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domingo, 22 de fevereiro de 2026

 


TRADICIONALISMO COM EMOÇÃO

projeto leva técnicas teatrais a grupos de dança


Projeto Aquecimento Cênico / Divulgação


Jornalista: André Malinoski

Há 20 anos, o Projeto Aquecimento Cênico prepara grupos de dança tradicionalista para competições em cidades do Rio Grande do Sul e de outros estados do país. Ao longo desse período, cerca de 20 mil pessoas – de grupos mirins a veteranos – já participaram das aulas, que somam 572 encontros realizados.

A iniciativa surgiu em Canoas, na Região Metropolitana. Embora não tenha sede própria, as atividades ocorrem em salões ou galpões onde os grupos costumam ensaiar — entre eles, diversos vencedores de torneios. Com duração de seis horas consecutivas, as oficinas trabalham a expressão corporal e facial por meio de técnicas teatrais.

Idealizado pelo professor de Português, Literatura e Redação Leandro de Araújo, 51 anos, em parceria com a esposa, Fabi Araújo, 46, o projeto começou por acaso, em 2006, quando o casal foi convidado a auxiliar um grupo de amigos que dançava, em razão da experiência deles com o teatro.

— Fizemos o trabalho e, no fim de semana seguinte, outro grupo chamou. Quando nos demos conta, perdemos o controle dos nossos finais de semana. Havia uma necessidade muito grande de os grupos de dança entenderem a parte cênica e artística e fazerem a relação das danças com a história. A oficina foi se transformando em algo praticamente obrigatório para os grupos de dança — recorda o declamador. 

Com o interesse crescente do público pelas oficinas, a dupla paralisou o projeto por cerca de um ano para estudar e se especializar no tema. Na sequência, os dois voltaram a oferecer as atividades. Nessas duas décadas, 115 cidades em cinco estados do país já foram visitadas, assim como o Uruguai, em duas oportunidades.

— De certa forma, a gente revolucionou a forma como a dança tradicional gaúcha é ensinada dentro dos galpões, trocando aquela rigidez que havia por algo bem mais humanizado e, principalmente, pelo aspecto de entender a história da dança e o caráter da expressão corporal e facial, em detrimento dessa rigidez de disciplina que a gente tinha — afirma Araújo.  

Quebrando paradigmas

O circuito de danças do Estado é conhecido por sua extrema competitividade. Os grupos procuram as oficinas para melhorar suas performances. Dançarinos que desejam aprimorar suas apresentações, inclusive de outras regiões do Brasil, também buscam ampliar seus conhecimentos no Projeto Aquecimento Cênico.

— Hoje, a nota na interpretação da dança é o elemento mais importante das competições. Se dois grupos, por exemplo, empatam na nota geral, será essa nota que acabará definindo quem fica na frente — explica.

Araújo compartilha que, no começo das oficinas, foi difícil quebrar alguns paradigmas e trabalhar técnicas de teatro, que movimentam o corpo com músicas que não são tradicionalistas. Segundo o idealizador, os grupos saem das aulas muito diferentes de como entraram.

— É um trabalho que mexe muito na questão emocional. Tanto que já foi publicado em revistas científicas de universidades federais, na Faculdade de Dança. Algumas oficinas que criamos estão publicadas. Isso, para nós, é motivo de muito orgulho — observa.

Conforme Araújo, é comum os participantes chorarem durante as intensas oficinas. Ele explica o porquê:

— Esse chorar que a gente promove é um chorar no sentido do desenvolvimento da inteligência emocional. Eles entendem que a emoção faz parte da arte e da dança. A gente não dança para ganhar ponto, mas para se desenvolver emocionalmente como pessoa.

De certa forma, a gente revolucionou a forma como a dança tradicional gaúcha é ensinada dentro dos galpões, trocando aquela rigidez que havia por algo bem mais humanizado.

O professor enumera outro motivo de gratificação. Segundo relata, dos 10 melhores grupos juvenis de dança do Estado, oito passaram pela oficina. E, dos sete melhores mirins, todos trabalharam no projeto. Além disso, acrescenta, entre os 10 melhores adultos do Encontro de Artes e Tradição Gaúcha (Enart), praticamente todos os dançarinos já estiveram nas oficinas. 

Para a professora Fabi Araújo, o projeto fortaleceu vínculos e evidencia a importância de humanizar os ensinamentos nas oficinas.

— O projeto mudou a nossa vida. Saber que humanizamos os ensaios, trocando aquela disciplina quase militar que havia quando eu ensaiava por sensibilidade e cenicidade, é maravilhoso. Hoje, há intencionalidade em cada movimento da dança, e isso se deve ao fato de ensinarmos os motivos desses movimentos, e não apenas fazê-los para somar pontos ou agradar jurados.

Como participar 

Informações sobre como participar das oficinas podem ser feitas pelo telefone (51) 99729-7816, com Leandro de Araújo, ou pelas redes sociais do projeto: no Instagram, pelo perfil @aquecimentocenico