Estirado pelo catre enquanto me recupero de um procedimento me pego a pensar como o gauchismo tornou-se elitizado impossibilitando pessoas de menor poder aquisitivo participar do culto as nossas tradições ao contrário, por exemplo, das culturas populares nordestinas.
Tenho para mim que um dos motivos é que não temos mais mostras folclóricas, ou seja, tudo virou disputas e a expressão natural das necessidades de um povo rio-grandense mais humilde, o campeiro, o peão, a chinoca de vestido de chita, desapareceram em meio a uma sociedade vestida de veludo em busca de troféus.
É concurso de tiro de laço, concurso de gineteada, concurso de gaita, concurso de sapateio, concurso de trovas, concurso de poesias, concurso de músicas, concurso de prendas, concurso de peões, concurso de churrasco... Como dizia meu saudoso amigo Nilson Gonçalves lá da legendária São Chico "daqui uns dias vai ter concurso de cuspe a distância".
Esta demanda por apontar quem são os melhores levou a uma aristocratização que segregou através de uma barreira física, econômica e cultural a gauchada mais modesta.
Não se veste mais a pilcha que não seja ambicionando um prêmio. Os improvisos poéticos e musicais ao pé de um fogo-de-chão mudaram-se para os palcos iluminados. Até mesmo a dança da chula trazida pelos antigos tropeiros birivas como divertimento no entremeio das pousadas de tropas virou arrogância entre os contendores. A garra misturou-se com a prepotência e a autenticidade cedeu lugar a pirotecnia.
Realmente uma pena chegarmos aqui desta maneira excludente. Por isso mesmo admiro aquelas entidades que lutam somente com o cabo da faca para levar as nossas tradições até os seus associados.






















.webp)


