A SOLIDÃO NÃO É MEME
O “caso Brad Pitt” como espelho da nossa crueldade
Esse acontecimento do ator Brad Pitt no RS já encheu, saturou. Contudo, ontem li um texto da psicóloga Carliza Welker que expressa exatamente o que penso a respeito e resolvi reproduzi-lo.
A mulher acreditou. O Brasil riu.
E
isso diz mais sobre nós do que sobre ela.
Na véspera de Natal, enquanto a maioria de nós brindava em família, uma mulher estava no aeroporto de Erechim. Ela não esperava um parente. Não esperava um voo de férias.
Ela
esperava um sonho — com nome de galã de Hollywood e promessas de uma vida nova.
O
final dessa história todos já conhecem: o encontro nunca aconteceu, o herói era
um golpista e a esperança revelou-se um estelionato emocional.
O Brasil riu. O caso viralizou. Marcas aproveitaram o “engajamento” para fazer piadas e vender produtos. O “falso Brad Pitt” virou o meme da semana.
Mas,
enquanto o país dava risada, uma família desmoronava no interior do Rio Grande
do Sul.
Como psicóloga, sinto o dever de interromper a piada para fazer uma pergunta simples — e profundamente incômoda: - quando foi que perdemos a capacidade de enxergar o humano por trás do clique?
É
muito fácil apontar o dedo e chamar de “ingênua” ou “louca” uma mulher de
cinquenta e poucos anos que acredita em um romance impossível. O que poucos
param para analisar é a engenharia perversa por trás de golpes como esse.
Golpistas não procuram pessoas “burras”. Eles procuram pessoas vulneráveis. Eles preenchem lacunas. Oferecem a escuta que ninguém oferece. O elogio que o tempo apagou. O olhar que a sociedade deixou de sustentar.
O que ela esperava naquele aeroporto não era uma celebridade. Era a materialização de uma importância que lhe foi roubada em um mundo que insiste em tornar mulheres de meia-idade invisíveis.
O
que aconteceu depois do aeroporto talvez seja ainda mais violento do que o
golpe em si.
Vivemos
a era do “marketing de oportunidade”, em que empresas não hesitam em
transformar o sofrimento alheio em estratégia de venda. Um marketing cruel, que
se alimenta do linchamento público e se esconde atrás do riso fácil.
Por trás do meme que você compartilhou existe um adolescente de 12 anos assistindo à mãe virar chacota nacional. Existe um lar onde o Natal foi substituído pelo luto da dignidade.
E a internet, tratada por muitos como “terra de ninguém”, agiu como um tribunal medieval em praça pública. A viralização veio como um tsunami.
Do
que você está rindo?
O riso, neste caso, não é humor. É defesa. Rimos para nos sentirmos superiores. Rimos para acreditar que “comigo isso nunca aconteceria”. Rimos para não tocar nas nossas próprias fragilidades.
Mas
todos nós as temos.
A
diferença é que a dela foi exposta para milhões.
O que nos leva a transformar a dor de uma mulher em entretenimento? O que nos torna tão ávidos por curtidas a ponto de ignorar que estamos pisando sobre os destroços emocionais de alguém?
Este caso não é sobre uma mulher que caiu em um golpe. É sobre uma sociedade que caiu na desumanização. É sobre o quanto nossa empatia é seletiva. E o quanto nossa sede por diversão pode ser tóxica.
A fragilidade alheia não é conteúdo. A solidão não é piada. A confusão emocional de uma pessoa ferida não é entretenimento.
Antes de digitar o próximo comentário ou compartilhar a próxima chacota, olhe-se no espelho. Se a dor do outro te provoca riso, talvez quem precise de ajuda não seja apenas a vítima do golpe.
Porque, no fim das contas, a internet passa. O meme envelhece. O engajamento some. Mas o trauma que causamos no outro permanece — silencioso, profundo e real.
E
isso também é responsabilidade coletiva.