RETRATO DA SEMANA


Homenagem ao saudoso parceiro Zé Fonseca

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

 

O GUARDIÃO DO OBELISCO DA PAZ


João Pedro Souza Rodrigues

Um obelisco de granito de sete metros de altura, cujo topo abriga um ninho de joão-de-barro, desponta nos campos de Ponche Verde como garantidor da paz entre farroupilhas e imperiais, depois de quase 10 anos de guerra civil. Erguido em 1945, no centenário da pacificação, também é o testemunho de como o Rio Grande do Sul desejou voltar a fazer parte do Império do Brasil, assegurando a unidade nacional.

Curiosidades cercam o monumento. Historiadores conceituados informam que a concórdia ocorreu em 28 de fevereiro de 1845, quando o general farrapo David Canabarro assinou o tratado confiando na "palavra sagrada" e no "magnânimo coração" de dom Pedro II. Outros preferem o 1º de março de 1845, como está gravado na pedra do obelisco, quando o marechal Luís Alves de Lima e Silva, o Caxias, confirmou o acerto. A declaração do pacificador:

- Rio-grandenses! É sem dúvida para mim de inexplicável prazer o ter de anunciar-vos que a guerra civil, que por mais de nove anos devastou esta bela província, está terminada.

Possíveis imprecisões não se limitam a datas. O diretor do Museu Paulo Firpo (Dom Pedrito), Adilson Nunes de Oliveira, 65 anos, observa que o obelisco não teria sido construído no exato lugar da pacificação, que era numa baixada. Foi deslocado para um terreno mais alto, perto da estrada, para que ficasse mais visível e assomasse na vertiginosa horizontalidade do pampa.

- De qualquer forma, é um motivo de honra para Dom Pedrito, que ficou conhecida como a capital da paz - destaca Adilson.

Além da vigilância do operoso joão-de-barro, o obelisco tem um guardião: João Pedro Souza Rodrigues, dono de um bolicho perto do monumento. É uma vendinha humilde, com paredes feitas de leivas e cobertura de capim santa-fé, mas acolhedora. O que a identifica é uma antiga placa de propaganda - "Beba Fanta" - descolorida e com amassados.

Quem vê as prateleiras meio desfalcadas, não imagina as surpresas que o bolicho pode oferecer. Se gostar das maneiras do cliente, João Pedro tira um majestoso bandônion do baú e abre os foles para executar tangos e canções do gaúcho Luiz Menezes. Nesse momento, dizem, até os cavalos atados no palanque à espera dos donos que bebem um trago de cachaça escutam as músicas.

João Pedro ganhou o bandônion (fabricado na Alemanha), do pai, Teodoro Souza, que era estancieiro apoderado mas perdeu tudo apostando em corridas de cavalo. Antes de falir, ordenou-lhe que jamais vendesse o precioso instrumento, comprado de segunda mão - teria circulado pelos cafés tangueiros de Buenos Aires.

- Depois que ficou pobre, meu pai teve de tirar mel do oco das árvores para alimentar os filhos - conta.

O filho quase seguiu a perigosa paixão de carreirista de cavalos do pai. Era jóquei - franzino, pesa 50 quilos -, mas acabou se encantando pelo bandônion. Aprendeu a tocar sozinho, ouvindo emissoras de rádio, as brasileiras e as castelhanas, pois o Ponche Verde está próximo ao Uruguai. Turistas e pesquisadores que visitam o obelisco compram refrigerantes e bolachas no bolicho, mas desconhecem o talento do comerciante.

- De tudo que é lado vem gente, até do estrangeiro - diz João Pedro.

Em setembro, nas comemorações pela Semana Farroupilha, aparecem romarias de cavaleiros. Grupos fazem tertúlias no lugar, cantando, bebendo e churrasqueando em honra aos farrapos.