RETRATO DA SEMANA


Para quem começou este blog há 16 anos atrás com 40, 50, acessos diários, terminar o mês de junho com 99.429 acessos (somente no dia 01 já tivemos 10.040 visitas) só aumenta nossa responsabilidade. Continuamos peleando apenas pelo prazer de ser mais um guardião da cultura regional gaúcha.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

FESTA JUNINA OU FESTA CAIPIRA?




 Uma festividade que tem início no dia 13 e que vai até o dia 29 de junho e que sempre motivou enormes controvérsias é a do Ciclo Junino. Ela se manifesta no folclore de quase todo o solo brasileiro e engloba os folguedos de Santo Antônio, São João, São Pedro e São Paulo.
 
Por ser uma tradição que, como sabemos, ocorre em vários estados, cada qual deveria ter sua característica própria, o que não acontece, pois há uma tendência caipira nas comemorações.
 
A origem destes festejos, está nas antigas civilizações Greco-romanas, Godas e Celtas que, no verão europeu (junho e julho), homenageavam os Deuses da Colheita com cantigas e danças ao redor de uma fogueira.
 
Foi por intermédio dos colonizadores portugueses, entre 1580 e 1590, que estas manifestações chegaram ao Brasil sendo que os originários santos pagãos foram substituídos pelos santos católicos acima citados.
 
Mesclando ritos cristãos e pagãos, são muitas as formas de homenagear os santos favoritos, as quais podemos destacar: novenas, procissões, fogueiras, fogos de artifícios, quermesse, bailes, presságios, brincadeiras como casamento na roça, dança da quadrilha, pau-de-cebo e outros.
 
O que não se entende é a unificação na forma das comemorações. Cada estado deveria festejar o ciclo junino dentro de suas características, de suas tradições, de sua cultura própria. Ex: no Rio Grande do Sul não deveria ocorrer a incidência de chapéus-de-palha, camisas estampadas, calças remendadas, etc. Seria interessante o MTG esclarecer estas circunstâncias através de cartilhas sobre o assunto. É comum alguns professores pintarem com rolha queimada bigodinhos e costeletas na piazada, no melhor estilo Mazaropi.

Sobre este tema, há uma pesquisa muito bem feita com ótima redação do meu amigo Leandro de Araújo, o qual reproduzimos na íntegra, abaixo, sob o título de Festa Junina ou Festa Caipira?
  

Por que, existe a cultura do “caipira” em nossas Festas Juninas? 

Estudando o termo, percebemos que ele se refere a qualquer tipo humano do interior, normalmente de área rural. De acordo com o dicionário Koogan/Houaiss, caipira significa “Homem da roça ou do mato; matuto, capiau. /Pessoa tímida e acanhada. / Jogo de parada com um só dado ou com roleta, entre pessoas humildes.” Já no dicionário Antônio Olinto de Língua Portuguesa, a definição de caipira é “Habitante do campo, do interior. / roceiro, caboclo. / indivíduo tímido, acanhado”. No dicionário Aurélio encontramos “Habitante do campo ou da roça / diz-se de caipira sin. ger. jeca, matuto, roceiro, caboclo, capiau ou taboréu”. Ou seja, a expressão refere-se genericamente às pessoas ligadas ao campo, geralmente em pequenas propriedades (ou empregados de grandes propriedades), de poucas letras e pouca vivência urbana. Ora, este tipo é encontrado em todo Brasil, não necessariamente precisa figurar como o imortalizado por personagens como “Jeca Tatu”, de chapéu de palha, calças remendadas e camisa xadrez. 

A palavra “caipira”, como é definida vocabularmente, é encontrada em qualquer região brasileira, respeitando suas características físicas, culturais, históricas e geográficas. Ligar a expressão “Festa Junina” a “Festa Caipira”, por si só já é um erro crasso, no entanto, pior ainda é ligar a expressão “caipira” à imagem estereotipada pela mídia do homem do interior, maltrapilho, ignorante e ingênuo. 

Estudos dos tipos regionais brasileiros já comprovaram que a falta de letras por parte do homem do campo não significa ignorância ou falta de capacidade de aprendizado, ao contrário, o conhecimento que detém é específico e suficiente para sua sobrevivência no meio em que se encontra. A classificação de “caipira” que nos é imposta pela mídia é exatamente contrária, retratando-o como um incapaz. 

Várias teorias tentam explicar a introdução desta paródia de caipira em nossas festas juninas (digo “paródia”, pois os trajes usados nas festas juninas imitam toscamente apenas as roupas dos interioranos dos estados de São Paulo e Minas Gerais). Porém uma das explicações é a que traz uma força histórica muito grande:  A Revolução de 1930 e, principalmente, o golpe do Estado Novo em fins de 1937, foram responsáveis pela difusão impositiva do sentimento de brasilidade. Através desta agitação política, buscava-se concretizar cultural e ideologicamente a formação de mercado e de indústria nacionais centrados no eixo Rio-São Paulo. Para tal, foram fortemente subjugados os sentimentos regionais. 

Durante a “Proclamação ao Povo Brasileiro”, de 10 de novembro de 1937, Vargas denunciou o “caudilhismo regional” que “ameaçava a unidade nacional brasileira”. Em gesto simbólico mandou queimar as bandeiras regionais publicamente, ardendo entre elas, o pavilhão criado por seus antigos ídolos, Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros, em 1891. 

Em seguida, o Estado Novo promoveu a chamada “invenção da cultura nacional”, como fundamento da identidade nacional imposta. Para isso, o getulismo apoiou fortemente a seleção brasileira de futebol; nacionalizou o carnaval e o samba, as festas juninas aos moldes do sudeste brasileiro; incentivou o nascimento de arquitetura moderna brasileira; estimulou a produção musical dos temas centrados na região do “Café com Leite”. O mais curioso, é que vinha descansar em suas estâncias no sul, onde era fotografado de bombacha, tomando mate e montando à cavalo como um verdadeiro caudilho. 

A “invenção da cultura nacional” foi uma medida política e repressiva, que buscava esmagar a cultura regional para que, desta forma, não se abrisse precedentes a novas manifestações antigovernistas. O resultado desta centralização e imposição cultural foi o início da massificação da cultura da região sudeste, que até hoje é vendida ao mundo como sendo a verdadeira e única cultura brasileira. 

Podemos afirmar que até 1930 a expressão “Festa Caipira” sequer existia e também que as Festas Juninas já aconteciam na região sul do Brasil, invocando suas particularidades culturais próprias, desde que essa região começou a ser efetivamente povoada, em 1737. Se em duzentos anos de História festejou-se as datas juninas, e seus respectivos santos, através da particularidade regional de cada povo, incentivar a realização de festas caipiras, fantasiando nossas crianças de forma que ridiculariza o homem do interior, transformando-as em imitações de pequenos paulistas ou mineiros, é aplaudir o maior erro do governo de Getúlio Vargas, que tentou esmagar através da força despótica toda herança cultural regional. É lamentável, mas continuamos sendo governados por decisões arbitrárias, que há 75 anos promovem a centralização da cultura nacional, ditando através da mídia o que devemos vestir, comer ou ouvir. 

Mas como tentar reverter esta situação? Se continuarmos aprendendo que em “Festa Junina” nos fantasiamos de caipira, na Semana Farroupilha nos fantasiamos de gaúcho e no carnaval nos fantasiamos de qualquer coisa, continuaremos tratando nossa cultura como “coisa de grosso”. 

A consciência de que ao vestirmos a indumentária gaúcha não estamos nos fantasiando de gaúcho, mas vestindo um traje histórico, que representa toda a identidade cultural de um povo, sua história e cultura, não deve ser imposta, mas ensinada. Respeitar a cultura regional é respeitar a própria origem, as raízes que sustentam toda organização social vigente. Com o coração triste, mas pilchado, acompanharei mais um ano onde a televisão nos enfiará goela abaixo músicas e roupas “caipiras” em detrimento da cultura regional. Pois assim, ouvindo e vendo os meios de comunicação de massa, principalmente a televisão, cegando o povo, fica muito mais fácil vender novelas, músicas e informações. Desta forma, cada vez mais “Piriguétis” e “Tô Ficando Atoladinha” farão parte da cultura musical de nossos filhos.

 
Leandro de Araújo