"TEU PRESTÍGIO É PROPORCIONAL A TUA CONDUTA"

Léo Ribeiro


RETRATO DA SEMANA

RETRATO DA SEMANA
Típico gaúcho com pilcha e cavalo com encilha serranas - Provavelmente da região de Criúva -

domingo, 21 de novembro de 2021

CAUSOS DE GALPÃO


 HOTEL DO GUEDES


Do livro Rapa de Tacho: Apparício Silva Rillo

Seu Guedes estava com seu hotel, em São Borja, lotado. Noite chuvosa de inverno.

Pelo trem de Santa Maria chegou um cliente novo sendo informado de que não havia vaga. Tanto o recém chegado insistiu que Seu Guedes encontrou uma solução:

- Olhe, só há um jeito nesta hora da noite. Tenho um hóspede dormindo num quarto de duas camas. O homem é surdo e brabo. Não gosta de companhia, paga diária dobrada para não ser incomodado. Mas, pra lhe servir, posso abrir uma exceção e ceder-lhe a cama vaga. Mas, pelo amor de Deus, não faça barulho, não acenda a luz. Amanhã o quarto desocupa e o senhor fica a vontade.

Na contingência o cliente fez o que lhe foi solicitado. Na meia luz do quarto observou o companheiro que dormia, silenciosamente, nem mesmo seus suspiros se escutavam. deitado de costas tinha suas mãos cruzadas sobre o peito.

Ao amanhecer do outro dia um rebuliço de gente em frente ao quarto. Seu Guedes bateu na porta e chamou pelo "contingenciado".

- Levante rápido, amigo, que temos que retirar seu companheiro.

Sentou-se na cama o viajante. Ao seu lado, a menos de metro e meio, o companheiro de quarto: um defunto!

Furioso o hóspede enfiou as calças, abriu a porta e deu de cara com um caixão já preparado para receber o finado, mulheres chorando... Interpelou o Seu Guedes:

- Mas então isso é coisa que se faça? Me fazer dormir ao lado de um defunto?! Olhe, eu...

Seu Guedes, com a mesma calma de sempre, acomodou a situação:

- Não se irrite. O senhor dormiu o sono dos justos, descansou como um frade bem alimentado, e se lhe tocou este quarto e esta cama ao lado do viajante que morreu do coração na tardezita de ontem, foi por sua insistência.

- Mas....

- Não tem mais nem menos. Se eu lhe dissesse que tinha um defunto no quarto o senhor ia acabar dormindo num dos bancos da praça. E eu, fique o senhor sabendo, procuro ser gentil com os meus hóspedes. Sai o defunto, fica o amigo. Tudo na santa paz.