Uma festividade que tem início hoje (13 a 19 de junho) e que sempre motivou enormes controvérsias é a do Ciclo Junino. Ela se manifesta no folclore de quase todo o solo brasileiro e engloba os folguedos de Santo Antônio, São João, São Pedro e São Paulo.
Por ser uma tradição que, como sabemos, ocorre em vários estados, cada
qual deveria ter sua característica própria, o que não acontece, pois há
uma tendência caipira nas comemorações.
A origem destes festejos, está nas antigas civilizações Greco-romanas,
Godas e Celtas que, no verão europeu (junho e julho), homenageavam os
Deuses da Colheita com cantigas e danças ao redor de uma fogueira.
Foi por intermédio dos colonizadores portugueses, entre 1580 e 1590, que
estas manifestações chegaram ao Brasil sendo que os originários santos
pagãos foram substituídos pelos santos católicos acima citados.
Mesclando ritos cristãos e pagãos, são muitas as formas de homenagear os
santos favoritos, as quais podemos destacar: novenas, procissões,
fogueiras, fogos de artifícios, quermesse, bailes, presságios,
brincadeiras como casamento na roça, dança da quadrilha, pau-de-cebo e
outros.
O que não se entende é a unificação na forma das comemorações. Cada
estado deveria festejar o ciclo junino dentro de suas características,
de suas tradições, de sua cultura própria. Ex: no Rio Grande do Sul não deveria ocorrer a incidência de
chapéus-de-palha, camisas estampadas, calças remendadas, etc. Seria
interessante o MTG esclarecer estas circunstâncias através de cartilhas
sobre o assunto. É comum alguns professores pintarem com rolha queimada
bigodinhos e costeletas na piazada, no melhor estilo Mazaropi.
Sobre este tema, há uma pesquisa muito bem feita com ótima redação do meu amigo Leandro de Araújo, o qual reproduzimos na íntegra, abaixo, sob o título de Festa Junina ou Festa Caipira?
(http://blogdoleandroaraujo.blogspot.com.br/2011/05/festa-junina-ou-festa-caipira.html)
Sobre este tema, há uma pesquisa muito bem feita com ótima redação do meu amigo Leandro de Araújo, o qual reproduzimos na íntegra, abaixo, sob o título de Festa Junina ou Festa Caipira?
(http://blogdoleandroaraujo.blogspot.com.br/2011/05/festa-junina-ou-festa-caipira.html)
Por que, existe a cultura do “caipira” em nossas Festas
Juninas?
Estudando o termo, percebemos que ele se refere a qualquer
tipo humano do interior, normalmente de área rural. De acordo com o dicionário
Koogan/Houaiss, caipira significa “Homem da roça ou do mato; matuto, capiau.
/Pessoa tímida e acanhada. / Jogo de parada com um só dado ou com roleta, entre
pessoas humildes.” Já no dicionário Antônio Olinto de Língua Portuguesa, a
definição de caipira é “Habitante do campo, do interior. / roceiro, caboclo. /
indivíduo tímido, acanhado”. No dicionário Aurélio encontramos “Habitante do
campo ou da roça / diz-se de caipira sin. ger. jeca, matuto, roceiro, caboclo,
capiau ou taboréu”. Ou seja, a expressão refere-se genericamente às pessoas
ligadas ao campo, geralmente em pequenas propriedades (ou empregados de grandes
propriedades), de poucas letras e pouca vivência urbana. Ora, este tipo é
encontrado em todo Brasil, não necessariamente precisa figurar como o
imortalizado por personagens como “Jeca Tatu”, de chapéu de palha, calças
remendadas e camisa xadrez.
A palavra “caipira”, como é definida vocabularmente, é
encontrada em qualquer região brasileira, respeitando suas características
físicas, culturais, históricas e geográficas. Ligar a expressão “Festa Junina”
a “Festa Caipira”, por si só já é um erro crasso, no entanto, pior ainda é
ligar a expressão “caipira” à imagem estereotipada pela mídia do homem do
interior, maltrapilho, ignorante e ingênuo.
Estudos dos tipos regionais brasileiros já comprovaram que a
falta de letras por parte do homem do campo não significa ignorância ou falta
de capacidade de aprendizado, ao contrário, o conhecimento que detém é
específico e suficiente para sua sobrevivência no meio em que se encontra. A
classificação de “caipira” que nos é imposta pela mídia é exatamente contrária,
retratando-o como um incapaz.
Várias teorias tentam explicar a introdução desta paródia de
caipira em nossas festas juninas (digo “paródia”, pois os trajes usados nas
festas juninas imitam toscamente apenas as roupas dos interioranos dos estados
de São Paulo e Minas Gerais). Porém uma das explicações é a que traz uma força
histórica muito grande: A Revolução de 1930 e, principalmente, o golpe do Estado
Novo em fins de 1937, foram responsáveis pela difusão impositiva do sentimento
de brasilidade. Através desta agitação política, buscava-se concretizar
cultural e ideologicamente a formação de mercado e de indústria nacionais
centrados no eixo Rio-São Paulo. Para tal, foram fortemente subjugados os
sentimentos regionais.
Durante a “Proclamação ao Povo Brasileiro”, de 10 de
novembro de 1937, Vargas denunciou o “caudilhismo regional” que “ameaçava a
unidade nacional brasileira”. Em gesto simbólico mandou queimar as bandeiras
regionais publicamente, ardendo entre elas, o pavilhão criado por seus antigos
ídolos, Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros, em 1891.
Em seguida, o Estado Novo promoveu a chamada “invenção da
cultura nacional”, como fundamento da identidade nacional imposta. Para isso, o
getulismo apoiou fortemente a seleção brasileira de futebol; nacionalizou o
carnaval e o samba, as festas juninas aos moldes do sudeste brasileiro;
incentivou o nascimento de arquitetura moderna brasileira; estimulou a produção
musical dos temas centrados na região do “Café com Leite”. O mais curioso, é
que vinha descansar em suas estâncias no sul, onde era fotografado de bombacha,
tomando mate e montando à cavalo como um verdadeiro caudilho.
A “invenção da cultura nacional” foi uma medida política e
repressiva, que buscava esmagar a cultura regional para que, desta forma, não
se abrisse precedentes a novas manifestações antigovernistas. O resultado desta
centralização e imposição cultural foi o início da massificação da cultura da
região sudeste, que até hoje é vendida ao mundo como sendo a verdadeira e única
cultura brasileira.
Podemos afirmar que até 1930 a expressão “Festa Caipira”
sequer existia e também que as Festas Juninas já aconteciam na região sul do
Brasil, invocando suas particularidades culturais próprias, desde que essa
região começou a ser efetivamente povoada, em 1737. Se em duzentos anos de
História festejou-se as datas juninas, e seus respectivos santos, através da
particularidade regional de cada povo, incentivar a realização de festas
caipiras, fantasiando nossas crianças de forma que ridiculariza o homem do
interior, transformando-as em imitações de pequenos paulistas ou mineiros, é
aplaudir o maior erro do governo de Getúlio Vargas, que tentou esmagar através
da força despótica toda herança cultural regional. É lamentável, mas
continuamos sendo governados por decisões arbitrárias, que há 75 anos promovem
a centralização da cultura nacional, ditando através da mídia o que devemos
vestir, comer ou ouvir.
Mas como tentar reverter esta situação? Se continuarmos
aprendendo que em “Festa Junina” nos fantasiamos de caipira, na Semana
Farroupilha nos fantasiamos de gaúcho e no carnaval nos fantasiamos de qualquer
coisa, continuaremos tratando nossa cultura como “coisa de grosso”.
A consciência de que ao vestirmos a indumentária gaúcha não
estamos nos fantasiando de gaúcho, mas vestindo um traje histórico, que
representa toda a identidade cultural de um povo, sua história e cultura, não
deve ser imposta, mas ensinada. Respeitar a cultura regional é respeitar a
própria origem, as raízes que sustentam toda organização social vigente. Com o
coração triste, mas pilchado, acompanharei mais um ano onde a televisão nos
enfiará goela abaixo músicas e roupas “caipiras” em detrimento da cultura
regional. Pois assim, ouvindo e vendo os meios de comunicação de massa,
principalmente a televisão, cegando o povo, fica muito mais fácil vender
novelas, músicas e informações. Desta forma, cada vez mais “Piriguétis” e “Tô
Ficando Atoladinha” farão parte da cultura musical de nossos filhos.
Leandro de Araujo