poucos amigos e familiares. Contudo, fui levar o meu último adeus a este ícone da musicalidade rio-grandense cuja carreira acompanhei desde o seu princípio e tivemos diversos trabalhos juntos além de uma forte amizade.
Porca Véia foi o maior representante da música Bertussi e hoje, além do Grupo Cordeona que segue firme os passos de seu líder, muitos conjuntos mantém o estilo Porca Véia de animar fandangos. Ele foi e sempre será o Pai do Gaitaço.
quinta-feira, 11 de junho de 2026
ALELUIA
Ontem estava passando pela avenida João Pessoa, aqui em Porto Alegre, em frente ao histórico colégio Júlio de Castilhos, o Julinho, local aonde começou o tradicionalismo gaúcho, e vi que estavam demolindo o coreto da praça em frente. Uma pena porque os coretos marcaram uma época nostálgica de música, dança, pontos de encontro em quase todas as cidades do nosso interior. Hoje, segundo informações que recebi, servia de abrigo a drogados.
Em contraponto ao que vi em relação ao coreto, bem em frente, no meio da avenida, uma equipe da prefeitura estava limpando para restauração o icônico monumento a Bento Gonçalves, no mesmo local aonde ele teria cruzado ao invadir Porto Alegre via Ponte da Azenha em setembro de 1835.
Tal monumento é uma obra do escultor pelotense Antonio Caringi e constituído para celebrar o centenário da revolução farroupilha em 1935. Foi inaugurado no ano seguinte no Parque Farroupilha (foto acima)e, em 1941, transferido para o atual local.
Esperamos que os cuidados com este patrimônio histórico não fique na limpeza. Que se instale câmaras, luzes, grade de proteção, enfim, que não fique a mercê dos vândalos que, inclusive, levaram as duas placas laterais com mais de 100 quilos, a luz do dia, e até hoje não apareceram. Nem placas nem os graxains autores da proeza.
De toda forma, deve-se cumprimentar o poder público pela iniciativa.
quarta-feira, 10 de junho de 2026
33º RONCO DO BUGIO
ABERTA AS INSCRIÇÕES
Vem aí mais uma edição de
um dos encontros mais tradicionais da música nativista gaúcha, celebrando o
único gênero musical genuinamente nascido no Rio Grande do Sul: o bugio! O
evento acontece em São Francisco de Paula e vai distribuir mais de R$ 23 mil em
prêmios, além de ajuda de custo para as obras selecionadas.
Prepare sua composição
inédita e participe!
Inscrições: 09 de junho a
05 de julho.
Vagas: 16 composições
vocais e 4 instrumentais de gaita (todas inéditas e no ritmo bugio).
Ajuda de custo para as
músicas classificadas ( R$ 4.500) + bônus para finalistas, além de prêmios para
os vencedores!
Data do Evento: 13, 14 e
15 de agosto no Centro de Eventos de São Chico.
Como se inscrever:
Exclusivamente pelo e-mail
roncodobugiosaochico@gmail.com
Edital completo:
bit.ly/edital1242026
Tire suas dúvidas pelo WhatsApp
(54) 99968-6335 (com Maurício).
Leia a matéria completa em
www.saofranciscodepaula.rs.gov.br
terça-feira, 9 de junho de 2026
Foi lançado terça-feira passada, em Porto Alegre, o Festival da Virada -
Depois das Águas, uma mostra competitiva de canções inéditas promovido pela
Caminha Produções Artísticas Ltda e Pandorga Produtora Cultural em cinco etapas
classificatórias que ocorrerão em localidades atingidas pelas enchentes que
assolaram o Estado entre abril e maio de 2024.
Serão apresentadas 12 (doze) músicas em cada uma das cinco etapas classificatórias, sendo 6 (seis) regionais + 6 (seis) estaduais totalizando sessenta (60) canções cuja nominata será divulgada a partir de 25 de junho de 2026. Em cada fase as comissões avaliadoras elegerão uma canção da região, uma canção estadual e o Melhor Tema Ambiental, para serem reapresentadas na Grande Final, em Porto Alegre.
O regulamento completo está disponível no site Festivalvirada.com.br (alguns tópicos estão abaixo) e as inscrições podem ser encaminhadas até o dia 16 de
junho de 2026, através do formulário de inscrição disponível no link:
https://www.festivaldavirada.com.br
DA AJUDA DE CUSTO E
PREMIAÇÃO:
ART.08- As composições
classificadas na pré-seleção, receberão, a título de premiação (ajuda de
custos), direitos de arena e uso de imagem em todas as plataformas, digitais ou
não, o valor de R$ 5.000,00 (cinco mil reais), que serão pagos mediante Nota
Fiscal no momento do credenciamento, quando todos os músicos e interpretes
deverão assinar a devida autorização.
As obras classificadas
para a grande final do festival farão jus ao recebimento de ajuda de custo no
valor de R$ 7.000,00 (sete mil reais) cada, destinada a contribuir com despesas
de deslocamento, hospedagem, alimentação e demais custos relacionados à
participação no evento.
ÙNICO: todas despesas de
alimentação, hospedagem e transporte ocorrerão por conta do concorrente.
ART.09 – A comissão
julgadora proclamará, ao final da apresentação das músicas finalistas, os
seguintes prêmios:
Primeiro Lugar: troféu e
R$ 8.000,00
Segundo Lugar: troféu e
R$ 5.000,00
Melhor Tema Ambiental:
troféu e R$ 5.000,00
Melhor Intérprete: troféu
e R$ 2.000,00
Melhor Instrumentista:
troféu e R$ 2.000,00
Melhor Letra: troféu e R$
1.000,00
Melhor Melodia: troféu e R$ 1.000,00
- Etapa Gramado - 08 de julho:
Carlos
Madruga,
Fernanda Lopes,
Léo
Ribeiro de Souza
- Etapa São Leopoldo - 12 de julho:
Lincon
Ramos,
Tatieli
Bueno,
Anomar
Danúbio Vieira
- Etapa Lajeado - 14 de julho:
Bianca
Bergman,
Diego
Machado,
Diego Muller
- Etapa Canoas - 16 de julho:
Charlise
Bandeira,
Flávio
Hanssen,
Mauro
Moraes
- Etapa Sapucaia do Sul - 19 de julho:
Luciano
Maia,
Janaína
Maia,
Martin
César
- Grande Final - Porto Alegre - 22 de julho:
Adriana
Sperandir,
Fabrício
Harden,
João
Bosco Ayala,
Telmo
Jaconi,
Vaine
Darde.
segunda-feira, 8 de junho de 2026
Essa casa, companheiro,
não é a de São Gonçalo
igual aquele terreiro
que pinto manda no galo.
Uma boa semana a todos.
domingo, 7 de junho de 2026
NOVE ANOS DA GAÚCHOS TEMPLÁRIOS
INJUSTIÇAS DOMINICAIS
Este ano, após meio século, parei de assinar e receber na porta do rancho o jornal Zero Hora. Como disse a três ontontes o periódico está mais fino que assovio de papudo, retransmitindo notícias dormidas e com poucos colunistas de real valor.
Desde então, garrei a balda de, ao acordar, recorrer os aguapés para me inteirar do mundo através do celular.
Hoje, domingo (07), abri e fechei o aparelho em seguida. Duas postagens carregadas de injustiças me taparam de nojo.
A primeira foi o embarque da delegação da RBS (a Emissora dos Casais) para a copa do mundo. Gente com pouca ou nenhuma expressão viajando e deixando aqui, no esquecimento, o melhor repórter de todos, ou seja, o José Alberto Andrade. Que baita injustiça.
Dizem que o manda chuva da rede é um mineiro. Não sei quem é mas, com certeza, um grande desconhecedor do que faz além de andejar, possivelmente, pelos caminhos do compadresco.
A segunda grande injustiça, em outro nível é óbvio, foi o julgamento do menino Henry Borel aonde a juíza Elizabeth Machado Louro absolveu a mãe (para mim uma assassina) citando os termos "misogenia" e "cultura patriarcal" para justificar o perdão judicial a Monique Medeiros. Nos tempos modernos digo que isto é lacração sendo usada em âmbito judicial para livrar uma criminosa.
O negócio, para não me irritar já de manhã, foi desligar o celular, virar para o lado e dormir até as 10h para ver a fórmula 1, pois me parece que está surgindo um Airton Senna italiano.
sábado, 6 de junho de 2026
UM BELO PROGRAMA PARA ESTA SEMANA
Trilogia sobre guerra gaúcha que mudou o Brasil terá sessões de graça em Porto Alegre. Documentários de Henrique de Freitas Lima sobre a Revolução de 1923 serão exibidos e debatidos na Cinemateca Paulo Amorim nos dias 9, 10 e 11 de junho. Entrada franca.
Henrique de Freitas Lima
tem mais de 40 anos de cinema, e boa parte desse caminho foi dedicada a filmar
o Rio Grande do Sul. Não o Estado de cartão-postal, mas aquele que aparece nos
campos, nos conflitos, nos personagens históricos e nas histórias que muitas
vezes ficam restritas aos arquivos, às famílias e aos municípios onde
aconteceram.
Agora, o cineasta chega a
um dos projetos mais ambiciosos de sua carreira com Ecos de 1923: A Última
Guerra dos Gaúchos.
A programação reúne três
documentários de cerca de 70 minutos sobre a Revolução de 1923, guerra civil
gaúcha que opôs forças ligadas ao governo de Borges de Medeiros e
revolucionários contrários à sua permanência no poder. Para Henrique, reduzir o
episódio a uma disputa regional é perder a dimensão do que estava em jogo.
— Não é um troço de
gaúcho para gaúcho. A gente está fazendo com uma linguagem para o Brasil, para
quem quiser ver, para poder entender esse processo — afirma o diretor, que tem
no currículo Tempo Sem Glória (1984), Lua de Outubro (1998) e Concerto
Campestre (2005).
O projeto nasceu de uma
pesquisa sobre Zeca Netto, caudilho ligado a Camaquã. Henrique havia sido
provocado a escrever um roteiro sobre o personagem, mas logo percebeu que
aquela trajetória abria uma porta maior. Ao mergulhar nas memórias de Zeca
Netto, surgiram Honório Lemes, Assis Brasil, Flores da Cunha, Borges de
Medeiros e outros nomes que atravessaram a política gaúcha na virada do século
19 para o século 20.
A ideia cresceu até se
transformar em Os Caudilhos, projeto dividido em etapas. A primeira resultou em
filmes locais de 30 minutos, produzidos nos municípios participantes. A segunda
aparece agora na mostra Ecos de 1923, com três longas reorganizados para formar
um painel mais amplo do conflito. A próxima será uma série de televisão em
formato de docudrama, com cenas ficcionais de recriação histórica.
— Foi uma costura de
produção absurda. Foram nove municípios diferentes, com produtores locais que
precisei localizar, além de uma parte filmada no Uruguai — conta Henrique.
As filmagens passaram por
Uruguaiana, São Gabriel, Caçapava do Sul, Camaquã, São Francisco de Assis,
Rosário do Sul, Alegrete, Santana do Livramento e Pedras Altas. Também houve
gravações em Porto Alegre e no Uruguai. Segundo o diretor, a circulação pelos
territórios foi decisiva para que os filmes não ficassem presos apenas à fala
dos especialistas.
— Esses filmes mostram
uma realidade muito curiosa, no sentido de ver quem são os guardiões da nossa
história nesses municípios. Algumas vezes, pessoas que estão isoladas, que já
são idosas e que mantêm essa memória — diz.
Um dos achados mais
importantes do projeto é o uso de imagens de Revolução no Rio Grande, longa
filmado em 1923 por Benjamin Camozato, dentista de Cachoeira do Sul que se
aventurou pelo cinema. Do material original, sobreviveram pouco mais de 50
minutos. Para Henrique, a presença dessas imagens muda a relação do espectador
com a história.
Camozato conseguiu
autorização para filmar acampamentos dos dois lados do conflito. Em alguns momentos,
aparecem figuras como Honório Lemes, Zeca Netto e Estácio Azambuja. Não são
atores tentando representar a Revolução: são os próprios personagens históricos
diante da câmera, em um registro feito enquanto a guerra ainda acontecia.
— Foi emocionante ver o
próprio Honório Lemes na tela. Não é um ator, é ele mesmo — enfatiza.
Henrique lembra que o
material também servirá para a futura etapa ficcional do projeto. A equipe pretende
usar as imagens para observar roupas, armas e modos de organização das colunas
revolucionárias.
— A gente convive com o
projeto hoje em cada detalhe. É incrível, porque vai ser muito útil também
agora na recriação, na parte de ficção, para ver como é que os caras se
vestiam, as armas que usavam, aquela coisa toda — diz.
A mostra foi organizada
em três movimentos. O primeiro documentário apresenta o contexto da Revolução e
passa por Uruguaiana, São Gabriel e Caçapava do Sul. O segundo entra no trecho
mais duro da guerra, com Camaquã, São Francisco de Assis e Rosário do Sul. O
terceiro observa a permanência dessa história em Alegrete, Santana do
Livramento e Pedras Altas.
Henrique resume de forma
simples:
— O primeiro é um pouco
mais contemplativo. O segundo é pau puro, porque é guerra mesmo. E o terceiro
aponta para a permanência desse universo.
A parte sobre São
Francisco de Assis é uma das que mais impressionaram o diretor durante o
processo. Em 1923, a cidade foi palco de um combate urbano que, segundo relatos
recuperados pelo filme, deixou quase cem mortos no centro do município. Mais de
um século depois, as marcas ainda aparecem na paisagem e na memória local.
— Dizem que morreram
quase cem pessoas no centro, na praça da cidade, que eram parentes entre elas.
Isso causou um trauma nessa comunidade que existe até hoje. Tu vai lá e ainda
tem buraco de bala nas árvores, na prefeitura — relata.
O encerramento em Pedras
Altas tem outro tom. Foi na residência de Assis Brasil que o pacto responsável
pelo fim do conflito foi assinado. O castelo, hoje em processo de restauração,
aparece como símbolo de uma memória que tenta sair da ruína. Para Henrique,
esse desfecho permite que a mostra não termine apenas olhando para trás.
A importância do Pacto de
Pedras Altas vai além do fim da guerra. O diretor lembra que ali surgiram bases
para mudanças que ajudariam a moldar o sistema eleitoral brasileiro. A Justiça
Eleitoral só seria criada em 1932, mas a necessidade de uma instituição capaz
de cuidar das eleições já aparece naquele contexto.
— São histórias
desconhecidas, que são chave para entender o Brasil moderno — diz Henrique.
Para o cineasta, os 10
meses da Revolução de 1923 ajudam a explicar a crise da República Velha e
preparam o caminho para a Revolução de 1930. O conflito não terminou com uma
vitória militar dos revolucionários, mas enfraqueceu a permanência de Borges de
Medeiros no poder e abriu espaço para a ascensão de Getúlio Vargas.
— Eles não ganharam a
revolução, porque houve paz, porque o governo federal resolveu finalmente
intervir, mandou um pacificador. Mas eles mudaram o Brasil — afirma.
A dimensão
cinematográfica da história também passa pelos detalhes concretos da guerra.
Henrique cita as colunas em deslocamento, a alimentação improvisada, o frio e a
precariedade dos combatentes. Em determinado momento da pesquisa, uma pergunta
aparentemente banal ajudou a dar corpo ao passado. Como alimentar centenas de
homens em movimento?
— Vocês sabem como é que
essa coluna se alimentava? Precisava de seis bois por dia. Tinha que matar seis
bois por dia, carnear, dividir a carne, assar o churrasco. Imagina a coluna do
Honório, que tinha 2 mil. Quantos bois por dia, quando dava para comer, quando
eles não estavam fugindo dos outros? — especula o diretor.
Essa atenção à matéria
bruta da história, para Henrique, é o que permite ao cinema tirar 1923 do
resumo escolar. Os filmes combinam entrevistas, arquivos, imagens de paisagens,
cemitérios, estâncias, documentos e cenas preservadas do longa de Camozato. O
diretor destaca ainda o trabalho gráfico aplicado ao material de época e a
trilha de Sérgio Rojas, parceiro de longa data.
Embora reconheça que a
história do Rio Grande do Sul muitas vezes fica confinada ao próprio Estado,
Henrique rejeita a ideia de que um filme ambientado no universo gaúcho precise
nascer condenado ao nicho. Para ele, a oposição entre regional e universal
empobrece a discussão.
— Não tem nada que seja
regional nem universal. O que importa é contar uma história boa com um ponto de
vista original — diz.
O diretor compara o
potencial dramático da história gaúcha ao que os Estados Unidos fizeram com o
faroeste. A diferença, para ele, é que o Rio Grande do Sul ainda explorou pouco
esse repertório no cinema.
— Os americanos
reconstruíram a história deles a partir da dramaturgia, do cinema. Nós não
precisamos nem reescrever a nossa, porque ela está aí. É só adaptar.
Depois da mostra, a ideia
é que os três filmes sigam carreira em plataforma de streaming. Antes disso,
Henrique quer ver o público reunido na Casa de Cultura Mario Quintana para
assistir aos documentários e participar dos debates.
— Vai ser uma confraria
de quem ama a história do Rio Grande do Sul.
Programação da mostra
"Ecos de 1923"
9 de junho, terça-feira,
às 19h
A deflagração do
conflito: contexto, adesão e consciência política
Debate com Miguel do
Espírito Santo e João Aloísio Degrazia
10 de junho,
quarta-feira, às 19h
O corpo da guerra:
trauma, violência, cicatriz
Debate com Coralio Cabeda
e Fernando Azambuja
11 de junho,
quinta-feira, às 19h
Elaboração simbólica:
memória, política, conciliação e legado
Debate com Marcos
Hernandez e Rodrigo Aguiar









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