UM ESCRITOR NÃO MORRE
fica entre análises e "joelhadas"
daquilo que criou
Para
um estado de forte tradição psicanalítica, que produziu importantes analistas,
não deixa de ser irônico que o mais famoso deles seja um personagem. Para quem
não sabe, lá pelo início dos anos 80, Luis Fernando Veríssimo crescia como
escritor, suas crônicas ganhavam o Brasil, e o empurrão definitivo para o
reconhecimento nacional foi dado pelo Analista de Bagé, seguramente a
personagem mais importante de sua carreira (Ed Mort e a falecida velhinha de
Taubaté que me perdoem).
O
Analista de Bagé é a psicanálise e seu avesso. A questão central da
psicanálise, que é a escuta atenta, fica preservada, pois é para bem de ouvir o
que têm a dizer que ele deita os pacientes em seu pelego. Ao mesmo tempo propõe
as mais descabeladas soluções – geralmente politicamente incorretas – para os
males da alma que lhe são trazidos. Ele abre o flanco para as complicações e os
raciocínios circulares dos neuróticos (nós todos), para logo a seguir arrematar
com um joelhaço, real ou verbal. No fim, para ele o problema é geralmente de
falta de laço, tarefa que não o intimida, ou de sexo, o qual, caso a paciente
seja aproveitável, ele mesmo se dispõe a sanar.
Com a introdução deste texto escrito pelo psicanalista Mario Corso, lá em 2016, notamos o diferencial do grande jornalista que ontem partiu para as Sesmarias do Infinito, Luis Fernando Veríssimo.
Foram tantas as crônicas encantadoras sobre os mais diversos assuntos que fizeram com que Luis Fernando, que carregava a responsabilidade de não baixar a régua da inteligência do sobrenome Veríssimo, se tornasse um dos maiores escritores do nosso tempo, honrando o legado deixado por seu pai Érico.
Mas um escritor de seu perfil jamais morrerá. O eco de seu saxofone continuará ecoando pelos bares de Porto Alegre, o riso e a ironia suave estarão para sempre nas páginas amareladas de nossa memória. Dos detetives desastrosos de Ed Mort a sabedoria fronteiriça do Analista de Bagé, conforme o texto acima, tudo o que escreveu tornou-se parte literária das paisagens sulinas.
Sua arte permanecerá vibrante em nossos corações.