TRADICIONALISMO COM EMOÇÃO
projeto leva técnicas teatrais a grupos de dança
Jornalista: André Malinoski
Há 20 anos, o Projeto
Aquecimento Cênico prepara grupos de dança tradicionalista para competições em
cidades do Rio Grande do Sul e de outros estados do país. Ao longo desse
período, cerca de 20 mil pessoas – de grupos mirins a
veteranos – já participaram das aulas, que somam 572 encontros realizados.
A iniciativa surgiu em
Canoas, na Região Metropolitana. Embora não tenha sede própria, as atividades
ocorrem em salões ou galpões onde os grupos costumam ensaiar — entre
eles, diversos vencedores de torneios. Com duração de seis
horas consecutivas, as oficinas trabalham a expressão corporal e facial por
meio de técnicas teatrais.
Idealizado pelo professor
de Português, Literatura e Redação Leandro de Araújo, 51 anos, em parceria com
a esposa, Fabi Araújo, 46, o projeto começou por acaso, em 2006,
quando o casal foi convidado a auxiliar um grupo de amigos que dançava, em
razão da experiência deles com o teatro.
— Fizemos o trabalho e,
no fim de semana seguinte, outro grupo chamou. Quando nos demos conta, perdemos
o controle dos nossos finais de semana. Havia uma necessidade muito grande de
os grupos de dança entenderem a parte cênica e artística e fazerem a
relação das danças com a história. A oficina foi se transformando em algo
praticamente obrigatório para os grupos de dança — recorda o declamador.
Com o interesse crescente
do público pelas oficinas, a dupla paralisou o projeto por cerca de um ano
para estudar e se especializar no tema. Na sequência, os dois
voltaram a oferecer as atividades. Nessas duas décadas, 115 cidades em cinco
estados do país já foram visitadas, assim como o Uruguai, em duas
oportunidades.
— De certa forma, a gente
revolucionou a forma como a dança tradicional gaúcha é ensinada dentro dos
galpões, trocando aquela rigidez que havia por algo bem mais humanizado e,
principalmente, pelo aspecto de entender a história da dança e o caráter da
expressão corporal e facial, em detrimento dessa rigidez de disciplina que a
gente tinha — afirma Araújo.
Quebrando paradigmas
O circuito de danças do
Estado é conhecido por sua extrema competitividade. Os grupos
procuram as oficinas para melhorar suas performances. Dançarinos que desejam
aprimorar suas apresentações, inclusive de outras regiões do Brasil, também
buscam ampliar seus conhecimentos no Projeto Aquecimento Cênico.
— Hoje, a nota na
interpretação da dança é o elemento mais importante das competições. Se dois
grupos, por exemplo, empatam na nota geral, será essa nota que acabará
definindo quem fica na frente — explica.
Araújo compartilha que,
no começo das oficinas, foi difícil quebrar alguns paradigmas e trabalhar
técnicas de teatro, que movimentam o corpo com músicas que não são
tradicionalistas. Segundo o idealizador, os grupos saem das aulas muito
diferentes de como entraram.
— É um trabalho que mexe
muito na questão emocional. Tanto que já foi publicado em revistas científicas
de universidades federais, na Faculdade de Dança. Algumas oficinas que criamos
estão publicadas. Isso, para nós, é motivo de muito orgulho — observa.
Conforme Araújo, é
comum os participantes chorarem durante as intensas oficinas. Ele explica o
porquê:
— Esse chorar que a gente
promove é um chorar no sentido do desenvolvimento da inteligência emocional.
Eles entendem que a emoção faz parte da arte e da dança. A gente
não dança para ganhar ponto, mas para se desenvolver emocionalmente como
pessoa.
De certa forma, a
gente revolucionou a forma como a dança tradicional gaúcha é ensinada dentro
dos galpões, trocando aquela rigidez que havia por algo bem mais humanizado.
O professor enumera outro
motivo de gratificação. Segundo relata, dos 10 melhores grupos
juvenis de dança do Estado, oito passaram pela oficina. E, dos sete melhores
mirins, todos trabalharam no projeto. Além disso, acrescenta, entre os 10
melhores adultos do Encontro de Artes e Tradição Gaúcha (Enart), praticamente
todos os dançarinos já estiveram nas oficinas.
Para a professora Fabi
Araújo, o projeto fortaleceu vínculos e evidencia a
importância de humanizar os ensinamentos nas oficinas.
— O projeto mudou a nossa
vida. Saber que humanizamos os ensaios, trocando aquela disciplina quase
militar que havia quando eu ensaiava por sensibilidade e cenicidade, é
maravilhoso. Hoje, há intencionalidade em cada movimento da dança,
e isso se deve ao fato de ensinarmos os motivos desses movimentos, e não apenas
fazê-los para somar pontos ou agradar jurados.
Como participar
Informações sobre como participar das oficinas podem ser feitas pelo telefone (51) 99729-7816, com Leandro de Araújo, ou pelas redes sociais do projeto: no Instagram, pelo perfil @aquecimentocenico
