RETRATO DA SEMANA


Para quem começou este blog há 16 anos atrás com 40, 50, acessos diários, terminar o mês de junho com 99.429 acessos (somente no dia 01 já tivemos 10.040 visitas) só aumenta nossa responsabilidade. Continuamos peleando apenas pelo prazer de ser mais um guardião da cultura regional gaúcha.

domingo, 12 de julho de 2026

 


NA DATA DE HOJE   
PAIXÃO CÔRTES COMPLETARIA 99 ANOS

 
 
Nascido a 12 de julho d 1927, em Sant’Ana do Livramento, João Carlos D'Ávila Paixão Côrtes foi o maior folclorista do Estado. Identificado com as nossas tradições Paixão Côrtes deixou marcas indeléveis através dos livros, de palestras, de demonstrações de suas pesquisas. 

O interessante é que o Movimento Tradicionalista Gaúcho, órgão que o próprio Paixão ajudou a criar, não o enxerga como um símbolo do tradicionalismo e como grande pesquisados aonde o próprio Movimento escorou-se por muitos anos. Mas aí ocorre uns "pavonaços" (guerra de beleza) e não vamos entrar nesta seara pois, para mim e para a maioria do Rio Grande do Sul a figura de Paixão Côrtes está cima disto tudo.      

Não vamos aqui fazer uma biografia de João Carlos Paixão Côrtes pois faltaria espaço para relatar sua história, desde a formação do Grupo dos Oitos, passando por sua parceria com Barbosa Lessa e servir como modelo a Caringi para a concepção da Estátua do Laçador até emprestar o seu nome a moderna ponte que atravessa o Rio Guaíba rumo a fronteira.  

No ano de 1999, eu era proprietário do Jornal Boca da Serra, um periódico mensal voltado para a cultura gaúcha, quando entrevistamos o folclorista. A partir deste dia Paixão nunca mais me tratou por Léo, e sim por Boca da Serra rsrsrs....

Notem que suas respostas servem como uma luva para os dias de hoje, 27 anos após.

Boca da Serra – Depois de Paixão Côrtes, poucos ativistas dedicaram-se a pesquisar nosso folclore. Por que são poucos os interessados nesta área? Não há mais nada o que pesquisar?

Paixão Côrtes – Bem. Eu acho é que as pessoas estão mais preocupadas é em festar do que fundamentar. Estão mais voltados para a recreação e o lazer antes de procurar as raízes que deram origem a esses momentos literários, sociais e culturais. Mas eu acho que ainda há muita coisa para se pesquisar. Existem muitas manifestações que estão aí a espera de pessoas preocupadas em revitalizar essas fontes.

Só como informação: em 1950 eu pesquisei a dança jardineira, em Vacaria. Quarenta e quatro anos depois eu vim encontrá-la aqui, em Santo Antônio da Patrulha. Esperei 44 anos para que realmente reconstituíssem com toda a fidelidade. Seria muito mais fácil se eu não tivesse essa preocupação de veracidade e do respeito ás fontes originais como muita gente, irresponsavelmente, anda fazendo por aí. Minha preocupação é essa: reconstituir fielmente para que as novas gerações sejam portadoras da verdadeira raiz nativa riograndense.

Boca da Serra – Sendo o maior estudioso do assunto, como o senhor vê as danças de invernadas artísticas de hoje?

Paixão Côrtes – O que eu acho é o seguinte: as pessoas, as vezes, tem dificuldade de interpretar o que a gente escreve por que não conhecem português. Então, para essas pessoas, torna-se difícil entender o que a gente escreve traduzindo expressões artísticas, coreógrafas, musicais e de vestuário. Como as pessoas acham mais fácil olhar e acrescentar sua opinião pessoal, o que nós estamos vendo aí é uma verdadeira fantasia de vestuário e uma deturpação de temas originais que eu encontrei. Não quero dizer que as danças que eu investiguei sejam as únicas, mas estas, até que me provem o contrário, são as primitivas, as originais.

Hoje é muito comum a modificação, a estilização, a deturpação em razão da falta de documentos da época.

Boca da Serra – Nosso povo gosta muito de prestar homenagens “in memorian”. Que homenagem o senhor gostaria de receber em vida?

Paixão Côrtes – Eu estou recebendo todas as homenagens de pessoas sinceras que comungam com o espírito que me levou a criar, em 1947 o início do movimento tradicionalista através do Departamento de Comunicações do Colégio Júlio de Castilhos e, consequentemente o 35 CTG, que sou um dos fundadores.

A todo o momento eu me reencontro com as novas gerações e isto é um júbilo que a gente carrega pois já com 72 anos mas perfeitamente lúcido e me sentindo espiritualmente jovem, bastante jovem, porque estou dando muitos cursos e dançando continuadamente. Ensino setenta e tantas danças a cada curso que dou, a cada exposição coreográfica que faço aos mirins, juvenis, adultos e o reencontro com xirus veteranos, são momentos de homenagens perenes.

Isto sempre pensei em minha vida: o rever amigos são momentos de glórias, assim como a glória está na preservação original de nossos estudos, no reconhecimento destes trabalhos por parte das novas gerações e na causa maior que é o bem estar de todos nós.
 
estátua de Paixão Côrtes na entrada de Santana do Livramento