RETRATO DA SEMANA


Que o acontecido com o dócil Orelha (massacre que serviu de diversão para adolescentes) sirva de alerta para dezenas de situações semelhantes de maus tratos aos animais. As penas são brandas para estes MARGINAIS.

domingo, 19 de julho de 2015

CHARLA DE PEÃO

 
*Juarez Cesar Fontana Miranda
 
Camotes de Cambicheiro
 
Buenas Gauchada!
 
Puxem um cepo, se entreverem na roda do mate e se abanquem, no más, enquanto eu vou encilhando um amargo, daqueles de esquentar os mondongos.
 
- Ô Eleutério, vai lá na prateleira, ao lado do fogão a lenha e me prepara uma dose daquela cachaça douradinha, a Bento Albino, que eu ganhei do Alambique do Espraiado, lá pras bandas de Maquiné.
 
- Mas que tal, hein, parcero véio! Hoji tu tá te puxanu, tchê?!
 
- Faz o seguinte, Eleutério: em vez de uma dose, me traz a garrafa inteira. 
 
- Ué tchê, hoji é u teu aniversáriu?
 
- Não, não é o meu aniversário, mas é para uma comemoração.
 
- Barbaridade! Nessa olada i cum essa cachaça, loca de ispeciá, naum é comemoraçaum é bebemoraçaum. Mas, entonces, naum é?
 
- Tchê, é prá comemorar, junto com os leitores da Charla de Peão, o sucesso alcançado pelo Chasque para um Cambicho, que escrevi para homenagear nossas prendas, no mês dos namorados. 
 
Foram dezenas de manifestações, das mais diferentes maneiras; todas de estímulo e muito carinhosas. Por isso, como forma de agradecimento, nada melhor que um chimarrão, bem cevado, com erva de carijo, dos pagos da Palmeira e amadrinhado por uma cachacinha, pura de alambique, da querência de Maquiné. É verdade, ou não é?
 
- É a más pura das verdade, indiu véiu. 
 
I tu sabe, tchê, qui todu esse inliu de mate cum cachaça i cambichu me fez alembrá uma gauchada, qui u meu parcero, u Ormiro, arreglô quanu nóis trabaiva na implantaçaum duma granja de arroz orgânico, na Fazenda dus Volkmann, lá im Tapes, hoji Sentinela du Sul.
 
Pos naum é qui u Ormiro se inrrabichô numa mulata, mui fremosa. A morochita, Elisete, era irmã du Vilmar, um vaqueano distrinchadu i fia du véiu Fortes, capataz da fazenda.
 
U Capataz, vendu qui o Ormiro era sériu i trabaidô, não si importava cum us camote qui u Ormiro dava na fia dele. Inté achu qui ele fazia gostu na cambichada.
 
Mas u véiu capataz, tamém naum era bocó. Nada de negaceiu nas quebrada da fazenda. Namorá a fia dele, só nu ranchu. I nada de entrá pela porta da frente. U Ormiro só si intocava na casa da Elisete, entranu pela porta da cuzinha.
 
Buenu, num fim de semana quarqué, u Ormiro inventô de fazê uma média cum a famia da gauchita. Me leva um manojo de maçanilha prá prenda, uma garrafa de cachaça pru pai dela i ajoujada na espalda, a oitu baxu, chorona.
 
Já apotreadu nu ranchu da changa, u quera sogueava a prosa cum u chimaraum, adespos imbuçalô a charla num carreteru de lambê us beiçu i tudu amadrinhadu pela baguala da cachacita, inté qui u Ormiro mete a munheca na gaita i impeça um saracoteio, bem na hora qui uma manga dágua sisparrama pelas cuxilha du pagu.
 
Noite alta i dêle água. U véio convida u Ormiro prá posá nu ranchu. Ele ajeita us pelegu num cantu i ferra nun sonu soltu. De madrugadita, cum u panduio cheiu de bóia, tem um sonhu caborteru. Dá uns gritu i si acorda assustadu.
 
A guria, percebenu u trimiliqui, le prigunta u que hove. Aí, cum a voz toda trimida, ele isplica qui teve um pesadelo, entonces ela diz:
 
- Podi drumi di novu, qui agora eu vô ficá aqui, prá ti acalmá, tá meu bem?
 
U Ormiro se acoierô na prendinha i, de novu, desatô a ronquera. Daí a um poquito si acorda i todu suadu, conta prá moçoila:
 
- Tchê, guria! Sonhei de novu. Dessa veiz eu despencava dum baita perau i quanu tava cainu, bombiei umas chirca, numa tocera. 
 
Mas báh, tchê! Mi sigurei cum toda a força, prá mode di não caí nu fundu daquele buracaum. 
 
Agora, qui já passô u susto, vamu vortá a drumi?
 
- Bueno, intaum tu soltá as maum du chircaredo, tá meu nêgo?

*Escritor e Poeta Nativista
juarezmiranda@bol.com.br